A verdade nos estereótipos

Os cientistas sociais os rejeitam, mas em vez de serem universalmente errôneos, estereótipos frequentemente têm um fundamento na realidade.

 

 

Há boas razões para a má reputação dos estereótipos, que podem dar vida a propaganda malevolente acerca de grupos: representação desproporcional de afroamericanos na mídia como criminosos, mulheres como aptas a nada além de cuidar da casa e dos filhos, árabes e muçulmanos como nada além de terroristas sanguinários, judeus como nazistas gananciosos com nariz de tucano perpetrando genocídio sobre bebês palestinos inocentes. Tais caracterizações são errôneas, imorais e repugnantes, para dizer o mínimo.

 

Mas, por mais tendenciosas e destrutivas que estas imagens possam ser, muitos estereótipos — caracterizações fixas de grupos específicos — acabam tendo grãos de verdade. De fato, ainda que estereótipos perniciosos sejam errôneos, isso dificilmente refuta o que a maioria das pessoas comuns pensam sobre afroamericanos, mulheres, judeus, muçulmanos ou qualquer outro grupo. O que levanta a questão: o que as pessoas realmente creem a respeito de grupos, e são estas crenças precisas?

 

Portanto, antes de continuar, faça o favor de fazer o seguinte Quiz:

 

1. Qual grupo é mais provável que cometa homicídio?
A. Homens
B. Mulheres

2. Pessoas mais velhas geralmente são mais __________ e menos __________ do que adolescentes.
A. Conscienciosas; abertas a novas experiências
B. Neuróticas; agradáveis

3. Em que grupo étnico/racial nos EUA é provável que você encontre a maior proporção de pessoas que apoiou os candidatos à presidência democratas em 2008 e 2012?
A. Brancos
B. Afroamericanos

4. Pessoas nos EUA que se identificam fortemente como ___________ têm a maior probabilidade de ir à igreja no domingo.
A. Conservadoras
B. Liberais

5. Em 24 de dezembro de 2004, um pai e seus três filhos perambularam pela cidade de Nova Iorque a cerca de 7 da noite, procurando um restaurante, mas encontraram a maioria dos lugares fechados ou fechando. Ao mesmo tempo, a sua esposa realizava um monte de tarefas domésticas pela casa. Esta família tem a maior probabilidade de ser:
A. Católica
B. Batista
C. Judia
D. Pagã/Animista

 

As repostas aparecem no fim deste parágrafo. Se você acertou ao menos uma, você tem agora a sua própria evidência de que nem todo estereótipo é necessariamente errôneo. (As respostas são: A, A, B, A, C.)

 

Se você acertou três ou mais, parabéns — seus estereótipos avaliados aqui foram bastante precisos. Por outro lado, não fique impressionado demais consigo mesmo. Um monte de gente mantém estereótipos tão precisos quanto os seus. E ainda assim, foi martelado na cabeça da maioria de nós que “estereótipos são errôneos”. Por que isso?

 

Para começar, muitos cientistas sociais tem tido uma preocupação profunda com o combate à opressão — antissemitismo no resultado imediato da Segunda Guerra Mundial, racismo e sexismo seguindo os movimentos pelos direitos civis e das mulheres nos anos 1960, entre outros. Combater a opressão é uma coisa boa, e os opressores exploram estereótipos, então estereótipos são vistos como coisa ruim.

 

Se você fizer quase qualquer afirmação sobre qualquer grupo, o modo mais rápido de rejeitarem a sua afirmação é declarando: “Isso não passa de um estereótipo!”. Isso “funciona” por causa do pressuposto generalizado de que estereótipos são errôneos, e a insinuação implícita de que você provavelmente é intolerante. Assim, qualquer avaliação da validade da sua afirmação é frustrada pela rejeição peremptória.

 

Ainda assim, propósitos morais altivos (ou a ausência dos mesmos) não se traduzem em verdades científicas (ou a sua ausência). Não é comum que presumamos que pessoas fazendo outras generalizações — digamos, acerca do clima em Madri ou do gosto de laranjas — estão fazendo algo ruim ou errôneo. Apesar disso, a noção de generalizações acerca de pessoas como uma coisa inerentemente ruim e errônea tem sido há muito embutida na ciência sem nenhuma prova. É quase impossível fazer pesquisa científica social sobre estereótipos sem deparar com a ênfase erudita na sua imprecisão.

 

Quando iniciei a minha pesquisa, presumi que todos os cientistas sociais declarando que esterótipos são errôneos estavam certos. Queria saber das bases para as suas afirmações — não para refutá-las, mas para promovê-las e proclamar para o mundo os dados científicos duros mostrando que estereótipos são incorretos. Então, quando algum artigo publicado citava alguma fonte como evidência de que esterótipos eram errôneos, eu ia atrás da fonte na esperança de conseguir a evidência.

 

E, de vagar, por muitos anos, fiz uma descoberta: não havia evidência nenhuma. Afirmações de imprecisão de estereótipos se baseavam em… nada. Por exemplo, um artigo clássico de 1977 descrevendo a pesquisa dos psicólogos sociais Mark Snyder, Elizabeth Tanke e Ellen Berscheid declarava: “Estereótipos frequentemente são errôneos”. Tudo bem, mas habitualmente artigos científicos são necessários para apoiar tais afirmações, tipicamente por meio da citação de uma fonte oferecendo a evidência. Isto é importante para que qualquer pessoa encontre a evidência para uma afirmação dessas. Não há fonte nenhuma aqui.

 

 

Conforme eu lia mais da literatura sobre estereótipos, eu descobria que este padrão era generalizado. Todo artigo ou livro que declarava que estereótipos eram errôneos ou similarmente não citavam fonte nenhuma, ou acabavam num idêntico beco sem saída através de uma rota levemente diferente. Muitos pesquisadores citam o livro de referência do psicólogo social Gordon Allport The Nature of Prejudice (1954) em apoio à afirmação de que estereótipos são errôneos, ou ao menos exageros de diferenças reais. E Alport declarou sim que esterótipos exageram diferenças reais. Mas, tirando uma ou duas anedotas, que dificilmente é evidência científica, ele não apresentou evidência nenhuma de que eles realmente são.

 

Estas práticas criaram o que chamo de “Mito da Imprecisão dos Estereótipos”. Psicólogos famosos declarando errôneos os estereótipos sem uma citação ou evidência significava que qualquer um podia fazer igualmente, criando uma ilusão de que imprecisão generalizada dos estereótipos era “ciência estabelecida”. Pesquisadores subsequentes podiam declarar imprecisos os estereótipos e podiam criar a aparência de apoio científico citando artigos que também faziam a afirmação. Só se alguém procurasse pela pesquisa empírica subjacente a tais afirmações que descobriria que não havia nada lá; só um buraco negro.

 

“Mas espere!”, diz você. “Os pesquisadores com frequência definem estereótipos como errôneos, não é que eles declaram que são empiricamente errôneos, e eles podem definir seus termos do modo que quiserem”. A que eu respondo: “Tem certeza de que é esse o argumento que vai usar para defender a viabilidade de ‘estereótipos são errôneos’?”

 

Olhemos no argumento mais de perto. Se todas as crenças sobre grupos são estereótipos, e todos os estereótipos são definidos como errôneos, então todas as crenças sobre grupos são errôneas. No entanto, é logicamente impossível que todas as crenças sobre grupos sejam errôneas. Isso tornaria “errôneo” crer seja que grupos diferem seja que eles não diferem, e ambos não podem ser errôneos. A ideia de que “todas as crenças sobre grupos são esterótipos e são todas errôneas” pode ser rejeitada sumariamente como logicamente incoerente.

 

Poderíamos eliminar este problema modificando o que se quer dizer por definir estereótipos como errôneos. Talvez estereótipos sejam o subconjunto de crenças que são errôneas. Neste caso, somente crenças errôneas são estereótipos; crenças precisas acerca de grupos podem existir, mas não são estereótipos. Isto resolve a incoerência lógica que vem da presunção de que toda crença acerca de grupos é errônea. Mas produz um novo tipo de incoerência.

 

Antes de declarar que certa crença é um estereótipo você teria que primeiro estabelecer empiricamente que essa crença é errônea — se não, você não poderia saber que é um estereótipo. E por ‘estabelecer empiricamente’ não quero dizer a sua vivência pessoal, citar jornal ou discutir um filme. Quero dizer fazer pesquisas sistemáticas das crenças dos leigos, comparar essas crenças com critérios rigorosos (como dados de senso ou outros estudos rigorosos de diferenças de grupos) e mostrar que as crenças das pessoas não correspondem a esses critérios. Apenas um número minúsculo de cientistas sociais fazendo pesquisa sobre estereótipos se dá ao trabalho de apresentar evidências desse tipo; qualquer um que subscreva a ideia de que precisamos de prova empírica deve concluir que trabalho sem esta não conta. Estou disposto a ser ser bastante crítico à pesquisa sobre estereótipos, mas a necessidade lógica inexorável de descontar milhares de estudos como insignificantes vai longe de mais, até para mim.

 

 

Uma primeira resenha da evidência sobre precisão em estereótipos apareceu em meu livro Social Perception and Social Reality: Why Accuracy Dominates Bias and Self-Fullfilling Prophecy (2012), e foi atualizada subsequentemente em artigos recentes. Mais de 50 estudos foram agora feitos avaliando a precisão de estereótipos demográficos, nacionais, políticos, entre outros.

 

A evidência é clara. Com base em critérios rigorosos, as crenças dos leigos acerca de grupos correspondem bem com o modo como esses grupos realmente são. Esta correspondência é um dos efeitos maiores e mais replicáveis em toda a psicologia social. A precisão em estereótipos tem sido obtida e replicada por múltiplos pesquisadores independentes estudando diferentes estereótipos e usando diferentes métodos pelo mundo inteiro. Descobriu-se que as pessoas são muito boas em perceber realizações acadêmicas, personalidade e uma variedade de características econômicas entre grupos raciais e étnicos nos Estados Unidos e no Canadá.

 

Por exemplo, lá pelos anos 1978, num estudo reportado no Journal of Personality and Social Psychology, os psicólogos sociais Clark McCauley e Christopher Stitt obtiveram primeiro dados de um senso dos EUA mostrando que, em comparação com outros americanos, os afroamericanos têm menos probabilidade de completar o ensino médio ou superior, e mais probabilidade de ter uma mãe solteira, estar desempregados e ter uma família com quatro ou mais filhos. Eles então perguntaram a pessoas de todas as condições de vida — estudantes do ensino médio e superior, membros de sindicatos, um coral de igreja, mestres de estudantes de trabalho social e assistentes sociais numa agência de serviço social — acerca das suas crenças sobre a porcentagem de americanos em geral e afroamericanos em particular com estas características. As porcentagens estimadas das pessoas estavam próximas às dos dados do senso, e correlacionavam extremamente alto com as diferenças reais.

 

As pessoas também são muito boas em perceber diferenças de gênero. Pelos anos 1990, várias metaanálises (análises que combinam resultados de muitos outros estudos) de diferenças entre sexos foram publicadas. Assim como McCauley e Sitt começaram com dados de senso dos EUA, a psicóloga social Janet Swim, em dois estudos reportados numa edição de 1994 do Journal of Personality and Social Psychology, tomou esta pesquisa de metaanálise como o seu ponto de partida, que mostrou, por exemplo, que os homens superam as mulheres em testes de matemática, e são mais inquietos e agressivos, enquanto as mulheres são mais influenciadas pela pressão de grupo e são mais hábeis na decodificação de pistas não-verbais. Ela então pedia às pessoas para estimar o tamanho destas diferenças; de novo, as pessoas eram muito boas, e as suas estimativas novamente correlacionavam de modo muito alto com as diferenças reais. Resultados similares foram encontrados para todo outro tipo de estereótipo, incluindo aqueles acerca de grupos étnicos, faixas etárias, grupos ocupacionais, formações universitárias e repúblicas de estudantes.

 

 

Embora haja certa evidência de estereótipos nacionais e políticos errôneos, em geral, a evidência para a precisão vem se revelando há 40 anos, e se tornou tão esmagadora que até cientistas sociais que talvez preferissem simplesmente ignorar ou negar estão achando difícil. Se alguém não pode mais bater no peito em indignação justa por conta da imprecisão dos estereótipos, como pode ainda salvar o dia retórico? Minimize a importância da precisão em estereótipos. Às vezes, pesquisadores modernos admitem relutantemente que estereótipos são precisos, mas prosseguem declarando ou implicando que isto não é muito importante.

 

Por exemplo, em seu influente livro Prejudice: Its Social Psychology (2010), Rupert Brown escreve: ‘A questão de se estereótipos são “objetivamente” (im)precisos é só de interesse marginal para a maioria dos estudante do preconceito’. Outra tática é argumentar que, ainda que estereótipos tenham alguma precisão enquanto generalizações, eles ainda são rígidos e errôneos quando aplicados para julgar indivíduos. Por exemplo, um dos mais populares livros-textos de introdução à psicologia social de todos os tempos, The Social Animal (2011) de Elliot Aronson, declara: ‘Estereotipar é permitir que aquelas figuras dominem o nosso pensamento, levando-nos a atribuir características idênticas a qualquer pessoa num grupo, independentemente da variação real entre membros daquele grupo.’

 

Por exemplo, ainda que os americanos asiáticos, na média, tenham realizações em matemática mais altas do que outros americanos, ainda é irracional presumir que qualquer dado estudantes de ensino médio americano asiático é um gênio da matemática destinado a uma carreira na engenharia, não é? Bem, quando fraseado desse modo ‘vamos apresentar o que as pessoas creem de um modo tão extremo e exagerado quanto possível de modo que possamos bater no peito em indignação justa acerca da natureza inválida e presunçosa dos seus estereótipos’, até eu tenho de concordar que isto é inapropriado.

 

Mas será que estes tipos de exagero extremos são comuns? Ou será que as pessoas usam os seus estereótipos de um modo que se aproxima do racional?

 

‘Espere’, quase posso ouvir você dizer, ‘O que “estereotipagem racional” pode sequer significar? Ainda que estereótipos de grupos tenham alguma precisão, isso não justifica usá-los para julgar pessoas. Devemos julgar indivíduos com base nos seus méritos, não com base em estereótipos!’

 

Há certa verdade nesta objeção. Confiar em generalizações imprecisas produzirá imprecisão ao julgarmos casos individuais. Isto pode ser visto com um exemplo não-social. Se Fred acredita que Anchorage, Alaska é mais quente que Madri, Espanha, e ele confia nesta crença para adivinhar onde estará mais quente, ele estará errado na maioria das vezes. Não é diferente com estereótipos. Se Elmer crê que jogadores profissionais de basquete são comumente baixos, e se ele confia nesse estereótipo para adivinhar as suas alturas, ele frequentemente estará muito errado.

 

Aceitando a premissa de que estereótipos acerca de todo grupo são imprecisos, segue logicamente que, para sermos precisos, nunca deveríamos usar esses estereótipos para julgar indivíduos. No entanto, o pressuposto é inválido. O que devemos fazer se o nosso estereótipo não está errado? Considere as três situações:

 

1. Não sabemos nada acerca da pessoa exceto o seu grupo.
2. Sabemos algo acerca da pessoa, mas não muito.
3. Sabemos bastante coisa acerca da pessoa.

 

Considere o caso da temperatura em Anchorage versus Madri. A maioria das pessoas razoavelmente informadas sabe que geralmente é mais quente em Madri. Se você não sabe nada mais acerca do tempo hoje, e você deseja ser tão preciso quanto possível em predizer a alta de hoje em cada local, você predirá temperaturas mais quentes em Madri. Isso significa que as suas crenças sobre o clima são irracionais? Que você é um bitolado anti-Anchorage? Claro que não. Significa que você reconhece que, sem boa razão para crer o contrário, sempre será melhor o palpite de que o lugar com temperatura média mais alta é mais quente.

 

A mesma lógica se aplica a estereótipos. Se lhe pedem para predizer quem tem maior renda anual, Leroy Jefferson, que é afroamericano, ou George Billingsworth, que é americano branco, o que você deveria fazer? Se você sabe alguma coisa sobre a renda dos afroamericanos e dos brancos nos EUA, você predirá que George é mais rico. Você deveria predizer isto toda vez que lhe perguntam. Sempre predizer que a pessoa branca seria mais rica não seria perfeitamente preciso — mas fazê-lo o levaria a ser o mais preciso possível sob as circunstâncias. Significaria que você percebe os afroamericanos como todos iguais, ou que você é um tipo de bitolado? Claro que não.

 

Em outras situações, as pessoas podem ter informação única sobre uma pessoa que pode ser útil, porém não definitiva. Essa informação pode ser limitada ou ambígua, de modo que, embora possa influenciar o juízo, não pode determinar qual deve ser o juízo. No caso do tempo em Anchorage versus Madri, digamos que você recebe uma informação acerca de cada localização: Jane, alguém que morou a vida toda em Anchorage, considera ‘frio’ hoje: e Jan, alguém que morou a vida toda em Madri, considera ‘frio’ hoje. Você não conhece Jan nem Jane, e não recebe nenhuma outra informação.

 

A ‘informação única’ que você tem é idêntica para os dois locais. Você deveria, portanto, predizer que têm temperaturas idênticas? Isto seria tolo. Neste caso, você provavelmente seria mais preciso confiando na informação única (ambas as residentes consideraram ‘frio’, então está mais frio que de comum em ambos os locais), mas também na generalização válida de que o Alaska é comumente mais frio do que a Espanha. Estimar que Anchorage é mais fria do que Madrid ainda tem mais probabilidade de estar correto que estimar que as duas temperaturas são idênticas.

 

A mesma lógica se aplica a estereótipos. Considere estereótipos de ativistas pela paz e membros da Al-Qaeda. Você ouve a mesma coisa sobre um indivíduo de cada grupo: eles ‘atacaram’ os Estados Unidos. Isso significa que se comportaram de modo idêntico? Não é muito provável. O ataque perpetrado pelos ativistas pela paz tem mais probabilidade de ser uma crítica verbal das políticas dos EUA; o ataque da Al-Qaeda provavelmente é algo mais violento. Predizer que o ataque da Al-Qaeda seria idêntico ao ataque do grupo pela paz seria tolo. Usar estereótipos provavelmente o auxiliará, não o prejudicará, a chegar a um entendimento válido da natureza dos ataques.

 

Os mesmos princípios se aplicam para grupos acerca dos quais é socialmente inaceitável manter estereótipos com base em gênero, nacionalidade, raça, classe social, religião ou etnia. Se o estereótipo é aproximadamente preciso e tem-se apenas um pouquinho de informação ambígua acerca de um indivíduo, usar estereótipos como base para julgar a pessoa provavelmente aumentará a precisão.

 

Finalmente chagamos à situação em que informação acerca de um alvo particular é clara, relevante e altamente informadora. Refiro a tal informação como ”definitiva’ porque responde diretamente qualquer pergunta que se tem acerca da pessoa sendo julgada. Por exemplo, ao julgar realizações acadêmicas, podemos ter as notas de teste padronizado, posição na classe e média de notas na universidade do requerente universitário. Quando temos esta informação, o estereótipo significa muito menos — da mesma forma que significaria se soubéssemos as temperaturas exatas em Anchorage e Madri.

 

Por exemplo, jogadores de basquete profissionais tendem a ser altos. É muito raro encontrar um mais baixo que 1,90 m, e isso é muito alto. Mas, de vez em quando, um cara realmente baixo consegue entrar na National Basketball Association. Spud Webb era jogador titular nos anos 1990, e tinha mais ou menos 1,67 m. Agora que você sabe da altura dele, o seu estereótipo de jogador de basquete deveria influenciar o seu juízo da altura dele? Claro que não. A altura dele é a altura dele, e a filiação dele num grupo geralmente alto — jogadores de basquete profissionais — é completamente irrelevante. Em situações em que se tem informação abundante, vividamente clara e relevante acerca de um indivíduo, o estereótipo se torna completamente irrelevante.

 

 

Diante de tal lógica, devemos ainda proceder com cautela ao decidir aplicar ou não os nossos estereótipos a um indivíduo. Estereótipos quase nunca são perfeitamente precisos e alguns deles são altamente imprecisos. Estereótipos políticos são tanto precisos como imprecisos. As pessoas sabem bastante coisa sobre diferenças em posições políticas entre aqueles na esquerda versus direita do espectro político, mas as pessoas também exageram consistentemente essas diferenças, tipicamente crendo que os partidários têm opiniões mais extremas do que realmente têm. Por exemplo, as pessoas em geral sabem que os liberais são mais pró-escolha e apoiam o casamento gay mais do que os conservadores. No entanto, tanto liberais como conservadores tendem a enxergar diferenças liberais/conservadores sobre estes assuntos como consideravelmente maiores do que realmente são.

 

Também encontramos umas imprecisões generalizadas em estereótipos acerca de diferenças em personalidade atravessando nacionalidades. Por exemplo, você pode ficar bastante surpreso em descobrir que os japoneses marcam bem baixo em conscienciosidade em bem alto em neuroticismo — o oposto do estereótipo deste grupo. Calha que as crenças das pessoas acerca destes tipos de características dificilmente correspondem absolutamente com como as pessoas em 26 culturas, incluindo Argentina, França, China, Rússia, Reino Unido e EUA, são realmente.

 

Para lidar com a complexidade, é melhor recorrer ao estereótipo somente se outras informações são faltantes ou ambíguas, e desconsiderá-lo quando temos informação definitiva. Mas até aqui precisamos ter cuidado. Tendemos a ser confiantes demais quanto à validade das nossas crenças. Humildade é preciso. A não ser que tenhamos excelente evidência para a validade de nossas crenças, provavelmente não deveríamos estar muito certos quanto à correção dos nossos estereótipos. Se não estamos certos, confiar neles é bastante duvidoso. Ademais, se estamos tomando decisões importantes — algo como uma contratação ou decisão de admissões universitárias —, cabe a nós nos certificarmos de que arranjemos tanta informação definitiva quanto possível.

 

Se as pessoas confiassem em seus estereótipos mais ou menos racionalmente, elas confiariam neles para informar juízos quando tivessem pouca ou nenhuma informação definitiva, mas os ignorariam quando tivessem informação definitiva. E isso é exatamente isso que a maioria das pessoas calha de fazer.

 

Tipicamente, quando as pessoas têm informação clara, definitiva e relevante, elas confiam nesta informação quase exclusivamente. De fato, a confiança em características pessoais, em vez de estereótipos, está lá no alto com a precisão dos estereótipos como um dos efeitos maiores e mais replicáveis na psicologia social. Uns 20 anos atrás, quando o psicólogo social Ziva Kunda e o filósofo Paul Thagard tabularam todos os estudos que conseguiram encontrar que se dirigiam a este assunto, eles concluíram que efeitos de características únicas e pessoais em juízos eram enormes. Os efeitos de estereótipos em tais situações são pequenos ou inexistentes. Por outro lado, quando informação pessoal está ausente, ou é ambígua, as pessoas confiam sim em seus estereótipos, embora até nestas situações, vieses de estereótipos são não muito grandes.

 

Em anos recentes, a psicologia científica tem sido atormentada por uma série de ameaças à sua validade e credibilidade. Revelações de fraude, práticas de pesquisa questionáveis, dificuldades em replicar estudos famosos e conclusões amplamente injustificadas vieram à tona. Dado tudo isso, podemos esperar psicólogos gritando para o mundo que, em precisão de estereótipos e enorme confiança em características pessoais, encontramos dois fenômenos válidos, replicáveis independentemente e poderosos. Mas se alguém pensou isso, está errado.

 

Atestados da imprecisão dos estereótipos ainda dominam livros-textos e resenhas sobre estereotipação. Muitos pensam em ‘negação da ciência’ como algo primeiramente característico da descrença direitista na ciência climática e na evolução. No entanto, aparentemente ela está firme e forte na própria resistência dos cientistas sociais à evidência esmagadora da alta precisão e racionalidade nos estereótipos de muita gente.

 

Se a evidência esmagadora não modificar a sua crença na chamada ‘imprecisão’ dos estereótipos, o que poderia? Em contraste com religiões e ideologias, as ciências se autocorrigem diante de novas evidências, e a esperança é que você leve essa evidência em consideração. Nada neste ensaio deve dissuadir ninguém a continuar esforços para combater a discriminação. Espero, no entanto, que com respeito à afirmação de longa data de que ‘estereótipos são imprecisos’, ele tenha persuadido você de que um tanto de autocorreção científica é urgente.

 

 

Lee Jussim é professor de psicologia da Rutgers University em New Jersey. Ele publicou amplamente sobre percepção social, precisão, profecias autocumpríveis e estereótipos. Seu livro mais recente é Social Perception and Social Reality: Why Accuracy Dominates Bias and Self-Fulfilling Prophecy (2012).

Tradução: Luan Rafael Marques

Link para o original.

Este estudante de filosofia está extremamente interessado e esperançoso pelas crescentes ciências da mente. Ele acredita que podemos chegar ao consenso pelo diálogo racional e superar nossos vários tribalismos. Ele também acredita que um grande passo nessa direção é esclarecer sobre os fatos da nossa natureza e vieses, seguir o oráculo e conhecermo-nos a nós mesmos. A Rainha de Copas disse a Alice que conseguia acreditar em seis coisas impossíveis antes do café-da-manhã. Ele está quase lá.

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