Serotonina, dopamina, noradrenalina: o humor é química?

Existe atualmente uma relação entre estados de humor e conhecidos neurotransmissores como a serotonina, dopamina e noradrenalina, chamados de monoaminas. É comum ler em revistas populares de divulgação científica que alimentos, como por exemplo o chocolate, “melhoram” o humor por aumentar a concentração destes neurotransmissores no cérebro. Já o exercício físico o melhora por liberar endorfinas no cérebro.

 

O fato é que, embora esses neurotransmissores possam produzir mudanças em estados emocionais, estas mudanças são transitórias. É somente após uma exposição contínua e prolongada a essas substâncias que se observa alterações duradoras no humor, muito mais estáveis que os estados emocionais.

 

Podemos encontrar raízes históricas do “pensamento químico” do humor desde Hipócrates, o pai da medicina. Foi na década de 50, no entanto, que a ciência identificou moléculas capazes de alterar o humor de pessoas depressivas. Ao buscar fármacos para tuberculose, cientistas acidentalmente descobriram que aumentando níveis de serotonina e noradrenalina no cérebro de pacientes depressivos, era possível obter melhora no quadro clínico. Isto levou à conclusão lógica de que a depressão era causada por níveis reduzidos dessas monoaminas no cérebro — o nascimento da teoria monoaminérgica dos transtornos de humor. Embora tenha fornecido um frutífero campo para pesquisas da neurobiologia das emoções, esta teoria se mostrou repetidamente falha.

 


Em primeiro lugar, os antidepressivos aumentam os níveis de neurotransmissores como serotonina e noradrenalina em um período de horas depois de ingeridos. No entanto, a resposta a esses medicamentos e a consequente melhora no quadro clínico só aparecem depois de semanas de uso contínuo! Além disso, uma alimentação pobre em triptofano, que consequentemente reduz os níveis de serotonina, não produz nenhuma alteração no humor de pessoas sem histórico de doença mental. Ademais, o uso de antidepressivos por pessoas sem transtornos de humor não produz nenhuma alteração ou melhora no humor.

 

Todos esses dados demonstram que os níveis de neurotransmissores no cérebro não podem ser responsáveis pelo controle direto e imediato do humor. Embora importantes para a regulação do humor e de uma gama de outros comportamentos, as monoaminas não são a resposta final para explicar o humor e seus transtornos.

 

Novas teorias precisam explicar a latência para o início dos efeitos dos antidepressivos e encontrar mediadores que produzem alterações diretas sobre o humor. Alguns alvos promissores foram encontrados, como as neurotrofinas. Estas moléculas têm sua produção aumentada no cérebro após exposição crônica, mas não aguda, aos antidepressivos. Embora seja um interessante alvo para investigação, a teoria das neurotrofinas ainda falha em responder várias das perguntas sobre a neurobiologia do humor e dos transtornos do humor.

 

 

Autor: Eero Castrén.

Tradução: Rodrigo Klein.

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