Qual deve ser a função da moralidade

 

Para projetar um sistema moral ideal, primeiro defina sua função.

 

Percebi em minha última publicação que muitos filósofos morais de inclinação científica sugerem que a moralidade deve aspirar objetivos utilitários (maximizando o bem-estar para o maior número de pessoas/seres). Também notei que embora o utilitarismo soe como um grande princípio, na prática é irrealista e particularmente inútil para gerenciar a competitividade humana.

 

John Stuart Mill (1806-1873)

Contudo, admiro bastante a ideia de que poderíamos identificar princípios fundamentais para guiar nossa moralidade, e compreender esses princípios em termos científicos (especificamente evolucionários). Assim sendo, darei agora um primeiro passo em direção ao que seria um sistema moral otimamente projetado e evolutivamente orientado, e como ele poderia corrigir algumas deficiências do utilitarismo.

 

Para dar esse primeiro passo, considere que você não pode projetar alguma coisa efetivamente a menos que tenha alguma ideia de qual seja sua função. Quero dizer função no sentido de adaptação biológica, dispositivo mecânico ou instituição útil: o que se supõe que realize, e para quem? Um coração deve bombear sangue para um organismo, um martelo deve pregar pregos para um carpinteiro, um sistema criminal de justiça deve fornecer proteção para os cidadãos. O que deve a moralidade fazer por nós? Esta parece ser uma questão fundamental, e parece que qualquer sistema moral deve ter uma função, de modo que possa servir a algum propósito útil aos indivíduos e grupos que vivem sob ele.

 

Mas terá o utilitarismo uma função? E se sim, a quem serve? Tudo o que este sistema estipula é que devemos nos empenhar em maximizar o bem-estar para o maior número de pessoas/seres. Posso ver como a concretização desse objetivo (na medida em que pudesse ser realisticamente alcançado) poderia servir aos interesses daqueles cujo bem-estar fosse maximizado. O problema é que o utilitarismo não necessariamente fornece benefícios para as pessoas que o usam. Digamos que você se comporte de maneira utilitária, vendendo tudo o que tem e doando os lucros para instituições de caridade, e como resultado acabe desabrigado e arruinado, embora o bem-estar que seu altruísmo criou para os outros tenha sido ainda maior em magnitude do que a miséria que criou para si. Neste caso, o utilitarismo teria cumprido sua função, exceto para você, a pessoa que o utilizou.

 

 

Sendo assim, o utilitarismo pode ser útil, mas não necessariamente para as pessoas que o usam. Isso não soa para mim como um mecanismo funcional bem projetado. Coisas úteis devem ser úteis para as pessoas que o usam, caso contrário, dificilmente serão usadas. Essa é a razão mais básica por que o utilitarismo é tão irrealista.

 

Eis então o ponto de partida para projetar um sistema moral otimizado: garanta que ele seja útil para quem o usa. E de que jeito a moralidade por ser útil? Ajudando indivíduos e grupos a competirem com outros indivíduos e grupos (por parceiros, família, status, recursos, etc.) e a cooperar entre si para poderem competir com maior sucesso[1]. Se um sistema moral não auxilia realmente as pessoas a perseguirem seus interesses, não importará o quão bom possa soar em princípio, a grande maioria das pessoas jamais se inclinará a usá-lo.

 

Eu argumento, portanto, que a moralidade deve permitir que as pessoas que a utilizam possam competir mais efetivamente — e cooperar, a fim de competir — como indivíduos e grupos. Essa é uma função muito genérica, mas em publicações futuras entrarei em maiores detalhes sobre quais princípios morais específicos poderão permitir o cumprimento dessa função.


[1] Alexander, R. (1987). The Biology of Moral Systems. Aldine De Gruyter.

 

 

Tradução:  Marcus Vinicius de Matos Escobar

Leia o artigo original aqui

Sobre o autor:  Michael Price, Ph.D., is senior lecturer in psychology at Brunel University London, and the co-director of the Brunel Centre for Culture and Evolutionary Psychology.

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