Temos um arraigado viés anti-lucro que nos cega para os benefícios sociais de mercados livres

 

“Aproveitar o motivo ‘de base’ do interesse material próprio para promover o bem comum é talvez a mais importante invenção social que a humanidade já alcançou”, disse o economista americano Charles Schultz. E você pode ver o porquê. Ao mesmo tempo em que reconhecem seus problemas, muitos dão crédito ao capitalismo de mercado livre pela redução dramática na proporção de pessoas no mundo vivendo em pobreza extrema durante as últimas décadas, sem dizer do aumento dos padrões de saúde e avanços tecnológicos. Por outro lado, de acordo com alguns comentadores, precisamos somente olhar para a contemporânea Venezuela para ver os perigos de um socialismo extremamente anti-lucro.

 

Ainda assim, de acordo com um novo artigo publicado no Journal of Personality and Social Psychology, a maioria de nós tem um viés anti-lucro instintual. Nós vemos empresas e indústrias com fins lucrativos – sobre as quais o capitalismo é baseado – de maneira inerentemente desconfiada, assumindo que quão mais lucrativas elas são, mais danos elas causam à sociedade. Mas, na verdade, pesquisas mostram que o oposto é verdadeiro: empresas que lucram muito de fato tendem a contribuir mais para a sociedade, por exemplo em termos de responsabilidade ambiental e filantropia corporativa.

 

Os autores do novo artigo, liderados por Amit Bhattacharjee na Erasmus University, acreditam que este viés anti-lucro leva muitos eleitores e políticos a endossar políticas que provavelmente levarão a resultados para a sociedade que são muito opostos daqueles que eles querem alcançar. “Crenças anti-lucro errôneas podem levar a políticas econômicas sistematicamente piores para a sociedade, mesmo que elas ajudem pessoas a satisfazer suas necessidades sociais e expressivas em um nível individual”, disseram os autores.

 

Através de sete estudos separados envolvendo centenas de participantes online, os pesquisadores apresentam evidências de que o viés anti-lucro surge porque nós pensamos sobre fins lucrativos de uma maneira um tanto quanto superficial e egocêntrica. Uma vez que o desejo pelo lucro é visto como baseado em um objetivo egoísta, nós extrapolamos e assumimos que as atividades das empresas e indústrias com fins lucrativos devem ser ruins para a sociedade, não levando em conta que, na realidade, objetivos egoístas podem ter consequências positivas.

 

Nós também nos referimos às nossas próprias mundanas experiências de “soma zero”, tal como ao comprar um carro, no qual o lucro do vendedor se dá a nossas custas. Nós falhamos em considerar como forças de mercado operam em grande escala, na qual empresas com fins lucrativos (competindo em um mercado livre e com clientes informados) precisam inovar, comportar-se justamente e desenvolver uma boa reputação para que sejam lucrativas a longo prazo.

 

No primeiro estudo, por exemplo, participantes avaliaram algumas empresas, classificadas dentre as 500 mais lucrativas do mundo (Fortune 500), em termos do quão lucrativa eles pensavam que elas eram e o quanto eles pensavam que elas tomavam parte em práticas de negócio ruins, tal como operar ao custo dos outros sem nenhuma preocupação para com a sociedade. Houve um padrão claro: quão mais lucrativa os participantes pensavam que as empresas eram, mais eles pensavam que elas exerciam práticas de negócio ruins. Entretanto, na realidade, peritos avaliam que estas empresas mostram um padrão oposto.

 

Em outro estudo, participantes foram apresentados a vinhetas de diferentes empresas e foram informados se aquelas empresas tinham fins lucrativos ou não. Os participantes avaliaram essas empresas, que realizam as mesmas práticas de negócio, como mais prováveis de causar dano social e menos provável de trazerem benefícios sociais se elas fossem descritas como tendo fins lucrativos.

 

Bhattacharjee e seus colaboradores descobriram que eles poderiam atenuar o viés anti-lucro de seus participantes se eles os impelissem a pensar sobre como uma motivação por lucros a longo prazo poderia encorajar maior inovação e qualidade de produto, melhor tratamento dos funcionários e maior preocupação com reputação. Entretanto, pensar desta forma não parece vir naturalmente. A linha de base dos julgamentos dos participantes sobre empresas com fins lucrativos foi a mesma quando eles foram ativamente encorajados a supor que clientes encaram poucas escolhas e não detêm informações sobre a reputação da empresa (o que não é o caso em um mercado livre, uma economia conduzida por lucros).

 

Um arraigado viés anti-lucro foi geralmente encontrado, não importando o conhecimento econômico ou preferência política dos participantes. Este foi um estudo americano, portanto ainda se deve verificar se o mesmo viés anti-lucro será encontrado em outras culturas. De qualquer forma, como os pesquisadores destacam, seus participantes “vivem em uma das sociedades mais orientadas pelo mercado na história humana”, e ainda assim “mesmo que eles experienciem os benefícios do mercado, eles expressam pouca fé no poder dos mercados para criar e recompensar valor para sociedade”.


Crenças Anti-Lucro: Como as Pessoas Negligenciam os Benefícios Sociais do Lucro

 

Tradução: Jerônimo Gregolini Pucci

Leia o artigo original aqui.

Sobre o autor: Christian Jarret é editor do BPS Research Digest.

Meus principais interesses são Filosofia da Psicologia, Filosofia da Mente e Psicologia Experimental. Penso que a divulgação da ciência psicológica e dos campos da filosofia relacionados ao empreendimento científico em Psicologia é uma importante forma de se combater a pseudociência e os abusos pós-modernos dentro do cenário acadêmico de Psicologia no Brasil. Sou Psicólogo pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Amo video games e tenho um gosto peculiar para música.

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