Pós-verdade e a era da (des)informação

 

A palavra da vez é “pós-verdade”. O substantivo foi eleito pela Oxford Dictionaries como a palavra do ano de 2016. Trata-se de um neologismo para a situação em que fatos e análises especializadas têm menos influência na formação da opinião pública do que o apelo a emoções, a crendices pessoais e a “fatos alternativos”. Nessas circunstâncias, a verdade perde sua importância decisória no debate público, dando lugar a palavras de sensibilização, impressões subjetivas e reações sentimentaloides. A mentira e a manipulação roubam assim a cena do debate.

 

Ray Williams, escritor e colunista da Psychology Today, comenta que apesar de ter expandido rapidamente o nosso acesso à informação, a revolução digital também acabou nos nivelando por baixo. Vídeos fofos de gatinhos e a vida das celebridades viraram pautas importantes, enquanto informações relevantes à nossa vida social ganham menor peso. E falando em celebridades, muitíssimas têm agora agido como se fossem autoridades em causas políticas e científicas. Williams menciona o caso de Jenny McCarthy, uma ex-coelhinha da Playboy que se proclamou porta-voz global do acéfalo movimento antivacinação. Munida com um par de seios nutridos e um diploma de ensino médio, a celebridade resolveu se opor publicamente a milhares de médicos e cientistas profissionais. Em outras circunstâncias seria vista como uma maluca tentando fazer alarde, mas em tempos de fatos alternativos uma loira radiante tem mais credibilidade científica do que especialistas com Ph.D. 

 

AVALANCHE DE MENTIRAS

 

A palavra “pós-verdade” muitas vezes é só um eufemismo para a disseminação massiva da mentira descarada, que por causa das atuais mídias e redes sociais acaba não encontrando barreiras. A internet deu às mentiras e meias verdades a oportunidade para se propagarem numa escala pandêmica.

 

Dois instrumentos eficientes de propagação viral de mentiras são os trolls e os bots. Williams define um troll de mídia social como alguém que cria conflitos em redes como Twitter e Facebook, espalhando mensagens maliciosas e provocativas a fim de promover antagonismo e denegrir a imagem de instituições e pessoas públicas.

 

A situação chegou a tal ponto que ser troll virou profissão. A jornalista investigativa Sharyl Attkisson tem denunciado uma crescente onda de organizações patrocinando trolls para manipular a opinião pública e semear confusão.

 

 

Por sua vez, um bot é um software que executa tarefas simples e repetitivas para simular ações humanas, por exemplo; enviando mensagens virais favoráveis ou desfavoráveis a uma determinada figura pública. Milhares de bots na internet têm usado mídias sociais para espalhar notícias falsas.

 

A internet acaba encontrando seus meios de combater a viralização de embustes, como blogs de verificação de fatos. Mas o equilíbrio de forças é desigual. A cada mentira desfeita outras milhares são inventadas e compartilhadas. Infelizmente a internet, que era pensada com uma promissora fonte de obtenção de informações confiáveis, revelou-se um território sem lei onde a falsidade corre solta.

 

A NECESSIDADE DE RESTAURAÇÃO DA VERDADE

 

A situação descrita acima cria uma enorme instabilidade, aniquilando a confiança pública nas instituições (democracia, governo, mídia, ciência, universidade, empresas, etc.). A obliteração da transparência e dos processos de correção da informação alimenta uma atmosfera propicia à confusão e à perpetuação da mentira, dando cobertura ao comportamento fraudulento de nossos líderes, degenerando nossas instituições e criando bolhas de pensamento que estimulam a rivalidade tóxica entre grupos politicamente motivados, que acabam cedendo ao uso da propagação de fraudes contra seus rivais.

 

A própria democracia se vê ameaçada por esse processo. Chegamos a um ponto em que temos de reavaliar os fundamentos de instituições basilares, como mídia, escola e governo, se quisermos restabelecer a confiança mutua e o avanço político-social. É crucial, agora mais do que nunca, que jornalistas, cientistas, formadores de opinião e especialistas em diversos campos unam forças para recuperar a transparência e a probidade das fontes de informação, reforçando o compromisso público com a verdade. Também é inadiável que a noção de cidadania volte a refletir valores que foram desgastados na era da informação, como responsabilidade na manipulação de notícias e o respeito pelos fatos. Checar fontes e deliberar sobre a informação recebida antes de retransmiti-la é hoje uma atitude com a qual cada um de nós precisa se habituar.

 

UMA VACINA CONTRA O EMBUSTE?

 

A ciência já tem trabalhado numa “vacina cognitiva” contra a disseminação viral de desinformação. Experimentos bem sucedidos mostraram ser possível inocular essa vacina nas mentes das pessoas expondo-as a versões mais fracas dos tipos de desinformação e estratégias de engodo a que estão sujeitas nas novas mídias. Uma dose de desinformação é administrada conjuntamente a advertências sobre a existência de grupos politicamente motivados que se especializam em espalhar desinformação e mentiras sobre questões de interesse público como aquecimento global, transgênicos, política partidária, saúde pública, vacinação e tantas outras. O processo comprovadamente tornou as pessoas que receberam a “vacina psicológica” mais resistentes a focos de desinformação.

 

 

A vacinação psicológica tem potencial para se mostrar muito mais eficiente contra a atual onda de negação da ciência do que as tentativas típicas de persuasão, baseadas apenas na argumentação e na exposição frígida das pessoas a fatos científicos.

 

É frustrante ter de reconhecer que a nascente era da informação foi rapidamente convertida numa era de crise informacional pelas inovações midiáticas, que deram origem à hiperdisseminação de fatos alternativos, teorias da conspiração, mentiras e meias verdades numa escala jamais vista. Essa realidade não pode mais ser ignorada. Estamos lidando com uma situação em que valorizar a racionalidade e a evidência está se tornando anacrônico, e em alguns círculos, politicamente incorreto. Por ora, resta manter a vigilância, e aguardar pelo sucesso da ciência em criar mais vacinas cognitivas que possam, quem sabe em médio prazo, inocular a população em escala global.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Escobar, M.V.M. (2017). Crença, emoção e identidade: por que reagimos mal a refutações? Revista SimplesMente. Disponível em: http://revistasimplesmente.com.br/crenca-emocao-e-identidade-por-que-reagimos-mal-a-refutacoes/

 

Escobar, M.V.M. (2017).  Evitando Informações perigosas. Revista SimplesMente. Disponível em: https://goo.gl/KUXA0I

 

Linden, S.; Leiserowitz, A.; Rosenthal, S.; Maibach, E. (2017). Inoculating the public against misinformation about climate change. Global Challenge. From: http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/gch2.201600008/full

 

Williams, R. (2017). The price we pay for fake news: how false claims reinforce the distrust of institutions and leaders. From: https://www.psychologytoday.com/blog/wired-success/201702/the-price-we-pay-fake-news

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