Onde mora a felicidade?

 

 

Todo esforço humano para agir parece se revelar na busca incessante pela felicidade. Ela é a razão da paz e da guerra, do amor e do ódio, da deliberação da vida ou da morte. O filósofo Blaise Pascal (1958, p. 98) afirmou: “a vontade nunca dará o último passo em outra direção. A felicidade é a razão de cada ação de todo ser humano, mesmo dos que se enforcam.” O sentido da ação humana é sempre a felicidade, independentemente dos meios empregados para alcançá-la.

 

Desse modo, não há como duvidar de que até numa atitude radical como o suicídio existe um esforço para alcançar a paz que falta à pessoa em aflição. E o que dizer das pessoas que gastam uma vida a procura da felicidade, perseguindo sonhos e ilusões? Há quem abrevie a vida para ser feliz e quem gaste toda vida vivendo na expectativa de que um dia encontrará a felicidade.

 

Certamente todos nós desejamos a felicidade, apesar de nem sempre compreendermos a causa desse desejo. Ainda assim consideraríamos um mapa, ou uma espécie de guia comportamental, que nos levasse a este tão cobiçado tesouro. No entanto, a felicidade está realmente esperando por nós em algum lugar? Se está, onde ela mora?

 

A felicidade é um sentimento, um subproduto do reforço operante. As coisas que nos tornam felizes são as que nos reforçam. […] A busca sugere um propósito: agimos para alcançar a felicidade (SKINNER, 2006, p. 63).

 

A felicidade está diretamente relacionada à maneira como interagimos com o ambiente ao nosso redor. Somos o resultado dos encontros que estabelecemos com o mundo e estes encontros determinam a qualidade e a intensidade de nossos pensamentos, sentimentos e ações. 

 

B.F Skinner (2003), psicólogo norte americano e cientista do comportamento, nomeou o resultado desses encontros de comportamento operante. Trata-se de uma ação do indivíduo que altera o ambiente ao seu redor e produz consequências que, por sua vez, retroagem sobre o próprio indivíduo, transformando-o. A relação que estabelecemos com o ambiente é chamada de contingência de reforço.

 

O pai do Behaviorismo Radical empregou dois conceitos chaves para teoria do condicionamento operante: reforço e punição. Quando agimos sobre o mundo e nossa ação produz uma consequência que aumenta a probabilidade de sua ocorrência dizemos que nosso comportamento foi reforçado. De outra forma, quando nosso comportamento é seguido de uma consequência que diminui a probabilidade de sua ocorrência, dizemos que ele foi punido.

 

Além de descrever as mudanças que ocorrem em nosso comportamento em termos de probabilidade de resposta, reforço e punição também designam o que acontece privadamente no sujeito, isto é, os subprodutos do comportamento operante: sensações e sentimentos relacionados à satisfação e à aversão, à felicidade e à tristeza (SKINNER, 2003).

 

Nossos comportamentos e sentimentos são função das contingências. Assim sendo, “a felicidade é um sentimento, um subproduto do reforço operante”. Em outras palavras, a felicidade é uma experiência que vivenciamos privadamente quando algo no ambiente reforça nossa ação.  

 

Dessa forma, não é a felicidade — o alvo —, que determina a ação, como pensou Blaise Pascal em sua filosofia hedonista. Não obstante, perseguimos tudo aquilo que nos reforça. “A busca sugere um propósito: agimos para alcançar a felicidade. Mas a busca, assim como a procura, é tão só um comportamento que foi reforçado pela obtenção de algo” (SKINNER, 2006, p. 63).

 

Skinner (2003), diferentemente dos teóricos mentalistas de seu tempo, buscou no ambiente externo explicações acerca da natureza de nossos sentimentos e comportamentos. Esses mentalistas acreditavam ser a mente responsável pelos fenômenos mentais e comportamentais, deixando de lado as causas ambientais de nossa experiência interna.

 

O behaviorista ainda aponta, em sua literatura ao longo dos anos, que esse pensamento sobre causas internas é comum na análise cotidiana: “as causas da felicidade estão dentro da mente” ou “não podemos ser felizes com uma mente triste e ansiosa”. Não há dúvidas de que sentimentos, crenças e expectativas positivas de si mesmo e das situações da vida acompanhem o estado de felicidade, no entanto, não são elas a causa da felicidade.

 

A felicidade é um sentimento que emerge da interação com o mundo quando nosso comportamento é função de contingências de reforço: “as coisas que nos tornam felizes são as que nos reforçam; todavia, são as próprias coisas, não os sentimentos, que devem ser identificadas e usadas na previsão, controle e interpretação” (SKINNER, 2006, p. 63).

 

Na perspectiva behaviorista, a felicidade não é causada por eventos mentais, tampouco é determinada por processos neurofisiológicos como a atividade cortical e a ação de neurotransmissores como a serotonina, dopamina, endorfina e oxitocina, substancias popularmente conhecidas como responsáveis pela felicidade.  

 

A felicidade, apesar de não ser produzida pela mente nem por agentes neurobiológicos, aparece na mente como um produto colateral das contingências de reforço e das condições fisiológicas internas de cada indivíduo (SKINNER, 2003). Em outras palavras, os fenômenos mentais e neurofisiológicos relacionados à felicidade são produzidos e desencadeados pelas contingências de reforço.

 

Ainda de acordo com Skinner (2006), crenças e sentimentos relacionados ao entusiasmo, a persistência e a esperança são mantidos pelo que ele chamou de esquemas de reforço intermitente. Em um destes esquemas, o Esquema de Razão Variável (VR), um comportamento é reforçado após um número variável de respostas resultando em uma frequência elevada de emissão do comportamento e uma maior resistência a sua extinção (CATANIA, 2008). É possível que este esquema esteja diretamente relacionado ao comportamento contínuo de procura pela felicidade.

 

Em vida procuramos incansavelmente a felicidade, mesmo sendo eventualmente frustrados. Nem sempre nossa busca resulta na experiência imediata de felicidade, porém persistimos em procurá-la. 

 

Isso acontece porque a busca é por vezes reforçada e, por consequência, uma vez ou outra experimentamos a felicidade. No entanto, é possível que esta busca tenha sua constância enfraquecida quando o intervalo entre nossa ação e a consequência se torna muito prolongado e implica num empenho demasiado para alcançar o reforço. Este fenômeno é chamado pela Análise do Comportamento de distensão da razão (CATANIA, 2008), o qual pode estar relacionado com a diminuição significativa do comportamento e o surgimento de sentimentos de falta de interesse presentes no quadro depressivo (KANTER et al., 2005).

 

O que se passa em nossa mente está diretamente relacionado a nossa história individual de relações com o mundo. Por esse motivo, as pessoas experimentam o mundo diferente umas das outras, algumas sentem uma maior alegria enquanto outras uma maior tristeza. Contudo, nossos sentimentos não são estáticos, eles oscilam ao sabor das contingências. É possível que o deprimido experimente também a felicidade desde que mude sua relação com o mundo ao seu redor, desde que sua ação sobre o mundo produza consequências reforçadoras, desde que o mundo seja uma alavanca para pensamentos e sentimentos felizes.

 

Portanto, a felicidade não está em outro lugar senão no exato momento em que a vida se realiza, quando no encontro com o mundo, na contingência, somos felizes.  A felicidade habita o instante em que vivemos este encontro.  Ela surge no momento em que agimos sobre o mundo e somos reforçados por isso, então buscamos repetir a ação porque queremos sempre um reencontro com o mundo quando constatamos ser ele a causa de nossa busca: a felicidade.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Catania, A. C. (1999). Aprendizagem: Comportamento, linguagem e cognição (4a ed., D. G. Souza, Trad.). Porto Alegre: Artmed.

 

Kanter, J. W., Cautilli, J. D., Busch, A. M. & Baruch, D. E. (2005). Toward a comprehensive functional analysis of depressive behavior: Five Environmental Factors and a Possible Sixth and Seventh. The Behavior Analyst Today, 6, 65-81.

 

Pascal, B. Pascal’s Pensées. Nova York: E.P. Dutton & Co., 1958.

 

Skinner, B. F. (2003). Ciência e Comportamento Humano. Trad. João Carlos Todorov, Rodolfo Azzy,11. ed. São Paulo: Martins Fontes. (Original published in 1953).

 

Skinner, B.F. (2006). Sobre o Behaviorismo. Tradução organizada por Maria da Penha Villalobos. São Paulo: Cultrix.

Faça um comentário!