Por que a crença religiosa não é um delírio — pelo menos não em termos psicológicos

As crenças religiosas são tipicamente incompatíveis com as evidências científicas e com a realidade observável, mas não são consideradas delírios. Por que não?

 

Não há nada sobre o que se preocupa, no sentido psiquiátrico, quando se trata do uso de crenças religiosas para explicar comportamentos e pontos de vista horríveis Foto: Mary Turner/Reuters

 

Se alguém lhe dissesse, com toda a seriedade, que fala com seres invisíveis que controlam o universo, você provavelmente se afastaria devagar, balançando a cabeça e sorrindo, procurando desesperadamente a saída mais próxima ou alguma rota de fuga. Se essa pessoa então dissesse que quer se encarregar da sua vida, você provavelmente faria o mesmo, mas com mais urgência, e com o objetivo de encontrar o policial mais próximo.

 

Ainda assim, isso acontece o tempo todo. O grande apoiador do Brexit, improvável candidato à liderança Tory (partido conservador Inglês) e o distribuidor de doces humano Jacob Rees-Mogg recentemente culpou as suas visões extremistas e desagradáveis ao seu catolicismo, que foi visto por muitos como uma desculpa válida.

 

A primeira-ministra atual, Theresa May, fez um grande alarde sobre como sua educação cristã a torna adequada para o cargo. E, apesar da separação legal da igreja e do estado, todos os oficiais e aspirantes a presidente dos EUA tiveram que enfatizar suas inclinações religiosas. Mesmo Trump, cujo entusiasmo pela manutenção das nobres tradições da presidência pode ser descrito como limitado, na melhor das hipóteses.

 

Isso é interessante em si mesmo se você voltar atrás; muitas pessoas tentaram apontar diagnósticos de saúde mental a Donald Trump (imprudentemente, na minha opinião), mas suas reivindicações mais recentes de ser um representante de uma divindade invisível todo-poderosa que criou a Terra em seis dias foram descartadas como apenas apelações cínicas. Isso não parece… inconsistente?

 

Bem, não deveria ser, porque, como dizem: “Você fala com Deus, você é religioso. Deus fala com você, você é psicótico.” Essa é uma fala da série House MD, dita pelo médico epônimo e ácido interpretado por Hugh Laurie. Mas variações deste comentário foram feitas muitas vezes ao longo dos anos. No entanto, embora seja aparentemente destinado a destacar a duplicidade de critérios inerentes à aceitação das visões religiosas de alguém como algo legítimo, ao mesmo tempo em que se descartam reivindicações similares e não científicas como sinais de perturbação mental, existe uma razão válida para essa aparente inconsistência.

 

Visitado por alienígenas? Ridículo. Visitado por anjos? Tour do livro. Fotografia: Alamy Foto De Stock

 

A psicose é definida como uma perda de contato com a realidade e pode se manifestar de várias maneiras. É alarmantemente comum: nossos cérebros grandes, volumosos e complexos são incrivelmente vulneráveis ​​à interrupção interna por conta de uma ampla gama de aflições ou doenças físicas, tanto que a psicose é rotulada de “diagnóstico por exclusão”; você deve excluir muitos outros problemas antes de poder diagnosticar psicose por ela mesma.

 

A psicose geralmente se manifesta por pessoas que experimentam alucinações (percebendo algo que não está realmente ali) e delírios (acreditando, sem dúvida, em algo que é comprovadamente não verdadeiro). As alucinações podem ser diretas; se alguém está dizendo repetidamente que há um urso falante na sala que exige batatas fritas, é relativamente fácil determinar se esse é o caso ou não, geralmente olhando ao redor para verificar se há realmente um urso falante com você na sala. É o tipo de coisa que você notaria. Se não houver um lá, a pessoa provavelmente está alucinando.

 

Os delírios são mais complicados: não é sobre o que alguém percebe, mas sim sobre o que a pessoa acredita. Os delírios têm muitas formas, como delírios de grandeza onde um indivíduo acredita que é muito mais notável do que de fato é. (por exemplo, acreditando que é um gênio de negócios, líder mundial, apesar de ser um empregado de meio período em uma loja de calçados), ou os mais comuns delírios persecutórios, onde um indivíduo acredita que está sendo perseguido implacavelmente (por exemplo, acredita que todos que conhece fazem parte de algum plano sombrio do governo para sequestra-lo). Esses delírios tendem a ser muito resistentes a argumentação, não importa quão descarada seja a evidência em contrário: “Se você é um guru de negócios líder mundial, por que você vira hambúrgueres para ganhar a vida?” “Tudo faz parte do meu plano brilhante, você não entenderia”, ou “Aquele não é um espião secreto do governo, é um velhinho passeando com seu cachorro” “Bem, você iria dizer isto mesmo, afinal você faz parte do plano do governo!” E assim por diante.

 

Esse é realmente um dos sinais de crenças delirantes: elas são muito resistentes ao serem desafiadas, não importa quão inconsistentes estejam com a realidade. Porque o cérebro não está “funcionando” como deveria, a lógica e a razão não são tão potentes quanto poderiam ser.

 

Mas, então, isso implica na pergunta: por que as crenças religiosas recebem um passe-livre? As pessoas também são muito resistentes àquelas sendo desafiadas. E acreditar que há uma figura paterna, gentil e todo-poderosa no céu, que observa e julga tudo o que você faz e cujo filho morreu, mas voltou à vida há dois milênios, e vai retornar a qualquer minuto, certamente não é menos provável que alguém sendo alvo de uma conspiração governamental sombria? É substancialmente menos provável, na verdade. O que acontece?

 

“Eu posso acreditar que um homem da idade da pedra construiu um barco de madeira grande o bastante para abrigar todas as espécies na Terra, mas o aquecimento global me parece um pouco demais.” Fotografia: John Minchillo / AP

 

Bem, acredita-se que delírios resultem de atividade anômala no sistema cerebral para interpretar o que acontece e o que deve acontecer. O cérebro, essencialmente, mantém um modelo mental de como o mundo está destinado a funcionar, e o que as coisas devem acontecer e quando. Crenças, experiências, expectativas, pressupostos, cálculos; todos são combinados em uma compreensão geral constantemente atualizada de como as coisas acontecem, então sabemos o que esperar e como reagir sem ter que descobrir tudo a partir do zero a cada vez. Felizmente, o cérebro geralmente é muito bom na filtragem de informações irrelevantes e ocorrências que desafiariam este modelo de como o mundo funciona.

 

Delírios são o que acontece quando, por causa de uma doença ou outra disfunção, esse sistema delicado falha, e as coisas que percebemos que normalmente seriam descartadas como inócuas ou irrelevantes acabam sendo processadas como muito mais significativas, e nosso sistema de crenças altera-se para acomodá-la, no entanto erroneamente.

 

Mas a questão é, nossos cérebros não vêm com uma compreensão da ciência complexa de como o mundo funciona já pré-instalada, como o Windows 10 em um novo laptop. Este modelo mental do mundo é construído ao longo do tempo, a partir de experiências de vida e outros aprendizados. Então, se você foi criado em um ambiente onde tudo e todos dizem que há uma divindade bondosa no céu, ou que o mundo tem 6.000 anos, ou que existem milhares de deuses com diversas armas que controlam o mundo ou o que quer que seja, então por que você não acreditaria nisso? Não há nada que você experimente no seu dia-a-dia que contradiga isso, então seu modelo mental do mundo está bem assim.

 

É por isso que os delírios só são diagnosticados se não forem consistentes com o sistema de crenças e as opiniões existentes da pessoa. Um criacionista devoto fala com Deus enquanto está na igreja, tudo bem. Um advogado declarado ateu começa a fazê-lo no meio de uma reunião, ele está provavelmente delirando. Se ambos começaram a dizer que o mundo vai acabar em 30 minutos por causa de rãs irritadas que vivem ao sol, ambos seriam considerados delirantes.

 

A menos que isso seja mencionado na Bíblia em algum lugar. Eu admito que não tenho a lido há algum tempo.

 

 

Este artigo foi adaptado de The Idiot Brain, o livro de estréia de Dean Burnett, disponível agora no Reino Unido e nos EUA e em outros lugares.

 

Original: https://www.theguardian.com/science/brain-flapping/2017/sep/21/why-religious-belief-isnt-a-delusion-in-psychological-terms-at-least

Tradutor: Patrick Holtz de Oliveira
Autor original: Dean Burnett, doutor em neurociência. Tutor e professor na Universidade de Cardiff.

3 comentários em “Por que a crença religiosa não é um delírio — pelo menos não em termos psicológicos

  1. O colega ali ja respondeu um pouco, mas colocarei a minha resposta mais deboista.

    “Evidentemente esta “Revista” é bem partidária e ideóloga, pois, algo que se diga “científico” deve deixar suas crenças e suas “meias-verdades” longe da divulgação científica. ”

    Suponho que você percebe então que a revista é partidária pois colocou suas crenças e “meias-verdades” na divulgação científica. É isso?

    Gostaria que me apontasse onde, na postagem, há uma manifestação da crença ou meia verdade do autor. Pois ele trata de uma definição científica de delírio e demonstra como uma crença religiosa não se encaixa nessa definição.

    “A Ciência não é Cristã e nem ateia, mas o rumo que a mesma toma é de conotação mais agnóstica, no sentido que:
    -A Ciência estuda e analisa fenômenos naturais.
    -Deus não é um fenômeno natural.
    -Por tanto, a Ciência não pode (incapacidade), provar a existência, ou não existência, de um deus.”

    Concordo com o que você escreveu! No entanto o artigo não discorre sobre a existência ou inexistência de Deus, mas discute sobre o comportamento de pessoas que acreditam nessa existência. O comportamento das pessoas é um fenômeno de interesse da ciência, em especial da psicologia e neurociências.

  2. Evidentemente esta “Revista” é bem partidária e ideóloga, pois, algo que se diga “científico” deve deixar suas crenças e suas “meias-verdades” longe da divulgação científica. A Ciência não é Cristã e nem ateia, mas o rumo que a mesma toma é de conotação mais agnóstica, no sentido que:
    -A Ciência estuda e analisa fenômenos naturais.
    -Deus não é um fenômeno natural.
    -Por tanto, a Ciência não pode (incapacidade), provar a existência, ou não existência, de um deus.

    1. Só duas coisas podem explicar seu comentário. Uma imensa dificuldade com interpretação de texto, ou ser vítima do mesmo tipo de partidarismo ideológico do qual acusa a Revista. O texto NÃO trata da questão da existência de Deus, tampouco defende qualquer posicionamento partidário, apologético ou gnóstico em relação ao tema. Desnecessário dizer, também não defende a racionalidade da crença religiosa. A intenção do texto é distingui-la da categoria dos delírios e ilusões psicóticas, coisa que é bem fácil de perceber, na verdade

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