Subjetividade, não subjetivismo — uma distinção crucial

 

Quando questionados quanto à produção científica e tecnológica da psicologia, alguns psicólogos e estudantes de psicologia — frente à dificuldade de se dar uma resposta rápida para tal situação — acabam por alegar que a psicologia é de alguma forma uma ciência especial, diferente das outras, pois ela estudaria a subjetividade humana. Este objeto de estudo seria tão imensamente complexo e diversificado que outros cientistas ou até mesmo leigos não deveriam exigir resultados concretos, certeiros, da psicologia. Será?

 

Note, não tentarei negar a existência da subjetividade humana em nenhum momento, seja esta entendida como qualia, seja entendida como conjunto idiossincrático de condições e relações que levam alguém a ser ele(a) mesmo(a) e não outrem.

 

O ponto que se deve levantar é que a psicologia, tal como qualquer outra ciência fatídica, estuda fenômenos naturais, e estes, por sua vez, devem ser analisados. Analisar um fenômeno significa nada mais do que tomar um evento complexo e dividi-lo em eventos mais simples, mais fáceis de serem estudados. No contexto da psicologia, mas também de tantas outras ciências, alguns fenômenos estudados parecem infinitamente intricados e sui generis, o que leva alguns apressados a afirmar a irredutibilidade do seja-lá-o-que-for que está querendo se estudar. Acontece que mesmo estes eventos hiper-complexos são compostos por partes menores e por relações constantes (padrões) perfeitamente descritíveis e, muitas vezes, manipuláveis.

 

A subjetividade, então, passa ser um fenômeno a ser analisado se utilizando das ferramentas científicas tradicionais. Padrões funcionais de contingências ambientais (para agradar os behavioristas) e diversos padrões de processamento cognitivo (para agradar os cognitivistas) poderiam, talvez, ser entendidos como pequenas e simples peças de Lego que ao se somarem, desde o início da vida do indivíduo, acabam por formar uma escultura estocástica, sui generis, que é a subjetividade individual.

 

 

Para fazer uma analogia, tente pensar em todas as possíveis relações físicas e químicas que uma bola de gude (ou qualquer outro objeto físico) pode fazer parte. As possibilidades são infinitas, não são?

 

Nem por isso — quer dizer, nem por todas as infinitas relações concebíveis dos objetos físicos — a física e a química perdem de qualquer forma sua objetividade. Elas simplesmente descrevem o conjunto de padrões simples que compõem um evento complexo qualquer.

 

Por que o mesmo não se aplicaria à psicologia, sendo que ela é uma ciência fatídica tal como as que acabei de mencionar?

 

Preocupa-me essa vulgata acadêmica que temos na psicologia brasileira de definir o objeto de estudo da psicologia como a subjetividade e, pior, darmos um salto lógico ao compreendermos que subjetividade implica em subjetivismo. A subjetividade, de um lado, é um fenômeno natural complexo como qualquer outro, e é composto por eventos e padrões descritíveis também como qualquer outro. O subjetivismo, por outro lado, parte da ideia de que nenhuma regra natural, nenhuma constância descritível ou possibilidade de análise cabe ao estudo da subjetividade. Se fosse o caso que o subjetivismo estivesse correto, deveríamos esperar que a psicologia não conseguisse descrever nenhum padrão comportamental ou cognitivo (o que é obviamente contradito por todo conhecimento científico que temos sobre os mais variados fenômenos psicológicos). Em outras palavras, caso o subjetivismo estivesse correto, teríamos de esperar tão somente a extinção da psicologia enquanto ciência devido à sua impossibilidade.

 

Portanto, psicólogos e futuros psicólogos, ou a psicologia é uma ciência como qualquer outra e nós devemos prestar contas ao público ao produzir conhecimento científico sobre a subjetividade e seus componentes, ou a psicologia enquanto ciência acaba aqui.

Meus principais interesses são Filosofia da Psicologia, Filosofia da Mente e Psicologia Experimental. Penso que a divulgação da ciência psicológica e dos campos da filosofia relacionados ao empreendimento científico em Psicologia é uma importante forma de se combater a pseudociência e os abusos pós-modernos dentro do cenário acadêmico de Psicologia no Brasil. Sou Psicólogo pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.
Amo video games e tenho um gosto peculiar para música.

2 comentários em “Subjetividade, não subjetivismo — uma distinção crucial

  1. Adorei o argumento! Compartilho desse mesmo incômodo. Acho engraçado como esse mesmo pessoal do subjetivismo adora explicar certas coisas como produto da sociedade e cultura, mas não conseguem interpretar pq gostam tanto da escapada do subjetivismo. O “conhece-te a si mesmo” não vale para eles. Então, em época de explicar o que as pessoas fazem por meio das condições materiais de existência (para agradar histórico-culturais) ou por meio das contingências culturais que selecionam certas práticas (para agradar behavioristas), desconfio que essa adoção do subjetivismo na psicologia brasileira atual tem a ver com uma história de influências do pensamento (e do jeito de pensar) europeu na nossa cultura, uma pobreza de recursos para a produção cientifica/experimental, e, obviamente, a preguiça intelectual de muuuuitos psicólogos, professores e alunos. Parafraseando a literatura, “carecem de ter coragem”.

    1. Primeiramente, obrigado pelo comentário!
      Assim como você, também acredito que essa adoção do subjetivismo se dá pela influência européia em nossa cultura. Contudo, acredito que um termo mais acurado para substituir “europeia” (visto que a Filosofia produzida no UK e por alguns filósofos austríacos e alemães, como por exemplo Frege e o Círculo de Viena, é bem diferente) seria “continental”. Nossa formação acadêmica em filosofia e ciências sociais é totalmente continental. Não temos quase nenhum contato com filosofia analítica ou sequer com as ferramentas intelectuais mais alinhadas a esta corrente filosófica.
      Diria, aliás, que não são poucos os que desconhecem a divisão entre filosofia continental e analítica — e, portanto, acabam acreditando que filosofia contemporânea se resume aos autores franceses do século XX, o que é uma lástima dado a qualidade da produção dos mesmos.

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