O que você precisa saber sobre a psicologia cognitiva

Fonte: https://goo.gl/1BpD3X

 

A psicologia cognitiva é a abordagem psicológica dentro das ciências cognitivas que visa estudar cientificamente a cognição humana e seus processos básicos, dentre os quais memória, percepção e raciocínio fazem parte. O termo “psicologia cognitiva” começou a ser usado recorrentemente a partir da publicação do livro de Ulrich Neisser, Cognitive Psychology, de 1967. Desde então, a partir da chamada “revolução cognitiva”, a ciência cognitiva psicológica tem se afirmado como uma base teórica para as terapias cognitivas e cognitivos-comportamentais. Para sabermos mais, vale a pena investigar o processo histórico-filosófico e psicológico da formação dessa abordagem.

 

OS EMPIRISTAS E OS RACIONALISTAS COMO ANTECEDENTES FILOSÓFICOS

 

Historiadores da psicologia postulam que as origens do pensamento psicológico, como nós o conhecemos, remonta a Platão e Aristóteles. Suas formulações teóricas sobre a cognoscibilidade humana ainda é utilizada por nós nos diversos campos científicos. A saber, Platão é conhecido por ser um racionalista, termo este que orienta o pensamento humano a crer que somente através da razão e análise lógica nós seríamos capazes de conhecer o mundo verdadeiramente. Contraria a essa ideia, seu seguidor Aristóteles inicia a forma de pensar empírica, na qual formula que o conhecimento do mundo se daria através da evidência obtida através da observação e da experimentação do mundo físico.

 

O embate entre empiristas e racionalistas perpetuou durante séculos. Dois grandes exponentes dessas filosofias foram René Descartes (1596-1650) e John Locke (1632-1704). Descartes, como um bom racionalista, acreditava que a verdade só poderia ser alcançada através do uso da razão e das faculdades mentais. Para chegar a esta ideia, sua célebre frase cogito, ergo sum foi demasiada importante, pois através desta questão ele afirma que o princípio básico do conhecimento é o pensamento, o pensar. O filósofo também propôs uma teoria capaz de se permear por séculos e fazer com que filósofos da nossa era ainda debatessem sobre isso: o problema mente-corpo. Para Descartes, a mente é uma substância imaterial, enquanto o corpo, uma substância material. Essa mente exerceria função causal sobre as propriedades do corpo — por possuir capacidades como a reflexão, a razão e toda atividade intelectual —, enquanto este seria apenas uma espécie de receptor desses estímulos, algo passivo. Segundo Neufeld et al. (2011), Descartes exerce grande importância para a pesquisa em psicologia cognitiva experimental, uma vez que:

 

“Sua principal dúvida consistia na relação pensamento e corpo, pois, postulava que o pensamento era capaz de desenvolver alterações biológicas no homem. Em sua obra, busca investigar o corpo e o cérebro com a técnica da dissecação” (NEUFELD et al., 2011, p. 107).

 

Locke, contrário ao racionalismo e simpatizante do modelo empirista de cognição, defendia que conheceríamos a verdade através do que nossos sentidos são capazes de captar. Expoente da teoria da tábula rasa, o filósofo acreditava que o homem não nascia com conteúdos inatos e que apenas a experiência poderia preenchê-lo de fato.

 

Fonte: https://capitaopiratao.files.wordpress.com/2010/03/descartes.jpg

 

O filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) também deu suas contribuições para a formulação da psicologia cognitiva que temos hoje em dia. Kant, ao contrário de Descartes e Locke, tentou unificar esses modelos de pensamento, mostrando que é possível a dialética entre essas teorias sobre o conhecer humano. Para o filósofo, tanto a experiência quanto a racionalização executam papéis importantes na obtenção do conhecimento. As teorias de cunho racionalistas não poderiam ser validadas sem que houvessem quaisquer ligações com a observação empírica do mundo. Dessa forma, o empirismo também se torna incapaz de descrever fielmente o mundo, ou de alcançar a verdade, sem que haja a utilização da razão para a verificação correta dos dados e para se ter um escopo teórico forte.

 

Acima, mostrei os antecedentes filosóficos da psicologia cognitiva e, de certa forma, como seus pressupostos e teorias ainda influenciam nossas pesquisas atualmente. Abaixo seguirei mostrando como a psicologia se desvinculou da filosofia e da medicina, se tornando um ramo independente, e as diversas abordagens que se seguiram desde então até assumirmos a psicologia cognitiva moderna e seus pressupostos.

 

O SURGIMENTO DA PSICOLOGIA CIENTÍFICA

 

O surgimento da psicologia como matéria científica se iniciou com os trabalhos de Wundt (1832-1920) em seu laboratório na cidade de Leipzig, em 1879. Wundt, um estruturalista, buscava estudar a estrutura e as percepções da mente em seu laboratório, especificamente, através do método introspectivo. Para isso, era importante o estudo através das partes constituintes da percepção: a sua cor, sua forma e seu tamanho.

 

Wundt e seus colaboradores em seu laboratório.
Fonte: https://goo.gl/FpCn0O

 

Frente ao estruturalismo, surge o funcionalismo, ou seja, a teoria de que os estudos psicológicos deveriam ser focados no “porquê?” e no “como?” dos processos de pensamentos, e não em suas estruturas. Os funcionalistas visavam entender como a mente funcionava e para isso buscavam nas relações funcionais entre os eventos a resposta para as suas questões. Sternberg (2008) sugere que o funcionalismo deu início à teoria behaviorista metodológica, pois buscava as relações funcionais entre um estímulo antecedente que eliciava um comportamento resposta; e também que essa teoria tenha levado ao pragmatismo.

 

Por fim, mas não menos importante, o associacionismo é a teoria psicológica que buscava estudar como as experiências e as ideias se associavam em nossa mente proporcionando o aprendizado. Thorndike, com a formulação da sua lei do efeito foi o grande expoente dessa vertente. O associacionista verificou, em seus estudos, que um organismo tende a repetir uma ação se a consequência que se segue desta é satisfatória. Suas formulações deram base para o desenvolvimento da teoria do reforço, desenvolvida pelo psicólogo americano B. F. Skinner.

 

A CONSOLIDAÇÃO DA PSICOLOGIA CIENTÍFICA

 

A psicologia cognitiva alavancou com o advento dos computadores digitais e da inteligência artificial. Neisser, em seu livro Cognitive Psychology (1967), define a psicologia cognitiva como a ciência que trata dos processos de input (entrada) sensorial, que é transformado, elaborado, armazenado, recuperado quando necessário e usado para lidar com as situações diárias. Esse modelo é conhecido como Processamento de Informação, ou teoria IP, tendo como base o modelo S – O – R de Pavlov e Hull, na qual “O” não é apenas um organismo que responde aos estímulos ou característico de uma estrutura da informação, mas sim possuidor de expectativas, motivações e intencionalidade

 

Fonte: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-19652003000100008

 

Diferentemente da teoria behaviorista que não assume a causalidade interna dos pensamentos, esta abordagem psicológica assume que o modo como o homem pensa, crê e percebe o mundo pode ser a causa de seus comportamentos. Tratarei desse assunto em um próximo texto, com as noções de processamento de informações.

 

Os diversos campos do conhecimento científico, como a psicobiologia, a linguística, a antropologia e os avanços tecnológicos também se relacionam com a psicologia cognitiva e a sua cientificidade. A saber, além da evolução nos campos neurocientíficos, as evoluções no ramo da tecnologia também impactam o campo de entendimento e pesquisa cognitivo. É comum psicólogos cognitivistas atuais tratarem os fatos e os processos de aprendizagem humanos através de metáforas e analogias. Por exemplo, palavras como “símbolo”, “limitações na capacidade de processamento” etc. são utilizadas metaforicamente para melhor entendimento de como a mente humana funciona.

 

Fonte: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-19652003000100008

 

Atualmente há duas abordagens dentro da psicologia cognitiva: a de IP que já falamos brevemente acima e a conexionista, que também vale algumas palavrinhas. A abordagem conexionista amplia a visão da teoria IP, afirmando que o nosso sistema cognitivo pode executar muitas tarefas ao mesmo tempo.

 

Fonte: http://temasdepsicologiacientifica.blogspot.com.br/2011/04/conexionismo.html

 

Em suma, a psicologia cognitiva pode ser entendida como uma subdivisão das ciências cognitivas que estuda os processos mentais, tais como a memória e a percepção, suas funções e como eles atuam no sujeito que o experiencia.  Talvez possamos dizer que uma de premissas mais básicas dessa ciência é que a forma como pensamos sobre o mundo, incluindo a forma como experienciamos as coisas, determina a forma como reagimos a esse mundo, em outros termos, como nos comportamos. É se baseando nessa premissa que se entende a mente como um conjunto de operações cognitivas sobre o conteúdo da experiência, e que a psicologia cognitiva conduz seus processos de pesquisa e fundamenta suas práticas terapêuticas.

 

 

REFERÊNCIAS

 

KNAPP, Paulo; BECK, Aaron T. Fundamentos, modelos conceituais, aplicações e pesquisa da terapia cognitiva. Rev. Bras. Psiquiatr., São Paulo , v. 30, supl. 2, p. s54-s64, Oct. 2008 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-44462008000600002&lng=en&nrm=iso>. access on 23 Nov. 2016. http://dx.doi.org/10.1590/S1516-44462008000600002.

 

NEUFELD, Carmem Beatriz; BRUST, Priscila Goergen; STEIN, Lilian Milnitsky. Bases epistemológicas da psicologia cognitiva experimental. Psic.: Teor. e Pesq., Brasília , v. 27, n. 1, p. 103-112, Mar. 2011 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722011000100013&lng=en&nrm=iso>. access on 23 Nov. 2016. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-37722011000100013.

 

STERNBERG, Robert J. Psicologia Cognitiva. Editora Artmed – Porto Alegre: 4ª edição, 2008. Psicologia Cognitiva. Editora Artmed- Porto Alegre: 4ª edição, 2008.

Sou estudante de psicologia, tenho 20 e tantos anos. Já quis ser paleontólogo e astrônomo – talvez ainda gostaria de ser. Despertei meu interesse por ciência na infância quando preferia desmontar os brinquedos, ao invés de brincar com eles. Nas horas vagas gosto de conversar sobre a vida, o universo e tudo mais. Acredito que ficarei mais contente com a minha vida se puder ser metade do homem que Carl Sagan foi.

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