Parte 2: Intervenção Cognitivo-Comportamental em caso de abuso sexual

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Fonte: http://apercepcaodomundo.blogspot.com.br/2010/03/frenologia.html

 

Na medida em que se acessa as crenças nucleares de um paciente — assunto discorrido na parte 1 e que pode ser encontrado aqui — é possível explanar a influência dos pensamentos na forma em que os indivíduos agem no mundo, e suas implicações, quando estes variam em excesso em relação à forma de outras pessoas verem o mundo, ou seja, as distorções cognitivas (KNAPP & BECK, 2008). O Registro de Pensamentos Disfuncionais (RPD), modelo descrito pelos autores Greenberger e Padesky (1999), se apresenta como uma técnica eficaz para observar operacionalmente os pensamentos automáticos, se caracterizando como a base para a identificação, exame e modificação da cognição (KNAPP, 2004; NEUFELD & CAVENAGE, 2010; GREENBERGER & PADESKY, 1999).

 

A partir do RPD, analisa-se funcionalmente cada elemento do evento eliciador de respostas disfuncionais permitindo perceber o modo como essa contingência é interpretada por si mesma. Na medida em que o paciente conhece os determinantes de seus comportamentos e como se dá suas interpretações a partir de suas crenças, é possível a generalização dessa análise para outros contextos similares, e eliminar as interpretações disfuncionais também de outros contextos, promovendo mudanças graduais no sistema que rege o funcionamento do sujeito, as crenças nucleares (KNAPP, 2004; NEUFELD & CAVENAGE, 2010).

 

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Fonte: http://www.psicologapriscila.com.br/registro-pensamentos

 

O RPD se caracteriza em um Exame de Evidências, tendo por método a Descoberta Guiada a partir do Questionamento Socrático, em que esses questionamentos servem como linhas orientadoras para o entendimento do problema e exploração de possíveis soluções que se definem como descatastrofização. A Descoberta Guiada aumenta a frequência do envolvimento do paciente, permitindo com que se sinta agente ativo no processo terapêutico, aprendendo a conhecer suas performances frente aos contextos (KNAPP, 2004; CAMINHA, FEILSTRECKER, & HATZENBERGER, 2003). Em textos subsequentes serão explicados a origem dessas técnicas assim como sua aplicação no setting terapêutico.

 

Essas ferramentas propiciam o aumento das habilidades de solução de problemas no paciente e permitem a manutenção de uma postura ativa frente às situações, o que com o passar do tempo modela a capacidade desse paciente ser o regulador de seus próprios problemas (KNAPP, 2004). Assim, o uso constante do RPD capacita o usuário na identificação imediata e rápida das variáveis mantenedoras de seus comportamentos e permite que o próprio sujeito, com a prática adquirida, consiga autossuprimir respostas disfuncionais (GREENBERGER & PADESKY, 1999).

 

Concomitante a identificação dos eventos ativadores, pensamentos automáticos e respostas, pode-se explanar o manejo de ansiedade e apresentar a técnica de Respiração Diafragmática e Relaxamento Progressivo. Os sintomas fisiológicos da ansiedade surgem como mecanismos de defesa de um organismo, e o mobilizam para fuga ou luta. Quando exposto ao estímulo ansiogênico o metabolismo aumenta, tendo por resultado uma frequência cardíaca aumentada e aceleração da circulação sanguínea. Com a aceleração da circulação sanguínea, uma quantidade grande de oxigênio é recrutada. O sangue passa a se concentrar nos músculos envolvidos na fuga ou luta e a temperatura interna sobe, sendo todas essas respostas controladas pela ação do sistema nervoso simpático. A Respiração Diafragmática (RD) ajuda na ativação do sistema parassimpático, e auxilia a restaurar a sensação de relaxamento (NETO, 2011).

 

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Fonte: http://www.fernandaabel.com.br/2015/11/indicacao-de-leitura-dreamy-fearles-em.html

 

Referente ao treino de relaxamento, o objetivo da técnica é ensinar o paciente a liberar de maneira sistemática grupos musculares do corpo, com intenção de diminuir a tensão muscular e consequente redução de respondentes, ou seja, redução de respostas ansiosas frente a estímulos potencialmente aversivos (WRIGHT, BASCO, & THASE, 2008).  O Relaxamento Muscular Progressivo de Jacobson é um treino de relaxamento muscular que consiste em contrair e relaxar todos os grupos musculares, um por vez. Devem ser trabalhados pés, panturrilhas, coxas, abdômen, braços, mãos e rosto (JACOBSEN, 1938; MALLOY-DINIZ, MATTOS, ABREU, & FUENTES, 2015; CANTINI, 2013). Ao atingir o relaxamento geral do corpo é possível observar diminuição nas respostas respondentes como sudorese, respiração lenta e discreta e também pressão arterial, e ocasiona tranquilidade emocional e organização de ideias (MALLOY-DINIZ, MATTOS, ABREU, & FUENTES, 2015).

 

O procedimento de contração e relaxamento deve ser realizado com cada grupo muscular durante 10 segundos. A principal característica da técnica consiste na atenção que o paciente deve manter nos contrastes entre tensão e relaxamento (JACOBSEN, 1938). Na medida em que o paciente aprende a discriminar entre tensão e relaxamento é possível solicitá-lo que imagine uma cena que propicie sensação de conforto e repita frases chaves para si mesmo durante os momentos em que está relaxado, como, por exemplo: estou sentindo meu corpo tranquilo, calmo, pesado, relaxado, entre outros (RANGÉ, 2005).

 

A inserção de imagens confortáveis e frases chaves pareadas ao estado de relaxamento parte do princípio de condicionamento respondente, porém na direção contrária em que a ansiedade se instalou, e resulta no contracondicionamento (MOREIRA & MEDEIROS, 2007). Do mesmo modo que estímulos potencialmente fóbicos eliciam respostas de ansiedade, o ensino da discriminação entre tensão e relaxamento e o uso das frases chaves quando contingências aversivas são acessadas, eliciam respostas de relaxamento frente os mesmos estímulos que outrora eram fóbicos, ou seja, o condicionamento respondente aversivo é quebrado (MALLOY-DINIZ, MATTOS, ABREU, & FUENTES, 2015; MOREIRA & MEDEIROS, 2007).

 

O uso da técnica de relaxamento é uma entre outras técnicas para a realização de um contracondicionamento eficaz. Paralela a ela, as técnicas cognitivas como Exame de Evidências, Descatastrofização, Registro de Pensamentos Disfuncionais e Respiração Diafragmática devem ser executadas constantemente de modo que o paciente alcance autonomia na redução de suas respostas desadaptativas, tanto de ordem comportamental quanto cognitiva (KNAPP, 2004).


Veja a última parte da série aqui!

 

 

REFERÊNCIAS

 

BRASIL. (2013). Cadernos de Atenção Básica: Saúde Mental. Brasília: Ministério da Saúde, caderno nº34.

 

CAMINHA, R. M., FEILSTRECKER, N., & HATZENBERGER, R. (2003). Técnicas Cognitivo-Comportamentais. Em R. M. CAMINHA, Psicoterapias Cognitivo-Comportamentais: teoria e prática (pp. 53-60). São Paulo: Casa do Psicólogo.

 

CANTINI, J. (2013). Técnicas em TCC: Relaxamento Muscular. São Paulo: Website: Psicologia Explica. Acesso em 01 de dez. de 2016, disponível em <http://www.psicologiaexplica.com.br/tecnicas-em-tcc-relaxamento-muscular/>.

 

DAY, V. P. (2003). Violência doméstica e suas diferentes manifestações. Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, 25, 09-21.

 

FRIEDBERG, R. D., MCCLURE, J. M., & GARCIA, J. H. (2011). Técnicas da Terapia Cognitiva para crianças e adolescentes. Porto Alegre: Artes Médicas do Sul.

 

GABEL, M. (1997). Crianças vítimas de abuso sexual. São Paulo: Summus.

 

GREENBERGER, D., & PADESKY, C. A. (1999). A mente vencendo o humor. Porto Alegre: Artes Médicas do Sul.

 

JACOBSEN, E. (1938). Progressive Relaxation. Chicago: University of Chicago Press.

 

KNAPP, P. (2004). Princípios fundamentais da Terapia Cognitiva. Em P. KNAPP, Terapia Cognitivo-Comportamental na prática Psiquiátrica (pp. 19-41). Porto Alegre: Artes Médica do Sul.

 

KNAPP, P., & BECK, A. T. (2008). Cognitive Therapy: foundations, conceptual models, applications and research. Revista Brasileira de Psiquiatria, 30, 54-64.

 

KRISTENSEN, C. H., SCHAEFER, L. S., & MELLO, P. G. (2011). Modelo Cognitivo-Comportamental do Transtorno do Estresse Pós-Traumático. Em I. ANDRETTA, & M. S. OLIVEIRA, Manual Prático da Terapia Cognitivo-Comportamental (pp. 23-40). São Paulo: Casa do Psicólogo.

 

MALLOY-DINIZ, l., MATTOS, P., ABREU, N., & FUENTES, D. (2015). Neuropsicologia: Aplicações Clínicas. Porto Alegre: Artes Médicas do Sul.

 

MOREIRA, M. B., & MEDEIROS, C. A. (2007). Princípios básicos da Análise do Comportamento.Porto Alegre: Artes Médicas do Sul.

 

NETO, A. R. (2011). Técnicas de respiração para a redução de stress na Terapia Cognitivo-Comportamental. Arquivo Médico do Hospital da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa, 56(3), 58-68. Acesso em 23 de nov. de 2016, disponível em <http://www.fcmscsp.edu.br/files/AR09.pdf>.

 

NEUFELD, C. B., & CAVENAGE, C. C. (2010). Conceitualização cognitiva de caso: uma proposta de sistematização a partir da prática clínica e da formação de terapeutas cognitivo-comportamentais. Revista Brasileira de Terapia Cognitiva, 6(2), 3-36. Acesso em 12 de mar. de 2016, disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S180856872010000200002&script=sci_arttext&tlng=p>.

 

OLIVEIRA, M. S., SILVA, J. G., & SZUPSZYNSKI, K. P. (2011). Avaliação Cognitivo-Comportamental. Em I. ANDRETTA, & M. S. OLIVEIRA, Manual Prático de Terapia Cognitivo-Comportamental (pp. 30-38). São Paulo: Casa do Psicólogo.

 

PHEULA, G. F., & ISOLAN, L. R. (2007). Psicoterapia baseada em evidências em crianças e adolescentes. Revista de Psiquiatria Clínica, 34(2), 74-83.

 

RANGÉ, B. (2005). Terapias Cognitivo-Comportamentais. Porto Alegre: Artes Médicas do Sul.

 

SILVA, I. R. (2000). Abuso e trauma. São Paulo: Vetor.

 

WRIGHT, J. H., BASCO, M. R., & THASE, M. (2008). Aprendendo a Terapia Cognitivo-Comportamental: um guia ilustrado. Porto Alegre: Artes Médicas do Sul.

Graduando de Psicologia e membro técnico administrativo da Comissão de Auto Avaliação do Curso de Design (2016 – atual) do Centro de Ciências Sociais Aplicadas – Comunicação, Turismo e Lazer, da Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI). Atualmente participa do projeto de pesquisa para o desenvolvimento de jogo eletrônico para o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade embasados em áreas da Neuropsicologia e Terapia Cognitivo-Comportamental, projeto financiado pelo Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (FAPESC), e do projeto de pesquisa para a aplicação de um grupo de Promoção da Saúde baseado em Terapia Cognitivo-Comportamental para acadêmicos de Psicologia de uma Universidade do litoral Norte de Santa Catarina. Atua como facilitador de grupos voltados à orientação parental para pais ou cuidadores de crianças entre zero e oito anos, embasados no protocolo da Association American Psychology (APA), ACT – para educar crianças em ambientes seguros. É administrador, e colaborador, do portal Revista Eletrônica de Psicologia Científica SimplesMente (2016 – atual).

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