Seleção sexual

 

Tendo nascido no pequenino vilarejo galês de Llanbadoc 141 anos depois de Alfred Russel Wallace, sempre tive uma simpatia furtiva por gente ávida por dar a Wallace faturamento conjunto com Darwin pela “Melhor Idea que Alguém Já Teve”.

 

Dito isso, não acho que a Evolução por Seleção Natural seja a melhor ou mais valiosa ideia de Darwin.

 

Pensadores precedentes, de Lucrécio a Patrick Matthew, assimilaram que havia algo inevitavelmente verdadeiro na ideia da Seleção Natural. Caso nem Darwin nem Wallace tivessem existido, alguém mais teria aparecido com uma teoria similar; muitas pessoas práticas, sejam admiradores de pombos ou cruzadores de cães, já tinham assimilado os princípios práticos muito bem.

 

Mas, para o seu tempo, a seleção sexual era uma ideia verdadeiramente extraordinária, fora da caixinha. Ainda é. Uma vez que se entende a seleção sexual — junto com a sinalização custosa, desenfreamento fisheriano, indicadores, heurísticas, satisfaciência e assim por diante — toda uma hoste de comportamentos que eram desconcertantes ou aparentemente irracionais de repente fazem perfeito sentido.

 

O corpo de ideias que saem da teoria da seleção sexual explica não só anomalias naturais como o rabo do pavão — também explica a extraordinária popularidade de muitos comportamentos e gostos humanos aparentemente insanos. Da existência de Bens de Veblen como caviar a absurdos mais mundanos como a máquina de escrever.

 

(Por quase um século durante o qual poucos homens sabiam usá-la, a máquina de escrever deve ter causado danos à produtividade de negócios em um grau absurdo; significava que toda santa comunicação de um negócio e governo tinha que ser escrita duas vezes: uma vez pelo autor à mão e daí mais uma vez pelo datilógrafo ou datilografia. Uma série de simples emendas podiam atrasar uma carta ou memorando por uma semana. Mas a posse e uso de uma máquina de escrever era um gasto necessário para sinalizar que seu negócio era sério. Qualquer advogado de província que persistisse em escrever cartas à mão se tornou um pavão sem rabo.)

 

 

Mas, tome nota, eu cometi o mesmo delito que todas as outras pessoas cometem quando escrevem sobre a seleção sexual. Confinei meus exemplos de seleção sexual àquelas ocasiões em que ela foge de controle e leva a ineficiências custosas. Máquinas de escrever, Ferraris, rabos de pavão. Alces aparecerão a qualquer momento agora, espere só. Mas isso não é justo.

 

Você deve ter percebido que há muitos poucos belgas famosos. Isso é porque quando você é um belga famoso (Magritte, Simenon, Brel) todo o mundo presume que você é francês.

 

Do mesmo jeito, há poucos exemplos comumente citados de seleção sexual bem sucedida pois, quando a seleção sexual tem sucesso, as pessoas atribuem casualmente o sucesso à seleção natural.

 

Mas a tensão entre seleção sexual e natural — e a interação entre as duas forças divergentes — pode ser realmente a grande história aqui. Muitas inovações humanas não teriam saído do chão sem o instinto humano de sinalização de status (por mais ou menos uma boa década, carros eram inferiores a cavalos como um meio de transporte — foi a neofilia e as corridas automotivas em busca de status da parte dos humanos, não a busca por “utilidade”, que deu luz à Ford Motor Company). Então não pode ser o mesmo na natureza? Que, nas palavras de Geoffrey Miller, a seleção sexual oferece o “financiamento de estágio inicial” para os melhores experimentos da natureza? Assim as vantagens de aptidão sexual de expor cada vez mais plumagem nos lados de um pássaro (em vez de, como o pavão, super-investir insensatamente no espoliador traseiro) pode ter tornado possível para os pássaros voar. A capacidade cerebral humana de lidar com um vasto vocabulário provavelmente surgiu mais pelos propósitos de sedução do que qualquer outra coisa. Mas a maioria das pessoas evitará dar crédito à seleção sexual onde for que puderem. Quando funciona, a seleção sexual é chamada de seleção natural.

 

Por que isso? Por que a relutância em aceitar que a vida não é só uma busca tacanha por maior eficiência — que há espaço para opulência e ostentação também? Sim, sinalização custosa pode levar à ineficiência econômica, mas tais ineficiências são também necessárias para estabelecer valiosas qualidades sociais como confiabilidade e compromisso — e talvez altruísmo. Polidez e boas maneiras são, afinal, simplesmente sinalização custosa numa forma cara-a-cara.

 

Por que as pessoas estão felizes com a ideia de que a natureza tem uma função de contabilidade, mas muito menos confortáveis com a ideia de que a natureza necessariamente tem uma função de marketing também? Devemos desprezar as flores porque são menos eficientes que a grama?

 

Se estiver procurando ideias subestimadas e subpromulgadas, um bom lugar para começar é sempre com aquelas ideias que, por qualquer razão, de algum modo incomodam gente tanto na esquerda política como na direita.

 

A seleção sexual é uma ideia dessas. Os marxistas odeiam a ideia. Os neoliberais não gostam dela. Ainda assim, eu argumentaria, quando os conceitos que a subjazem — e os efeitos que ela forjou na nossa psicologia evoluída — forem melhor compreendidos, ela poderia ser a base para uma forma nova e melhor de economia e política. Uma sociedade em que nossos instintos de sinalização são canalizados em direção a comportamentos de soma positiva poderia ser muito mais feliz enquanto consome menos.

 

Mas até Russel Wallace odiava a ideia da seleção sexual. Por alguma razão ela se situa na importante categoria de ideias que a maioria das pessoas — e intelectuais em especial — simplesmente não quer acreditar. Que é a razão pela qual ela é minha candidata hoje para a ideia mais carente de maior transmissão.

 

 

Rory Sutherland é um publicitário britânico, diretor criativo executivo da OgilvyOne.

Tradução: Luan Rafael Marques

Link para o original.

 

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