Parte 1: Intervenção Cognitivo-Comportamental em caso de abuso sexual

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Fonte: https://www.colegioweb.com.br/sexualidade/como-ajudar-uma-crianca-que-sofreu-abuso.html

 

Uma das consequências ocasionadas pelo abuso sexual é o alto grau de tensão gerado, em que são modificados os padrões de respostas comportamentais e cognitivas, podendo desencadear um transtorno mental. O funcionamento cognitivo e comportamental do indivíduo que sofreu abuso apresenta uma série de distorções passíveis de modificações, indo ao encontro da premissa principal da Terapia Cognitiva, de que as percepções sobre si, os outros e o mundo que o cercam, alteram seus comportamentos e emoções.

 

O abuso sexual, ainda, pode manifestar diversas respostas psicológicas como queixas sintomáticas, quadros fóbicos e ansiosos, distúrbios do sono, sentimento de rejeição, níveis intensos de medo, ansiedade, raiva, cognição distorcida, sensação crônica de perigo e culpa excessiva (DAY, 2003), e há a possibilidade da ocorrência de respostas somáticas que se manifestam na forma de dores abdominais agudas, náuseas e vômitos (GABEL, 1997).

 

Desse modo, tanto em um caso de ansiedade advinda do abuso sexual quanto de outros transtornos, para se atingir os objetivos durante o processo terapêutico o paciente precisa aprender a delimitar problemas específicos, identificar os fatores causais e avaliar a veracidade de suas crenças, para assim iniciar-se o processo de modificação (KNAPP, 2004; OLIVEIRA, SILVA, & SZUPSZYNSKI, 2011). Todas as etapas alteram as variáveis que mantêm as crenças, emoções e comportamentos, em interações que alteram a si mesmas de maneira dialética (KNAPP, 2004; KNAPP & BECK, 2008).

 

Nesse contexto, a Terapia Cognitivo-Comportamental tem apresentado evidências substanciais no tratamento dos transtornos ansiosos, detendo eficácia bem estabelecida no uso das técnicas de modelagem, práticas de reforço, manejo de ansiedade, autoinstrução, entre outras (PHEULA & ISOLAN, 2007).

 

A seguir, serão apresentadas algumas técnicas para sessões iniciais, utilizadas em um programa interventivo, no qual se utilizou como método a Terapia Cognitivo-Comportamental. Em textos posteriores serão discutidas técnicas focadas nos pensamentos automáticos, pressupostos adjacentes e crenças nucleares.

 

PRIMEIROS PASSOS DA INTERVENÇÃO

 

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Fonte: https://psicologiaymente.net/clinica/terapia-cognitivo-conductual

 

O primeiro passo, independente da atividade terapêutica, é a Avaliação Psicológica, porém, discorreremos sobre esse tema especificamente em textos subsequentes. A partir dos dados obtidos no processo avaliativo, em que se conhece a história de vida, estrutura familiar, traumas ocorridos, consequências resultantes desses traumas, análise funcional e conceituação cognitiva, torna-se possível delimitar objetivos específicos a serem alcançados nas sessões, estes definidos em comum acordo com a paciente.

 

As escolhas das técnicas se definem a partir da delimitação dos objetivos específicos sendo programadas na medida em que as sessões ocorrem e as demandas surgem, sendo a Conceituação Cognitiva um norteador primordial para a escolha de intervenções efetivas, pois permite compreender as crenças que estruturam o funcionamento cognitivo (KNAPP, 2004).

 

As vítimas de violência, sejam elas de violência sexual ou agressão, evitam sair de casa, tem medo de andarem sozinhas e possuem dificuldades de contato físico, comportamentos que aumentam a probabilidade de afastar os estímulos aversivos, caracterizando um padrão frequente de esquiva e fuga (MOREIRA & MEDEIROS, 2007; SILVA, 2000).

 

Fonte: http://psicoterapiacomportamentalinfantil.blogspot.com.br/2012/02/trantorno-de-ansiedade-em-criancas.html

 

Uma vítima de abuso sexual pode relatar: “Estava andando pela rua e percebi um grupo de pessoas conversando. Senti medo e atravessei para o outro lado tentando caminhar o mais rápido que podia”. Nessa breve situação podemos observar uma série de respostas, cognitivas e comportamentais, importantes para a intervenção. Ao se indagar, por exemplo, “além do medo, o que a levou se esquivar dessa situação?”, permite que o terapeuta identifique algumas das regras que mantêm o comportamento de esquiva. A partir da resposta ao questionamento: “Não existem pessoas boas, eles podem me fazer mal. E também tenho vergonha de mim” é possível identificar as crenças nucleares do paciente, acerca de si e do mundo.

 

As crenças nucleares são basicamente as “lentes” com que os indivíduos interpretam o mundo. A partir dela são expressas as crenças adjacentes que mantêm pressupostos e ditam a forma como o indivíduo se comporta e atua nas diversas contingências que acessa (KNAPP, 2004). É a partir de esquemas disfuncionais, que crenças nucleares se mantêm como distorções cognitivas. As distorções cognitivas são uma forma exagerada de interpretar determinada situação (KNAPP & BECK, 2008).

 

 

Para explorar as crenças nucleares, com intuito de identificar os pressupostos do paciente, pode-se expandir a investigação e solicitar sua visão sobre si, do mundo e expectativas acerca do futuro. Um paciente que sofreu abuso detém crenças nucleares disfuncionais, podendo ter como visão de si: “não sou ninguém”; “não iria fazer falta”; “não consigo me proteger”; “tenho vergonha de mim”, visão de mundo: “não existem pessoas boas”; “ninguém é feliz”; “todos são melhores que eu”, e visão de futuro: “não vou conseguir chegar aos meus 20 anos”.

 

No próximo texto falaremos sobre o Exame de Evidências, e como intervir de modo que sejam alcançados resultados e modificações das crenças de um indivíduo que sofreu abuso sexual. Até breve.

 

 

REFERÊNCIAS

 

BRASIL. (2013). Cadernos de Atenção Básica: Saúde Mental. Brasília: Ministério da Saúde, caderno nº34.

 

CAMINHA, R. M., FEILSTRECKER, N., & HATZENBERGER, R. (2003). Técnicas Cognitivo-Comportamentais. Em R. M. CAMINHA, Psicoterapias Cognitivo-Comportamentais: teoria e prática (pp. 53-60). São Paulo: Casa do Psicólogo.

 

CANTINI, J. (2013). Técnicas em TCC: Relaxamento Muscular. São Paulo: Website: Psicologia Explica. Acesso em 01 de dez. de 2016, disponível em <http://www.psicologiaexplica.com.br/tecnicas-em-tcc-relaxamento-muscular/>.

 

DAY, V. P. (2003). Violência doméstica e suas diferentes manifestações. Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, 25, 09-21.

 

FRIEDBERG, R. D., MCCLURE, J. M., & GARCIA, J. H. (2011). Técnicas da Terapia Cognitiva para crianças e adolescentes. Porto Alegre: Artes Médicas do Sul.

 

GABEL, M. (1997). Crianças vítimas de abuso sexual. São Paulo: Summus.

 

GREENBERGER, D., & PADESKY, C. A. (1999). A mente vencendo o humor. Porto Alegre: Artes Médicas do Sul.

 

JACOBSEN, E. (1938). Progressive Relaxation. Chicago: University of Chicago Press.

 

KNAPP, P. (2004). Princípios fundamentais da Terapia Cognitiva. Em P. KNAPP, Terapia Cognitivo-Comportamental na prática Psiquiátrica (pp. 19-41). Porto Alegre: Artes Médica do Sul.

 

KNAPP, P., & BECK, A. T. (2008). Cognitive Therapy: foundations, conceptual models, applications and research. Revista Brasileira de Psiquiatria, 30, 54-64.

 

KRISTENSEN, C. H., SCHAEFER, L. S., & MELLO, P. G. (2011). Modelo Cognitivo-Comportamental do Transtorno do Estresse Pós-Traumático. Em I. ANDRETTA, & M. S. OLIVEIRA, Manual Prático da Terapia Cognitivo-Comportamental (pp. 23-40). São Paulo: Casa do Psicólogo.

 

MALLOY-DINIZ, l., MATTOS, P., ABREU, N., & FUENTES, D. (2015). Neuropsicologia: Aplicações Clínicas. Porto Alegre: Artes Médicas do Sul.

 

MOREIRA, M. B., & MEDEIROS, C. A. (2007). Princípios básicos da Análise do Comportamento.Porto Alegre: Artes Médicas do Sul.

 

NETO, A. R. (2011). Técnicas de respiração para a redução de stress na Terapia Cognitivo-Comportamental. Arquivo Médico do Hospital da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa, 56(3), 58-68. Acesso em 23 de nov. de 2016, disponível em <http://www.fcmscsp.edu.br/files/AR09.pdf>.

 

NEUFELD, C. B., & CAVENAGE, C. C. (2010). Conceitualização cognitiva de caso: uma proposta de sistematização a partir da prática clínica e da formação de terapeutas cognitivo-comportamentais. Revista Brasileira de Terapia Cognitiva, 6(2), 3-36. Acesso em 12 de mar. de 2016, disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S180856872010000200002&script=sci_arttext&tlng=p>.

 

OLIVEIRA, M. S., SILVA, J. G., & SZUPSZYNSKI, K. P. (2011). Avaliação Cognitivo-Comportamental. Em I. ANDRETTA, & M. S. OLIVEIRA, Manual Prático de Terapia Cognitivo-Comportamental (pp. 30-38). São Paulo: Casa do Psicólogo.

 

PHEULA, G. F., & ISOLAN, L. R. (2007). Psicoterapia baseada em evidências em crianças e adolescentes. Revista de Psiquiatria Clínica, 34(2), 74-83.

 

RANGÉ, B. (2005). Terapias Cognitivo-Comportamentais. Porto Alegre: Artes Médicas do Sul.

 

SILVA, I. R. (2000). Abuso e trauma. São Paulo: Vetor.

 

WRIGHT, J. H., BASCO, M. R., & THASE, M. (2008). Aprendendo a Terapia Cognitivo-Comportamental: um guia ilustrado. Porto Alegre: Artes Médicas do Sul.

Graduando de Psicologia e membro técnico administrativo da Comissão de Auto Avaliação do Curso de Design (2016 – atual) do Centro de Ciências Sociais Aplicadas – Comunicação, Turismo e Lazer, da Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI). Atualmente participa do projeto de pesquisa para o desenvolvimento de jogo eletrônico para o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade embasados em áreas da Neuropsicologia e Terapia Cognitivo-Comportamental, projeto financiado pelo Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (FAPESC), e do projeto de pesquisa para a aplicação de um grupo de Promoção da Saúde baseado em Terapia Cognitivo-Comportamental para acadêmicos de Psicologia de uma Universidade do litoral Norte de Santa Catarina. Atua como facilitador de grupos voltados à orientação parental para pais ou cuidadores de crianças entre zero e oito anos, embasados no protocolo da Association American Psychology (APA), ACT – para educar crianças em ambientes seguros. É administrador, e colaborador, do portal Revista Eletrônica de Psicologia Científica SimplesMente (2016 – atual).

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