Raciocínio motivado

 

Por que, numa era em que temos a informação do mundo inteiro no fácil acesso dos nossos dedos, ainda há tanto desacordo generalizado entre as pessoas sobre fatos básicos? Por que é tão difícil fazer as pessoas mudarem de ideia acerca da verdade até diante de evidências esmagadoras?

 

Talvez algumas das crenças errôneas sejam resultado de um aumento na difusão intencional de informação falsa, um problema exacerbado pela eficiência da internet. Mas informação falsa tem sido difundida basicamente desde que tivemos a habilidade de difundir informação. Mais importante, as mesmas tecnologias que permitem a difusão eficiente de informação falsa também nos oferecem a habilidade de fazer verificação factual da nossa informação de modo mais eficaz. Para a maior parte das questões, podemos encontrar uma resposta de confiança e credibilidade mais facilmente do que qualquer pessoa já pôde em toda a história humana. Resumindo, temos mais acesso à verdade do que nunca. Então por que crenças falsas persistem?

 

 

Os psicólogos sociais ofereceram uma resposta convincente a esta questão: O fracasso das pessoas em alterar suas crenças em resposta à evidência é resultado de um problema profundo com a nossa psicologia. Em suma, os psicólogos mostraram que o modo como processamos informação que entra em conflito com nossas crenças existentes é fundamentalmente diferente do modo como processamos informação que é consistente com estas crenças, um fenômeno que foi batizado de “raciocínio motivado”. Especificamente, quando somos expostos a informação que se engrena bem com o que já acreditamos (ou com o que queremos acreditar), somos rápidos em aceitá-la como factual e verdadeira. Categorizamos prontamente esta informação como mais um exemplar de evidência confirmatória e seguimos em frente. Por outro lado, quando somos expostos a informação que contradiz uma crença cara, tendemos a prestar mais atenção, escrutinar a fonte de informação e processar a informação cuidadosa e profundamente. Como não é de surpreender, isto nos permite achar defeito na informação, rejeitá-la e manter nossas crenças (potencialmente errôneas). O psicólogo Tom Gilovich captura este processo de modo elegante, descrevendo nossas mentes como sendo guiadas por duas perguntas diferentes, dependendo de se a informação é consistente ou inconsistente com as nossas crenças: “Posso acreditar nisto?” ou “Devo acreditar nisto?”.

 

Isso se aplica não só a crenças políticas como a crenças sobre ciência, saúde, superstições, esportes, celebridades e qualquer outra coisa em que você possa estar inclinado (ou desinclinado) a acreditar. E há bastante evidência de que este viés é bem universal — não é só uma peculiaridade de indivíduos altamente politizados na esquerda ou na direita, um sintoma dos muito opiniosos ou um defeito de personalidades narcisistas. De fato, eu posso detectar facilmente o viés em mim mesmo com o mínimo de reflexão — quando me apresentam evidência médica sobre os benefícios da cafeína à saúde, por exemplo, eu me congratulo com entusiasmo pelos meus hábitos de beber café. Quando me mostram um estudo concluindo que a cafeína tem efeitos negativos à saúde, eu escrutino os métodos (“os participantes não foram atribuídos aleatoriamente à condição!”), o tamanho das amostras (“40 homens em idade universitária? Por favor!”), o periódico (“quem sequer ouviu falar dessa publicação?”) e tudo o mais que eu puder.

 

Antes de terminar, um pouco mais de reflexão sobre este viés, e eu admito que estou aflito. É bem possível que, por causa do raciocínio motivado, eu tenha adquirido crenças que são distorcidas, tendenciosas ou francamente falsas. Eu poderia ter adquirido estas crenças enquanto mantivesse o tempo todo um desejo sincero de encontrar a verdade genuína da questão, expondo-me à melhor informação que pudesse encontrar sobre um tópico e fazendo um esforço genuíno para pensar crítica e racionalmente acerca da informação que encontrei. Outra pessoa com um conjunto diferente de crenças preexistentes pode chegar à conclusão oposta seguindo estes mesmos passos, com o mesmo desejo sincero de saber a verdade. Em suma, até quando raciocinamos sobre as coisas com cautela, podemos empregar este raciocínio seletivamente sem nunca nos darmos conta. Espera-se que simplesmente saber do raciocínio motivado possa nos ajudar a derrotá-lo. Mas não sei de nenhuma evidência indicando que irá.

 

 

David Pizarro é professor de psicologia na Cornell University, e co-apresentador do podcast Very Bad Wizards.

Tradução: Luan Rafael Marques.

Link para o original.

Comentários no Facebook