O que você precisa saber sobre neuropsicologia comportamental

Fonte: http://www.nanpsychology.com/

 

Não é de agora que psicólogos e psiquiatras notaram a existência da correlação entre transtornos neurológicos e transtornos psicológicos. Vale ressaltar que, ainda hoje, é comum utilizarmos os termos “neurológicos” e “psicológicos” como equivalentes. Isso ocorre devido a adesão de teses reducionistas que visam reduzir eventos mentais à apenas eventos neuroquímicos, como por exemplo, caracterizar a depressão apenas como baixo nível de serotonina no cérebro.

 

O papel do neuropsicólogo comportamental é testar e descrever os transtornos psicológicos e como eles se relacionam com as estruturas subjacentes do cérebro. É bem conhecido que algumas de nossas capacidades cognitivas, tais como a memória, o pensamento e a percepção, ativam determinadas áreas do cérebro enquanto ocorrem no sujeito que a experienciam.

 

OS NEURODIAGNÓSTICOS

 

A avaliação neuropsicológica visa descrever detalhadamente as manifestações comportamentais de danos ou transtornos no cérebro, incluindo aspectos superiores das funções cerebrais. Os testes em neuropsicologia apresentam baterias e seguem ao menos 3 componentes em seu processo, sendo eles: 1) medidas da variedade completa das funções psicológicas/comportamentais subservidas pelo cérebro; 2) estratégia de medição que permite aplicação dos resultados individualmente; e 3) validação das medidas por meio de pesquisas e sua aplicabilidade clínica. Abaixo serão descritos 5 dos diagnósticos mais frequentes em neuropsicologia.

 

Vale ressaltar que diagnósticos de transtornos mentais devem ser realizados por profissionais especializados, pois trata-se de um processo demorado cuja aplicação consiste em investigar a história de vida do paciente e seu contexto social, aplicar baterias de exames para verificar suas funções psicológicas, etc. Todos esses fatores são considerados para a elaboração da hipótese diagnóstica, logo o leitor não deve procurar se encaixar em nenhuma das categorias abaixo.

 

(1) TUMORES CEREBRAIS

 

Os primeiros sinais de tumores cerebrais são parecidos com sintomas de depressão e/ou ansiedade. Segundo Hall (1980), o retardamento motor e a depressão são frequentemente encontrados acompanhados de danos cerebrais.

 

O terceiro ventrículo é uma cavidade localizada na linha média do cérebro que, junto de outros três, constitui o sistema ventricular cerebral. Essa estrutura contém o líquido cefalorraquidiano, que é responsável por proteger a mecânica do sistema nervoso central (SNC), atuando como uma espécie de amortecedor. Em outras partes do cérebro, também se encontram danos psicológicos, como o sistema límbico, que, se lesionado, pode mimetizar sintomas de esquizofrenia. No entanto, a queixa mais recorrente é a de dores de cabeça, que se tornam mais graves se há ocorrência de vômito por náusea.

 

Fonte: http://www.psicofarmacos.info/images/graficos/nucleosdabase3.jpg

 

Um diagnóstico bem-feito é extremamente requisitado para que se evite erros na hora de verificar um tumor. As queixas de dores de cabeça em tumores cerebrais atingem cerca de 60% dos casos. É notável também que 50% dos casos de tumores cerebrais apresentam sintomas psicológicos.

 

(2) TRANSTORNOS VASCULARES

 

Sabemos que manter o cérebro oxigenado é de extrema importância. Mas o que fornece oxigênio ao cérebro? Se você respondeu “o sangue”, acertou. Esse tecido vivo, que circula pelo corpo ocupando cerca de 7% a 8% do nosso peso, é responsável por fornecer oxigênio e glicose ao cérebro. Ele é tão importante que qualquer perturbação no seu fluxo pode resultar em danos no tecido neuronal. Um exemplo? Acidentes vasculares cerebrais (AVC). A maioria desses acidentes ocorrem na área da artéria cerebral média, região que tem por função sustentar as áreas motoras e sensoriais, responsável por paralisias e déficits sensoriais que vêm acompanhados com o derrame. No entanto, derrames na parte posterior da artéria cerebral também ocorrem, produzindo efeitos psicológicos como déficits de memória.

 

Ataques isquêmicos transientes (AITs) são comuns de encontrar, enquanto os neuropsicológicos buscam maiores evidências para hemorragia cerebral. Os AITs são reduções temporárias do fornecimento de sangue para o cérebro. Sintomas de AITs incluem vertigem, ataxia, vômito, dores de cabeça, perda sensorial, etc. Esses ataques não causam a morte do tecido neuronal, mas produzem sintomas clínicos que podem acarretar em transtornos psicológicos mais graves, como a demência, que falaremos no próximo tópico.

 

Fonte: http://www.auladeanatomia.com/novosite/sistemas/sistema-nervoso/vascularizacao/

 

(3) DEMÊNCIA

 

Temos como queixa inicial primordial da demência a perda de memória. As causas da enfermidade variam desde doenças degenerativas no sistema nervoso central até uso de tóxicos e drogas.

 

Uma das demências mais conhecidas, o Alzheimer, ainda está em processo de conhecimento na sua patofisiologia. No entanto, a autópsia de pacientes com essa doença mostra degeneração significativa de células nervosas e aumento de placas senis, também conhecidas como neuríticas ou amiloides, responsáveis por serem grandes depósitos insolúveis de uma proteína tóxica chamada β-amiloide.

 

Os sintomas iniciais são vagos e possuem chances de passarem despercebidos. São eles o cansaço, a fraqueza, a insônia, a vertigem e os déficits de memória, como já dito. Com o tempo a doença atinge sua fase média do processo de demência, e os sintomas mais recorrentes são relacionados à memória, ao processo de julgamento e à solução de problemas. A ausência de preocupação com a higiene e aparência também pode ocorrer, juntamente com uma alteração de humor na qual o indivíduo passa a sentir-se indiferente frente às situações do dia a dia. Na sua fase mais crítica é evidente o distúrbio de personalidade e manifestação de apatia; e também habilidades mentais, motoras e sensoriais são afetadas por conta da diminuição da massa e do peso cerebral.

 

(4) TRAUMATISMO CRANIANO

 

A avaliação psicométrica é usada para revelar déficits cognitivos nos pacientes que possuem algum trauma craniano. Esses traumas podem ser causados, principalmente, por concussões que resultam no ferimento de alguma parte da cabeça e causam alguns sintomas comuns como amnésia e perda de consciência. Traumas por contusões – ferimentos mais sérios diretamente no cérebro – também acontecem e podem causar sangramento na área afetada.

 

As contusões possuem efeitos comportamentais com tempo mais duradouro do que os ferimentos por concussões. Esses são exemplos de traumatismos cranianos fechados, e podem afetar os dois hemisférios cerebrais, produzindo déficits motores e sensoriais. Os traumatismos cranianos abertos, p.ex. o famoso caso do Phineas Gage (imagem abaixo), são pouco comuns hoje em dia devido a medidas de segurança no trabalho e por ser um tipo de traumatismo que era recorrente em épocas de guerra. No entanto, quando ocorridos, podem ser letais.

 

Fonte: https://goo.gl/RD4uh1

 

(5) TRANSTORNO DE EPILEPSIA

 

Pode ser definida como uma descarga paroxística incontrolada, ou seja, descargas elétricas neuronais que perturbam a atividade normal do cérebro. Após uma descarga, a pessoa pode se sentir confusa, deprimida e ter uma amnésia sobre os eventos que ocorreram durante o período de ataque. A saber, a pessoa pode se movimentar e interagir com outras pessoas durante o ataque, podendo sofrer de alucinações.

 

As descargas generalizadas atingem os dois hemisférios cerebrais, e resultam na perda de consciência por alguns minutos, de acordo com a intensidade da descarga.

 

OS EXAMES DE ESTADO MENTAL

 

O objetivo do exame do estado mental (EEM) é obter informações para diagnosticar os problemas iniciais do paciente. Embora esse exame seja eficiente para obter diferentes informações, ele não substitui uma avaliação neurológica completa, por isso pacientes com sinais de envolvimento orgânico devem ser encaminhados para profissionais especialistas (psiquiatras, neurologistas, etc.).

 

O EEM pode ser utilizado a partir de formas simples e ir gradualmente para formas mais complexas (como demonstrado abaixo). Este exame inclui uma diversidade de pacientes, desde os que possuem lesões até aqueles que expericenciaram uma mudança repentina de humor.

 

O procedimento de verificação de consciência é a parte inicial que deve ser avaliada. Strub e Black (1985) propuseram quatro classificações para o nível de consciência: o coma, o estupor, a letargia e o alerto. No coma, o paciente se mantém inconsciente independente de qualquer estímulo ambiental, enquanto que no estupor, o paciente pode reagir momentaneamente a estimulação, mas ainda sim não obtém consciência do ato. Na letargia, o paciente também responde à estimulação, no entanto sua resposta é breve e ele logo volta ao seu estado inconsciente. No nível alerto, por sua vez, o indivíduo responde aos estímulos e também é capaz de se comunicar com o clínico.

 

Um exame de orientação também faz parte do procedimento gradual. Nesse exame, o paciente é exposto a eventos ao seu redor que envolvem as capacidades de perceber e entender (por exemplo, orientar-se enquanto pessoa, lugar e época). O exame mostra-se fácil para indivíduos normais, mas é extremamente complexo para a maioria dos pacientes, os quais, muitas vezes, não conseguem responder quem são, onde estão e em qual época vivem.

 

A atenção voluntária também pode ser medida em pacientes que ainda estão conscientes. Ou seja, capacidade de focar em um estímulo específico e processar essas informações. Danos no córtex cerebral causam déficits de atenção, o que acaba por resultar em prejuízos na percepção e na capacidade de processar informações de um estímulo.

 

Avaliações de linguagem também são utilizadas e podem demonstrar déficits, como a incapacidade de compreender a fala ou a escrita; a capacidade de se expressar, seja falando ou escrevendo.

 

Em um estágio de demência progressiva, a perda de capacidade cognitiva superior (como a manipulação simbólica ou solução problemas abstratos) pode ser severamente afetada, visto que essas funções requerem do cérebro uma integração entre as suas diferentes áreas. Pacientes com transtornos metabólicos ou com alguns transtornos psiquiátricos, como os de pensamento, possuem dificuldade de fazer sentido dos eventos que acontecem ao seu redor, de solucionar problemas e se adaptar a novas situações.

 

4 MODOS DE INFERIR DANOS CEREBRAIS A PARTIR DOS DIAGNÓSTICOS

 

(1) Verificar o resultado do paciente e fazer comparação com os de outras pessoas com e sem lesões;

(2) Verificar se o paciente cometeu erros que quase exclusivamente só ocorrem com pessoas com danos cerebrais;

(3) Há padrões de relação entre resultados dos testes? P.ex., o paciente fez diferentes testes que possuíam a mesma função e houve muita variabilidade entre os resultados;

(4) Diferenças no funcionamento motor e sensório-perceptivo adequado nos dois lados do corpo (as comparações de desempenhos motor e sensório-perceptivos idênticos nos dois lados do corpo, levando em consideração a lateralidade [handedness] do indivíduo, revelam disparidades lateralizadas que vão além dos limites esperados em sujeitos com funcionamento cerebral normal?).

 

Para o indivíduo ser eficiente no seu comportamento, as funções que ele executa diariamente precisam estar relacionadas com as funções de processamento central do cérebro. Para isso, Reitan e Wolfson (1988b) desenvolveram um modelo neuropsicológico que visa entender os correlatos comportamentais de funções cerebrais.

 

Um input é toda informação que chega ao cérebro, onde o evento que nos chega através dos sentidos é registrado. Pode ser representado pelo nível de alerta, atenção, concentração e habilidade de comparar informações novas com passadas, ou seja, o uso da memória. Após o recebimento de informações, o cérebro tende a processar informação verbal no hemisfério esquerdo (não exclusivamente), que se envolve nas funções de fala, linguagem e uso de símbolos; e informação visual-espacial no hemisfério direito, envolvido no processo de habilidades espaciais.

 

É definido como o nível mais alto do processamento cerebral a capacidade de raciocinar, de fazer abstrações e uso de conceitos, além de análises lógicas. A capacidade de abstração é facilmente demonstrada biologicamente e capaz de ser generalizada, pois essa habilidade é distribuída por toda a região do córtex, e não em uma área específica. Quando há déficits nesse nível de processamento, a pessoa pode se tornar incapaz de se beneficiar logicamente de suas experiências, e pode até ser acusada de sofrer algum transtorno de personalidade, embora não haja nada que corrobore essa acusação.

 

LETTNER, H. W. Neuropsicologia comportamental. In: RANGÉ, Bernard. Psicoterapia Comportamental e Cognitiva de Transtornos Psiquiátricos. Campinas Editorial Psy, 1995.

 

O TRATAMENTO E A REABILITAÇÃO DE PESSOAS COM DANOS CEREBRAIS

 

O tratamento comportamental consiste na aplicação de procedimentos da terapia cognitiva-comportamental (TCC). Todos os testes ajudam o terapeuta a identificar as origens do comportamento desadaptativo do paciente, bem como suas respostas emocionais. O planejamento da terapia deve levar em consideração as habilidades do paciente, tanto as intactas quanto as danificadas. Partindo disso, a formulação final segue este esquema:

 

Danos orgânicos, o relacionamento entre eles e o comportamento, e consequências no paciente em específico.

 

O processo de reestruturação cognitiva se mostra eficiente e importante no procedimento, principalmente nas funções que dependem do funcionamento geral do cérebro. Reitan e Wolfson (1988), desenvolveram o programa chamado REHABIT, que consiste de cinco caminhos:

 

(1) Track A, que consiste de procedimentos específicos para desenvolver habilidades de linguagem (expressiva e receptiva);

(2) Track B, responsável por desenvolver a capacidade de raciocínio abstrato e análise lógica;

(3) Track C, que consiste em tarefas que não dependem de um conteúdo específico, mas foca em trabalhar o raciocínio, a abstração, a organização e o planejamento;

(4) Track D, que tem o objetivo de focar também na abstração, mas de uma maneira que o indivíduo precise utilizar habilidades visuais-espaciais;

(5) Track E, que visa desenvolver apenas as habilidades visuais-espaciais e elaboração.

 

Para concluirmos, é importante que a terapia de família também possa ser feita, considerando que qualquer dano na estrutura cerebral de um indivíduo acaba acarretando em problemas para as pessoas a sua volta. Alterações cognitivas, emocionais e comportamentais podem gerar desestruturação no ambiente familiar, o que pode gerar mais conflitos para o paciente com o problema.

 

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

 

Este texto é uma síntese do capítulo “Neuropsicologia Comportamental” do livro “Psicoterapia Comportamentl e Cognitiva de Transtornos Psiquiátricos”, do Rangé.

 

LETTNER, H. W. Neuropsicologia comportamental.  In: RANGÉ, Bernard. Psicoterapia Comportamental e Cognitiva de Transtornos Psiquiátricos. Campinas Editorial Psy, 1995.

Sou estudante de psicologia, tenho 20 e tantos anos. Já quis ser arqueólogo e astrônomo – talvez ainda gostaria de ser. Despertei meu interesse por ciência na infância quando preferia desmontar os brinquedos, ao invés de brincar com eles. Nas horas vagas gosto de conversar sobre a vida, o universo e tudo mais. Acredito que ficarei mais contente com a minha vida se puder ser metade do homem que Carl Sagan foi.

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