Um pouco sobre comportamentos inúteis

Por que temos ações aparentemente desprovidas de utilidade? Você já se perguntou sobre o que está relacionado aos movimentos sinuosos e bruscos que um jovem faz com o joystick do Playstation sem que tais movimentos possam produzir algum efeito sobre o jogo?

 

Hábitos inúteis são intrigantes na mesma proporção em que são engraçados. Eu poderia apostar que o leitor já deve ter visto alguém gesticular e dar instruções para uma tela de televisão que transmitia uma partida de futebol ou outro esporte no formato equipe/desempenho, ou esquivar-se de socos invisíveis ao assistir uma luta de boxe ou filme de ação. Provavelmente também já viu pessoas gesticulando instrutivamente enquanto falavam ao celular, como se os gestos pudessem ilustrar melhor o que estava sendo dito ao interlocutor.

 

Torcedor quebra televisão a tapas ao comemorar a classificação da seleção brasileira para as quartas de final da Copa do Mundo de 2014. Fonte: bomjardimnoticia.com

 

Quando uma pessoa que trabalha como motorista há anos se vê obrigada a se sentar no banco do carona, pode acabar fazendo movimentos com os pés a procura de pedais inexistentes, principalmente ao visualizar obstáculos na pista. Se for alguém acostumado com veículos longos, como as carretas, pode acabar fazendo inutilmente (e perigosamente) curvas abertas demais ao dobrar esquinas quando estiver dirigindo um carro popular.

 

QUAL O PORQUÊ DESSA INUTILIDADE TODA?

 

Todas essas ações citadas são exemplos de comportamentos operantes, que são aqueles comportamentos que modificam as condições ambientais e são por elas modificados (Skinner, 1953). Então, que tipo de história de interação com condições ambientais poderia estar por trás das ações inúteis? Vamos antes procurar por uma explicação fora da literatura analítico-comportamental. Comentários valiosos a esse respeito foram feitos por Charles Darwin em 1872:

 

Sempre que um homem desejou mover um objeto para um lado, empurrou-o para aquele lado; se quis movê-lo para a frente, empurrou-o para frente; e se desejou pará-lo, puxou-o para trás. Portanto, quando um jogador vê sua bola tomar uma direção errada e deseja intensamente que siga outra direção, não pode deixar de, por um antigo hábito, inconscientemente fazer movimentos que em outras situações julgou eficazes (DARWIN, 2000 [1872], p. 17).

 

Certamente você percebeu que Darwin deu uma explicação histórica para o evento: a ação inútil do jogador seria um resquício de ações que foram eficazes no passado para desviar, parar ou promover trajetórias. A Análise do Comportamento segue também esse modelo de explicação.

 

Em praticamente todos os âmbitos nos quais o homem opera podemos apontar exemplos de ações inúteis. Por outro lado, as ações inúteis não são exclusividade da nossa espécie; os outros animais também apresentam comportamentos que aparentemente não têm utilidade: ao receberem um carinho que imita uma coçadinha na barriga, cachorros e porcos podem fazer movimentos repetitivos com uma das patas (geralmente traseira), como se estivessem coçando o ar; um cavalo pode dar saltos e coices quando está aparentemente feliz após uma chuva; não raras vezes bezerros dão cabeçadas em vão e coices no ar no que parecer ser uma comemoração por terem escapado do cercadinho. Que utilidade teriam estes comportamentos?

 

Bezerro saltita entremeio a coices e cabeçadas no vão, como se estivesse comemorando. Fonte: hiveminer.com

 

Um detalhe relevante sobre algumas destas ações aparentemente inúteis, é que são quase “involuntárias”, no sentido de que são respostas operantes que ocorrem com magnitude parecida com as dos comportamentos reflexos. Talvez o leitor já tenha experimentado pilotar uma motoneta Biz após um período relativamente logo em que pilotou apenas um moto CG. Mesmo sabendo que a direção da pressão necessária para trocar as marchas da Biz é diferente, ainda assim passamos um tempo respondendo como se estivéssemos pilotando uma CG, sem o controle do que o pé está fazendo.

 

Quando realizamos experimentos com o comportamento de ratos ou pombos, observamos que algumas respostas continuam a ocorrer por um tempo, mesmo quando retiramos sua consequência mantenedora. Chamamos esse processo em que se subtrai o que mantém o comportamento ocorrendo de “extinção operante”, e chamamos as respostas emitidas depois disso de “resistência à extinção”. Podemos chamar a resistência à extinção de ações inúteis, pois elas nada produzem. Porém, a resposta resiste apenas por um tempo, deixando de ocorrer depois de diversas tentativas sem efeito. Se, porventura, em vez de deixarmos o comportamento se extinguir, liberarmos o reforçador apenas de vez em quando, teremos um comportamento altamente resistente à extinção (Lundin, 1974). A resistência à extinção é uma maneira muito persistente de responder a determinadas situações, apesar de nenhum efeito desejado ser produzido. Aparentemente, a maioria das nossas ações, úteis ou inúteis, está mantida em regime intermitente de reforçamento, ou seja, nossas ações ora produzem o efeito esperado, ora não.

 

As instruções inúteis ditas a uma tevê que transmite um jogo podem às vezes ser seguidas de um gol. Aqui não se pretende dizer que o gol tenha sido causado pelas instruções do homem, óbvio que não. O que se quer dizer é que a ocorrência do gol pode fortalecer os hábitos que o homem apresentou antes da rede balançar. Por isso, vemos hábitos de usar determinadas camisas, dar instruções, usar uma certa meia, ou repetir uma palavra durante os jogos na tevê, pois dá “sorte”. Possivelmente, estes hábitos inúteis se estabeleceram (inclusive por imitação), variaram e foram mantidos durante o histórico de todos os jogos assistidos pelo sujeito. Tecnicamente falando, chamamos isso de “comportamento supersticioso”, que pode ser facilmente estabelecido experimentalmente em outros animais. Como nem sempre o time vence, o hábito acaba sendo fortalecido em um regime intermitente, o que, como foi dito acima, gera resistência à extinção.

 

Contudo, nem todas as ações inúteis são comportamentos supersticiosos altamente resistentes à extinção. Gesticular ao telefone e procurar pedais inexistentes estando sentado no banco do carona são exemplos de resquícios de comportamentos que foram úteis em situações anteriores. Quando a configuração de uma contingência sofre alguma alteração, acabamos emitindo comportamentos que anteriormente foram úteis, mas que agora, devido à nova configuração, sofrem extinção ou são punidos. Podemos entender “contingência” por unidade de análise que considera as condições ambientais que antecederam e que sucederam um comportamento em questão.

 

Se configurações contingenciais levemente distintas se intercalarem regularmente, algumas ações inúteis nunca se extinguirão. A condição de falar cara a cara se intercala regularmente com a condição de falar ao telefone, o que contribui para que os gestos que são úteis em uma conversa frente a frente continuem acontecendo inutilmente quando se fala ao telefone.

 

Sujeito falando ao celular e gesticulando inutilmente para seu interlocutor. Fonte: depositphotos.com

 

Até aqui é possível dividir as ações inúteis em dois tipos:

  • Comportamentos supersticiosos altamente resistentes à extinção e;
  • Comportamentos que se tornam inúteis depois de uma mudança na configuração da contingência.

 

É INÚTIL COMEMORAR E AGREDIR OBJETOS INANIMADOS?

 

Porém, muita dúvida recai sobre o comportamento de comemorar, visto na nossa espécie e aparentemente também em outras. Comemora-se com gritos, socos no ar, pulos, coices em vão, tipos específicos de relinchados e mugidos. Que utilidades poderiam ter estes comportamentos? Na hipótese de serem totalmente inúteis, deveríamos nos questionar até que ponto a natureza pode ser dispendiosa.

 

Poderíamos conjecturar que diante de alguns tipos de reforçamento positivo, como ganhar uma competição – ou tipos de reforçamento negativo, como escapar de um cercadinho –, sirvam também como estímulo eliciador para estados corporais sentidos como uma “tensão” a ser aliviada com gritos, socos no ar, pulos, coices em vão, tipos específicos de relinchados, mugidos e tapas em televisões.

 

Nessa hipótese, o comportamento de comemorar seria um operante que tem a função de aliviar a tensão dos estados corporais eliciados em virtude de um reforçamento negativo ou positivo dado. Temos aqui que considerar os paradigmas respondente e operante simultaneamente. Na verdade, na prática eles nunca estão separados (Reese, 1978). Seria mais ou menos assim: SD: R1 → SR+ da qual decorre CS → CR da qual decorre SD → R2 → SR-, no qual R1 é a reposta operante que obteve algum reforçamento positivo, como o time do sujeito ter vencido o campeonato, o que também serve como CS ou estímulo condicionado que elicia CR, que são as respostas reflexas e estados corporais condicionados e sentidos sob a forma de uma “tensão” a ser aliviada, que servem também como SD ou estímulo discriminativo para a ocorrência de R2, que é a resposta operante de comemorar, e que é reforçada negativamente pelo alívio da tensão de CR (ou seja, o mesmo arranjo de estímulos que reforçou positivamente um operante, eliciou respostas reflexas sob a forma de “tensão” corporal, que serviram como estímulo discriminativo para a emissão de outro operante, cuja função é de aliviar a tensão, e desse modo é reforçado negativamente). Se alivia, então não podemos considerar como inútil o comportamento de comemorar. Talvez a tal tensão possua em algum grau propriedades aversivas, pois aparentemente os comportamentos que aliviam a “tensão” são fortalecidos negativamente. Sobre o torcedor ilustrado acima, acredita-se aqui que, após o alívio da tensão gerada pela vitória da seleção, a visão de sua tevê danificada tenha servido como evento-estímulo para respostas emocionais de raiva e tristeza e como punição para o operante de comemorar batendo em objetos caros.

 

E o comportamento enraivecido contra objetos inanimados? Que utilidade teria para o seu Madruga agredir o próprio chapéu? Penso que o paradigma operante-respondente-operante descrito acima também se aplica a esse caso. Quando agredia o chapéu, ele evitava as consequências aversivas que viriam caso revidasse o tapa da dona Florinda, e ainda aliviava a tensão corporal eliciada pela punição que recebeu dela. Desse modo, considerando que alivia a “tensão”, agredir objetos inanimados também não é inútil. 

 

Personagem “Sr. Madruga”, da série Chaves, agredindo o próprio chapel. Fonte: fotolog.com

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Como o leitor deve ter percebido, algumas ações podem até ser inúteis, mas possuem histórias de desenvolvimento que justificam suas ocorrências. Elas possuem, ou já possuíram, uma funcionalidade. A galinha cisca inutilmente quando não há obstáculos entre ela e o grão de milho porque ciscar tinha funcionalidade quando o obstáculo esteve lá, nesse caso, possivelmente, na história filogenética. Nós e os demais animais somos engraçados em várias coisas que fazemos, mas aparentemente nada do que fazemos é isolado de uma história, seja ela do indivíduo, do grupo ou da espécie.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

DARWIN, Charles. A expressão das emoções nos homens e nos animais [1872]. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

 

LUNDIN, Robert. Personalidade: uma análise do comportamento. 2ª ed. São Paulo: EPU, 1977.

 

REESE, Hellen. Análise do comportamento humano.4ª ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1978.

 

SKINNER, B.F. Ciência e Comportamento Humano. Brasília: Ed. UnB/ FUNBEC, (1953), 1970.

 

Desde seu nascimento, em 1990, vive no estado de Rondônia, Brasil. Durante seus primeiros 18 anos, período em que residiu em uma chácara, adquiriu o prazer por observar animais. Iniciou a graduação em Psicologia no ano de 2009, e se impressionou muito, a princípio, com a Psicanálise, migrando de modo gradativo para ideias cognitivistas e, por fim, migrou para a Análise do Comportamento, área com a qual se identificou apaixonadamente. Formou-se no final de 2013. Trabalhou de 2014 a 2017 como psicólogo da ação social no município de Santa Luzia d’Oeste/RO, mas exonerou-se do cargo para tomar posse como psicólogo da Educação no município de Alta Floresta d’Oeste, ambos na condição de funcionário público efetivo. Em sua práxis, utiliza-se dos conhecimentos e técnicas derivados da Ciência do Comportamento.
Os autores que mais o impressionaram foram C. Darwin, W. James, L. Wittgenstein e B.F Skinner.

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