Terapia Cognitivo-Comportamental em Grupo (TCCG): um breve resumo

No Brasil, as atividades com grupos vêm recebendo cada vez mais atenção, sobretudo pelas novas concepções de saúde psicológica, proporcionadas pela reforma psiquiátrica; por permitirem intervenções de maior custo-benefício, ao atender diversas pessoas em um mesmo período de tempo; ou mesmo pelas características particulares desse formato que, diferente do modelo individual, promove diversas transformações subjetivas através das trocas de experiências entre os participantes

 

Porém, a área da saúde, em geral, se constituiu historicamente a partir da lógica individual e privatista, se traduzindo em grande parte dos serviços psicológicos que ainda privilegiam o atendimento individual, ou até mesmo através da psicoterapia breve, como uma forma de buscar atender as grandes demandas de saúde mental da população.

 

Dessa forma, as Instituições formadoras cada vez mais são desafiadas a repensar a formação em saúde, para que busque atender as necessidades sociais e aproxime os serviços da comunidade. Nesse sentido, a Psicologia pode contribuir de diversas formas e, dentre elas, estão os diversos modelos da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), que apesar de algumas diferenças, compartilham três proposições fundamentais: (1) a de que o comportamento é influenciado pela atividade cognitiva, (2) que a atividade cognitiva pode ser monitorada e alterada e, por consequência, (3) que o comportamento pode ser influenciado via mudança cognitiva.

 

Se você quiser explorar mais o assunto, encontrará conteúdo sobre a história da TCC aqui (https://goo.gl/w15f89), sobre o que ela é aqui (https://goo.gl/tsrbwg) e aqui (https://goo.gl/Y4pB5y), além de uma discussão mais detalhada sobre crenças e comportamento aqui (https://goo.gl/mY9fYn).

 

Fonte: Beck (2011) Cognitive Behavior Therapy.

 

Podemos considerar que os principais objetivos da TCC são de proporcionar mudanças cognitivas, comportamentais e emocionais, para as pessoas que buscam atendimento psicológico e, entende-se que em grupo, os objetivos sejam os mesmos, porém, com foco nos diversos fatores provenientes do formato grupal, onde as várias intervenções e estratégias baseadas no arcabouço teórico da TCC são utilizadas.

 

Sendo assim, em TCCG considera-se a ocorrência Fatores Terapêuticos, particulares a modalidade grupal, sendo eles: 1) Instilação de Esperança, sendo considerada um dos principais fatores de manutenção dos participantes no processo, principalmente no início; 2) Universalidade, caracterizada pela percepção dos participantes de que não estão sozinhos e não são os únicos com determinado problema, encontrando outros participantes com relatos semelhantes; 3) Coesão grupal, que se refere a noção de pertencimento dos participantes com um determinado grupo; 4) Compartilhamento de Informações, que está relacionado as diversas visões e hábitos existentes entres os participantes; 5) Altruísmo, que se apresenta por meio da sensibilidade em relação às dificuldades, problemas e limites do outro, em conjunto ao desejo de ajudá-lo; 6) Comportamento Imitativo, proporcionado pela possibilidade de usar as experiências dos outros participantes como modelo para si mesmo; 7) Aprendizado Interpessoal, caracterizado pela interação entre os diversos padrões de aprendizado que sofrem intervenção dos demais participantes; 8) Estrutura do Contexto, ou seja, a forma e os princípios formais pelos quais a intervenção está baseada; 9) o Paciente e 10) a Liderança do terapeuta, afinal, nenhuma intervenção está ocorre sem a influência das personalidades dos participantes que, muitas vezes, é potencializada nas relações grupais.

 

Cabe lembrar que todos os fatores podem potencializar os resultados esperados, como também dificultá-los, afinal, por exemplo, da mesma forma que o Comportamento Imitativo permite a aquisição de comportamentos mais adaptativos com base no modelo de outros participantes, essa aquisição também pode ocorrer com comportamentos disfuncionais. Dessa forma a análise constante sobre o grupo e o bom uso das estratégias cognitivas e comportamentais devem estar em pleno domínio do terapeuta que se propõe a desenvolver atividades grupais.

 

Sobre a eficácia da TCCG, diversos estudos já foram realizados para avaliá-la em relação à vários fenômenos. Citando alguns: em uma meta-análise, os autores encontraram resultados significativos após intervenções e no follow-up para o tratamento de insônia, melhorando tanto a qualidade quanto a quantidade do sono dos participantes (KOFFEL; KOFFEL; GEHRMAN, 2015). Em outra meta-análise, por sua vez, observou-se um efeito significativo do tratamento da depressão a favor da TCCG em relação a grupos de controle não-ativos (OKUMURA; ICHIKURA, 2014). Por fim, através da meta-análise de Hofmann; Wu & Boettcher (2014), observou-se grandes efeitos na redução de sintomas de ansiedade e na melhoria de qualidade de vida dos participantes.

 

 

Na prática, os grupos de TCCG ainda podem ser divididos em quatro formatos: 1) grupos de Apoio; 2) Psicoeducação, 3) Orientação/Treinamento e 4) Terapêuticos. Os grupos de Apoio geralmente são voltados para o manejo de sintomas crônicos; os grupos de Psicoeducação, por sua vez, visam desenvolver o autoconhecimento dos participantes através da Psicoeducação e resolução de problemas cotidianos; os grupos de Orientação/Treinamento, como o próprio nome demonstra, têm por objetivo orientar e treinar os participantes para que alcancem mudanças cognitivas e; por fim, os grupos Terapêuticos possuem ações mais estruturadas e visam atender demandas específicas como intervenções sobre transtornos mentais.

 

Sendo assim, a TCCG se mostra como uma metodologia viável por oferecer diversos recursos metodológicos e conceituais para compreender a situação de vida de cada sujeito, suas particularidades e potencialidades, possibilitando intervenções focadas e voltadas para o desenvolvimento desejado em cada contexto. Além disso, levando em consideração a grande quantidade de demanda por saúde mental, a modalidade em grupo se mostra como uma alternativa viável por permitir a formação de vínculos entre os participantes do grupo, compartilhamento de vivências semelhantes, fortalecimento social, além da participação de diversos sujeitos ao mesmo tempo.

 

 

REFERÊNCIAS

 

BECK, Juidith S.. Terapia Cognitivo-Comportamental: Teoria e prática. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2013.

 

BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Cadernos de Atenção Básica: Saúde Mental. 34. ed. Brasília: Editora MS, 2013.

 

CIMINO, Ana Paula Noriko; SIQUEIRA, Danielle de Fátima da Cunha Cavalcanti de. Psicologia e Saúde Pública: Cartografia das Modalidades de Prática Psicológica nas Policlínicas. Revista Psicologia e Saúde, [s.l.], v. 1, n. 8, p.14-23, 16 jun. 2016. Universidade Catolica Dom Bosco. http://dx.doi.org/10.20435/2177093×2016103.

 

DOBSON, Keith S. et al. Manual de Terapias Cognitivo-Comportamentais. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2006.

 

GUANAES, Carla; JAPUR, Marisa. Fatores terapêuticos em um grupo de apoio para pacientes psiquiátricos ambulatoriais. Revista Brasileira de Psiquiatria, [s.l.], v. 23, n. 3, p.134-140, set. 2001. FapUNIFESP (SciELO). http://dx.doi.org/10.1590/s1516-44462001000300005.

 

HOFMANN, Stefan G.; WU, Jade Q.; BOETTCHER, Hannah. Effect of cognitive-behavioral therapy for anxiety disorders on quality of life: A meta-analysis.. Journal Of Consulting And Clinical Psychology, [s.l.], v. 82, n. 3, p.375-391, 2014.

 

KOFFEL, Erin A.; KOFFEL, Jonathan B.; GEHRMAN, Philip R.. A meta-analysis of group cognitive behavioral therapy for insomnia. Sleep Medicine Reviews, [s.l.], v. 19, p.6-16, fev. 2015.

 

KNAPP, Paulo. Princípios Fundamentais da terapia cognitiva. In: KNAPP, Paulo. Terapia Cognitivo-Comportamental na Prática Psiquiátrica. Porto Alegre: Artmed, 2004. Cap. 1. p. 19-41.

 

McCABE, Randi E. Prefácio. In: NEUFELD, Carmem Beatriz; RANGÉ, Bernard P.. Terapia Cognitivo-Comportamento em Grupos: das evidências à prática. Porto Alegre: Artmed, 2017. Cap. 19. p. 349-363.

 

NEUFELD, Carmem Beatriz et al. Aspectos técnicos e o processo em TCCG. In: NEUFELD, Carmem Beatriz; RANGÉ, Bernard P.. Terapia Cognitivo-Comportamento em Grupos: das evidências à prática. Porto Alegre: Artmed, 2017. Cap. 2. p. 33-54.

 

PITOMBEIRA, Delane Felinto et al. Psicologia e a Formação para a Saúde: Experiências Formativas e Transformações Curriculares em Debate. Psicologia: Ciência e Profissão, [s.l.], v. 36, n. 2, p.280-291, jun. 2016. FapUNIFESP (SciELO). http://dx.doi.org/10.1590/1982-3703001722014.

 

OKUMURA, Yasuyuki; ICHIKURA, Kanako. Efficacy and acceptability of group cognitive behavioral therapy for depression: A systematic review and meta-analysis. Journal Of Affective Disorders, [s.l.], v. 164, p.155-164, ago. 2014.

Graduando em Psicologia, ex-monitor (2014-2016) da disciplina de Psicologia Comportamental, do laboratório de Psicologia Experimental da Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI). Foi presidente do Centro Acadêmico De Psicologia Prof. Pedro Antônio Giraldi (2017), membro discente do Colegiado e da comissão de Auto-Avaliação do curso de Psicologia (2017). Atualmente é membro discente de Psicologia do Colegiado do Centro de Ciências da Saúde da UNIVALI e atua como bolsista no Projeto de Extensão Interdisciplinar ConVivendo com a Síndrome de Fibromialgia.

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