O que é um psicopata? Compreendendo a psicopatia e suas particularidades — Parte 1

Mindhunter. Netflix (2017)

 

A psicopatia é um transtorno de personalidade que acomete cerca de 3 a 4% da população mundial. Os psicopatas são indivíduos que podem ser encontrados em qualquer etnia, cultura, sociedade, credo, sexualidade ou nível financeiro. Jamais irão experimentar uma inquietude mental, ou o menor sentimento de culpa ou remorso por desapontar, magoar, enganar ou até mesmo tirar a vida de alguém (SILVA, 2014) – um pouco difícil processar isso mentalmente, não é? Vamos trabalhar essa dificuldade; isso é possível, é real.

 

Percorreremos uma longa trilha acerca dos pilares que fundamentam a psicopatia. Tenho como presente objetivo expor informações sobre a mente e o comportamento das pessoas diagnosticadas com transtorno de personalidade antissocial (TPA) e, também, dos psicopatas; alguns detalhes serão levantados, mitos e dúvidas clássicas sanadas.

 

As pessoas são ingênuas quanto ao potencial do ser humano para matar. Elas presumem que assassinos são indivíduos diabólicos facilmente detectáveis, mas nem sempre são. Torna-se mais complexo quando você entende que é uma pequena parcela desses indivíduos (psicopatas) que são tomados pelo impulso que leva ao homicídio, a maioria se “alimenta” de outra forma, a qual será abordada em breve.

 

Pensar na psicopatia me leva a uma interessante e conturbadora via de mão dupla — espero que você leitor também consiga chegar a esse estado após a leitura desse texto. Psicopatas são postos como indivíduos desprovidos de empatia (incapaz de se colocar no lugar do outro), mentirosos crônicos, frios e calculistas. Grandes estudiosos da psicologia psicopática acreditam que a escassez desse sentimento é um dos principais pilares da crueldade intrínseca nestes indivíduos.

 

Essa é a característica mais popular dos psicopatas, a falta de empatia; mas e os seres humanos mentalmente saudáveis? A que ponto chegam para entender a psicopatia? São capazes de se colocar no lugar de um psicopata? De pensar como um? Viso colocar-se no lugar do psicopata como a outra via, mais complexa, porém necessária para compreender o assunto e até mesmo solucionar crimes.

 

Ted Bundy, um dos mais temíveis assassino em série dos EUA na década de 70.

 

Colocar-se no lugar de uma pessoa “normal” para compreendê-la já é algo significativamente complicado (em casos mais complexos). Na maioria das vezes, se o indivíduo não tiver passado por uma situação semelhante ele não será capaz de ter uma compreensão sólida, pois o mesmo não tem experiência para simular o que a outra pessoa está sentindo emocionalmente.

 

Quanto a se colocar no lugar de um psicopata, é algo que os psiquiatras, psicólogos e estudiosos do comportamento humano, que atuam na área forense, costumam ter como estilo de vida. É importante que o profissional tenha a capacidade de razoavelmente compreender a mente do psicopata, estabelecendo parâmetros que possivelmente os levarão ao tal. Vamos abordar isso (serial killers) com mais especificidade em um futuro artigo exclusivo para isso, o enfoque aqui é a psicopatia.

 

Essa coisa toda de empatia e de se colocar um no lugar do outro, vagamente, me faz lembrar dos neurônios espelhos. Células localizadas no córtex pré-motor que disparam quando observamos um animal (geralmente da mesma espécie) realizando um determinado ato. Em uma explicação mais básica, ao ver alguém fazendo um movimento para pegar um copo com a mão, o seu cérebro trabalha como se você tivesse fazendo o mesmo. Estas células são cruciais para imitação e acredita-se que é de suma importância para o aprendizado da linguagem.

 

TPA’S VS PSICOPATAS E POR QUE NÃO EXISTE CRIANÇA PSICOPATA?

 

Antes de prosseguir com o assunto, será necessário esclarecer alguns detalhes importantes, os quais o leitor deve estar atento para que possa compreender o artigo da melhor forma possível. Nessa série de textos, tentarei abordar o assunto com uma profundidade considerável mas, ao mesmo tempo, sem se perder em minúcias técnicas e acadêmicas, tentando manter uma legibilidade constante.

 

É importante enfatizar que, apesar das abordagens e análise de pesquisas baseadas em neuroimagens que associam a psicopatia a certas diferenças neurobiológicas em relação a um cérebro saudável, em termos médicos-psiquiátricos, a psicopatia não se encaixa na visão tradicional das doenças mentais. Causando por tanto, uma falsa impressão de que se trata de indivíduos loucos ou doentes mentais. Não sofrem de delírios nem alucinações (como a esquizofrenia) e muito menos apresentam intenso sofrimento mental como a depressão.

 

John Wayne Gacy, conhecido como “o palhaço assassino”.

 

Durante a adolescência, o cérebro está sujeito a intensas transformações biofísicas. Essas transformações biofísicas, na maioria das vezes, explicam os comportamentos impulsivos, imediatistas e explosivos dos adolescentes (SILVA, 2014). As pessoas amadurecem e se desenvolvem de forma e em tempos distintos. Por conta disto, a psiquiatria não pode formar o diagnóstico de transtorno de personalidade antissocial (TPA) antes dos dezoito anos de idade. Os pacientes com menos de dezoito anos de idade que apresentam comportamentos referentes ao TPA, recebem o diagnóstico de transtorno da conduta (antes conhecido como delinquência).

 

Segundo Casoy (2017), alguns estudos do cérebro sugerem que crianças diagnosticadas com transtorno de conduta apresentam certas conexões cerebrais com mais lentidão que outras, mostram menos medo à punição e parecem ter a necessidade de “excitar” seu sistema nervoso, sentindo fortes emoções e precisando de vibrações constantes – a segunda parte do artigo, onde trataremos desses assuntos, será específica para a neurobiologia “psicopática”.

 

Alguns especialistas atribuem a psicopatia como um transtorno de personalidade (TP) em um grau máximo. Esse transtorno refere-se a padrões de comportamento que não se enquadram naquilo que a sociedade considera como uma conduta “normal”. A classificação da psicopatia como um TP não é plenamente aceita, pois os psicopatas possuem uma excêntrica habilidade de dissociação – a qual veremos com detalhes em breve — que, portanto, difere-se completamente dos outros transtornos de personalidade.

 

Os manuais médicos que descrevem doenças mentais não utilizam a palavra psicopatia. Utiliza-se transtorno de personalidade antissocial (TPA), pois é o distúrbio que mais se aproxima da psicopatia. De modo geral, o típico TPA é descrito como um mentiroso contumaz, um manipulador que sente dificuldade em seguir normas e tem propensão a enganar os outros. É irritadiço e normalmente brigão, irresponsável e não se importa com a própria segurança nem com a dos demais. Sobretudo, é incapaz de sentir remorso: rouba, fere e mente sem o menor constrangimento.

 

Apesar da semelhança entre TPA e psicopatia, o que faz com que seja comum a confusão entre os dois termos, existem diferenças entre eles. O psicopata, além de apresentar todos os sintomas de alguém diagnosticado com TPA, demonstra uma capacidade intrínseca de premeditar ações complexas sem levantar suspeitas. Pode seguir sua vida criminosa – não necessariamente criminosa –  sem que ninguém a sua volta perceba nada de errado, o que não corresponde ao perfil do TPA, descrito também como impulsivo e incapaz de planejar ações de longo prazo.

 

DESENVOLVENDO A MENTE, COMPREENDENDO A PSICOPATIA

 

É interessante notar que todo ser humano observa a mesma realidade, porém, cada um tem uma opinião sobre algo, gerando pontos de vista divergentes. Há uma frase que interpreta isso de uma maneira direta: “Qualquer conhecimento a respeito da realidade externa é uma criação interna”. Podemos concluir que apesar de todos observarmos a mesma realidade externa, cada ser humano possui uma realidade interna diferente (que fique claro que estas alegações devem ser interpretadas ao limite do contexto deste texto, e não como posições filosóficas gerais a serem tomadas) – acredito que as emoções e experiências tenham um papel importante no molde e na interpretação desta realidade.

 

Existem múltiplas formas de analisar a veracidade do que foi dito acima. Uma forma mais densa de começar a pensar sobre isso é correlacionar a transtornos mentais. Cito como exemplo a depressão, eu poderia citar até mesmo a psicopatia, mas vamos deixar isso mais para frente, o presente objetivo é abrir a sua linha de raciocínio.

 

Karla Homolka, serial killer canadense da década de 70.

 

Na depressão o indivíduo fica “desregulado” quanto interpretação da realidade externa, e, muitas vezes, interna, embora observe a mesma realidade do que um indivíduo mentalmente saudável. Mesmo com todas as estruturas anatômicas cerebrais disponíveis e em perfeito estado (sem lesão), conclui-se que o sujeito está perdido nos trilhos quanto a uma interpretação da realidade.

 

O que nos diferencia de outros animais é o fato de o nosso cérebro ser mais desenvolvido e extremamente complexo. Nós temos algo em especial, que chamamos de consciência. Um exemplo dessa complexidade são as diferentes estruturas cerebrais que compartilham a mesma função.

 

Os psicopatas não são “doidos”, eles têm plena consciência do que fazem e das consequências de seus atos – é importante não confundir psicopatas com psicóticos. São verdadeiros predadores sociais, capazes de atropelar tudo e todos com total egocentrismo, visando apenas o próprio benefício. Muitos passam algum tempo na prisão, porém, a grande maioria deles sequer esteve em uma delegacia. Alguns são capazes de cortar a garganta de alguém só para ver se a faca está afiada.

 

Do ponto de vista psiquiátrico e psicológico, esses indivíduos não se enquadrariam como doentes mentais, como é o caso de uma pessoa portadora de esquizofrenia – como foi salientado anteriormente –, porém apresentam um mau funcionamento da sua personalidade no tocante ao caráter que envolve os traços moldados ao longo do desenvolvimento, resultantes das experiências de aprendizagem propiciadas por diferentes influências ambientais. Para esses casos, ainda não se tem uma causa específica nem um tratamento adequado. Esses indivíduos estão classificados como portadores de TPA (transtorno de personalidade antissocial) ou psicopatas.

 

As pessoas fazem um mal uso do termo psicopata, o que faz com que seja necessário elucidar que, em sua grande maioria, não são assassinos e vivem como se fossem pessoas comuns, em casos extremos os psicopatas matam a sangue frio. Um psicopata pode cometer suas maldades por puro prazer e diversão, sem vestígios de arrependimento. De acordo com Hare (1999), psicopatia e criminalidade são categorias sobrepostas, mas não equivalentes. O público leigo costuma achar que a maioria dos criminosos é psicopata e vice-versa – inclusive atrelá-los a todo serial killer.

 

Agora que definimos superficialmente o que é um psicopata, podemos nos aprofundar, de forma considerável, no fenômeno da dissociação. Antes de abordar diretamente a dissociação e também a manipulação de forma mais técnica, irei dispor aqui o relato de John Douglas (2017), o qual é extremamente experiente sobre o assunto.

 

E assim como Arthur Shawcross, Monte Rissel também estava em liberdade condicional quando cometeu seus assassinatos. E, assim como Ed Kemper (todos os nomes citados são de serial killers reais), conseguiu convencer um psiquiatra de que estava progredindo muito bem, quando, na verdade, estava matando humanos. É meio que uma versão doentia da velha piada sobre quantos psiquiatras são necessários para se trocar uma lâmpada. A resposta é: apenas um, desde que a lâmpada queira ser trocada. Psiquiatras e profissionais que tratam de saúde mental estão acostumados a lidar com um relato de autoavaliação dado pelo sujeito no acompanhamento de seu processo, e a ideia parte do princípio de que o paciente deseja “melhorar”.

 

Um assassino ou estuprador em série (psicopata) é, por natureza, manipulador, narcisista, e completamente egocêntrico. Ele relatará a um oficial de condicional ou a um psiquiatra prisional qualquer coisa que ele queira ouvir e o que for necessário para que seja solto e possa continuar nas ruas.

 

Aileen Wuornos, primeira mulher considerada assassina em série.

 

Como um homem desse poderia fazer algo tão terrível? Deve haver algum engano ou agravante. É isso que você dirá a si mesmo caso converse com alguns deles; não há como compreender inteiramente a enormidade dos crimes que eles cometeram. E é por isso que tantos psiquiatras, juízes e oficiais de condicional são ludibriados.

 

Em muitas das primeiras entrevistas que John Douglas realizou, depois de ter ouvido a história de um detento, hesitava em se virar para o seu parceiro e dizer: “Será que ele foi incriminado falsamente? Ele tinha uma boa resposta para tudo. Será que realmente prenderam o cara certo?”.

 

ESCLARECENDO A DISSOCIAÇÃO

 

Nos parágrafos anteriores foram relatados de forma breve, mas baseado em fatos reais, a manipulação, e principalmente, o elevado grau de dissociabilidade que esses indivíduos podem apresentar (DOUGLAS & OLSHAKER, 2017). Agora temos informações suficientes para tratar do fenômeno da dissociação com mais profundidade.

 

É difícil imaginar como a dissociação não seria um frequente concomitante da personalidade psicopática (MCWILLIAMS, 2014). Uma característica dos psicopatas a qual os marca de forma árdua é a habilidade de manipulação inata (facilidade de aprender tal habilidade) que estes indivíduos possuem. Quanto as defesas dissociativas de um psicopata, são quase sempre percebidas, entretanto, difíceis de avaliar em situações específicas

 

Segundo McWilliams (2014), o fenômeno da dissociação abrange desde situações em que o papel da pessoa em algum erro é minimizado até a completa amnésia de um crime violento. O repúdio de uma responsabilidade própria, que pode ter uma qualidade dissociativa, é um indicador diagnóstico importante da psicopatia; o agressor que explica que teve “uma pequena desavença” com sua amante e que ele “acha que perdeu a cabeça” ou o trapaceiro que parece arrependido e alega ter feito um “mau julgamento do contexto” são exemplos do uso da minimização.

 

Pedro Rodrigues Filho, vulgo “Pedrinho matador”, é um assassino em série brasileiro.

 

Entrevistadores que se deparam com isso devem pedir informações mais específicas: “O que exatamente você fez quando perdeu a cabeça?” ou “o que você exatamente julgou errado?”. Quase sempre a resposta à segunda pergunta demonstra uma lástima por ter sido pego, mas não um remorso por ser trapaceado. Atentando-se às entrevistas realizadas por psicólogos e psiquiatras com indivíduos antissociais ou psicopatas (CASOY, 2017), reparará que sempre usufruem dessa “técnica”.

 

Quando uma pessoa psicopata alega ter estado emocionalmente dissociada ou em estado de amnésia durante alguma experiência, sobretudo ao cometer um crime, é difícil dizer se a experiência foi de fato dissociação ou se suas palavras sobre isso constituem uma evasão manipulatória da responsabilidade (MCWILLIAMS, 2014). Pode-se observar em muitos casos de criminosos psicopatas que, ao serem descobertos por seus crimes, tentam conseguir imputabilidade – um assunto que gera muita polemica devido, na maioria das vezes, às discordâncias que o mesmo resulta. Insanidade, muita das vezes alegada em tribunais para a tentativa de absolvição do assassino, não é um conceito de saúde mental, como muitos acreditam. Seu conceito legal se refere à habilidade do indivíduo de saber se suas ações são certas ou erradas no momento em que estão ocorrendo (CASOY, 2017).

 

Vale lembrar que, a dissociação em si não é anormal. Todos nós temos um comportamento social mais “controlado” do que aquele que temos com nossos familiares mais íntimos. Quando nos referimos aos psicopatas, a dissociação de sua realidade e fantasia é absurda. De acordo com Casoy (2017), muitos têm esposa, filhos e um emprego normal, mas são perturbados ao extremo. O real e violento comportamento do agressor é suprimido socialmente, o que pode soar como amnésia temporária ou segunda personalidade, mas não é o caso.

 

Para reforçar o que foi dito em relação ao discernimento entre o certo e errado, tomaremos como exemplo o comportamento de alguns psicopatas criminosos, citarei o caso de Lawson – o qual apresenta um pouco de complexidade –, um esquizofrênico que cometia seus crimes com sua dupla James Odom, os quais, muitas das vezes, quando notavam que não seriam capazes de realizar um rapto bem-sucedido sem que houvesse resistência ou pelo menos testemunhas, desistiam; iam embora sem cometer o crime que desejavam. Lawson por ser esquizofrênico tinha um argumento muito forte para uma defesa por insanidade mental. Ainda assim, quando as circunstâncias não favoreciam o sucesso do crime, eles desistiam de cometê-lo. Nenhum dos dois sentia uma compulsão tão grande a ponto de ser compelido a cometer o ato.

 

Na opinião de John Douglas (2017), um experiente “caçador” de serial killers, a simples existência de um distúrbio mental não exime um criminoso de culpa. A não ser que ele esteja completamente delirante e não compreenda suas ações no mundo real, ele escolhe machucar ou não outra pessoa. E os “malucos” de verdade são fáceis de capturar. Assassinos em série, não.

 

AS EMOÇÕES DO PSICOPATA

 

O comportamento desprezível é resultado de uma escolha exercida de forma livre e sem nenhuma culpa (SILVA, 2014), mediado por carência de emoções e consequentemente desprovimento de empatia. Para eles tanto faz ferir, maltratar ou até matar alguém que atrevesse o seu caminho ou os seus interesses, mesmo que esse alguém faça parte de seu convívio íntimo.

 

Uma questão um tanto quanto curiosa: os psicopatas possuem uma ansiedade imperceptível (já que a veem como uma fraqueza) ou são isentos da mesma?  Até o ponto que podemos investigar empiricamente, os que julgam os psicopatas como isentos de ansiedade parecem mais acurados, ao menos com relação a verdadeiros psicopatas.

 

O dr. Christopher Patrick, em um artigo de 1995, “Psychopaths: findings point to brain diferences”, alegou que psicopatas têm menor taxa de mudanças cardíacas e de condução elétrica na pele como reação ao medo – veremos o porquê com detalhes no próximo artigo. Eles demonstraram a mesma reação diante de uma palavra como “estupro” e de outra como “mesa” (apud INTRATOR et al., 1997), praticamente são isentos da reação de espanto.

 

Ao analisar os níveis de ansiedade e medo de um verdadeiro psicopata, o resultado que obtemos é simplesmente surreal, longe da realidade de qualquer ser humano que julgamos mentalmente saudável. Tente imaginar uma “interpretação da realidade externa” em que as emoções tenham, de forma acentuada, um menor impacto; as respostas seriam de maior intelecto e mais calculadas, frias, de maneira mais racional – e como já salientamos, visando apenas a si mesmo.

 

José Augusto do Amaral, conhecido como “Preto amaral”, foi considerado o primeiro assassino em série brasileiro.

 

O dr. Robert Hare, em um estudo semelhante, “Psychopathy: a clinical constructo whose times has come”, chegou a uma conclusão semelhante, percebeu que as ondas cerebrais monitoradas de psicopatas reagiam à linguagem verbal, mostrando palavras agradáveis e desagradáveis. Porém, para as pessoas saudáveis, as ondas cerebrais têm sua atividade modificada rapidamente, dependendo da palavra ouvida. Para os psicopatas, nenhuma atividade cerebral especial foi registrada, ou seja, todas as palavras são neutras para essas pessoas.

 

Grande parte da vida humana gira em torno das emoções, o que torna essencial entende-las para compreender nossa condição. Na maioria das vezes a emoção é o que inspira a expressão artística, desde a poesia, passando pelo cinema, até a pintura. De fato, uma razão pela qual muitas pessoas apreciam a arte é que ela evoca emoções. O interessante é que, ainda que saibamos o que são essas emoções, definir seu conceito é bastante difícil, pois elas não são tangíveis, e sim, subjetivas. Contudo, é muito mais fácil identificar como as emoções são expressas que dizer exatamente o que são. Em certo sentido, os sentimentos são significados que o encéfalo cria para representar os fenômenos fisiológicos gerados pelo estado emocional.

 

A autora Ana Beatriz Barbosa Silva (2014), em seu livro “Mentes Perigosas”, escreveu uma frase que explica os psicopatas através de uma metáfora: “Concordo plenamente quando alguns autores dizem, de forma metafórica, que os psicopatas entendem a letra de uma canção, mas são incapazes de compreender a melodia”.

 

Constata-se através da metáfora que os psicopatas são desprovidos de certas emoções, eles aprendem a fingir que as têm. Possuem uma capacidade impressionante de manipular o próximo. O psicopata não se apaixona, não sente o amor, ele manipula o indivíduo e o usa. Mesmo se conscientes delas, pessoas antissociais não conseguem reconhecer emoções comuns – como a ansiedade, porque as associam com fraqueza e vulnerabilidade.

 

Existe também uma fala do personagem do seriado “Dexter” que retrata a capacidade de um psicopata de fingir e manipular sentimentos: “Meu nome é Dexter Morgan. Eu não sei o que fez eu me tornar o que sou, mas seja lá o que for, deixou um vazio dentro de mim. As pessoas fingem muitas interações humanas, mas eu finjo todas elas e finjo muito bem”. Apesar de ser ficção, encaixa-se muito bem na realidade.

 

Você provavelmente já ouviu falar do termo sociopata, e se pergunta a diferença entre o mesmo e o psicopata. Os dois termos são sinônimos para um tipo específico de transtorno de personalidade, o TPA (transtorno de personalidade antissocial), de fato, os dois termos se referem ao mesmo indivíduo (SILVA, 2014). O que se difere neste caso é o ponto de vista de quem “apelida”; o termo sociopata é referente a fatores sociais desfavoráveis sejam capazes de causar o problema, já o “psicopata” refere-se a fatores genéticos, biológicos e psicológicos estarem envolvidos na origem do transtorno. Sociopata e psicopata são nomenclaturas utilizadas na psiquiatria forense. Na psiquiatria “geral” utiliza-se apenas TPA, devido ao termo psicopatia não ser reconhecido no Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM).

 

É impossível estudar sobre psicopatas e não ler alguma obra de Robert Hare, um psicólogo especialista em psicologia criminal e psicopatia. Dentre as suas diversas obras sobre psicopatia, logo encontrei-me com o livro “Sem Consciência”. Existe um texto de Hare que possui uma colocação muito boa quanto as emoções dos psicopatas:

 

Um psicopata ama alguém da mesma forma como eu, digamos, amo meu carro – e não da forma como eu amo minha mulher. Usa o termo amor, mas não o sente da maneira como nós entendemos. Em geral, é um sentimento de posse, de propriedade. Se você perguntar a um psicopata por que ele ama certa mulher, ele lhe dará respostas muito concretas, tais como “porque ela é bonita”, “porque o sexo é ótimo” ou “porque ela está sempre lá quando preciso”. As emoções estão para o psicopata assim como está o vermelho para o daltônico. Ele simplesmente não consegue vivenciá-las.

 

Antônio de Pádua Serafim, um psicólogo clínico e forense, transcreveu um texto interessante nos anexos do livro “Made in Brazil”, da autora Ilana Casoy. No texto, Serafim ressalta que dentre os crimes contra a pessoa, o homicídio, sem sombras de dúvidas apresenta-se como de maior gravidade e impacto perante a opinião pública. Diariamente, na imprensa, é notificada a ocorrência de prática de homicídios em diferentes contextos.

 

Em alguns casos, questionamentos quanto ao que leva uma pessoa a praticar tamanha crueldade se apresentam em meio à indignação, à revolta e ao sofrimento. A tentativa de compreender o que leva uma pessoa a agredir outra mortalmente com sinais de brutalidade, crueldade e frieza mobiliza não somente a população em geral, mas também especialistas das áreas da medicina, da psicologia e do direito.

 

Edmund Kemper, serial killer e necrófilo americano.

 

É enorme o sofrimento social, econômico e pessoal causado por algumas pessoas cujas atitudes e cujo comportamento resultam menos das forças sociais do que de um senso inerente de autoridade e uma incapacidade para a conexão emocional em relação ao resto da humanidade. Para esses indivíduos (psicopatas), as regras sociais não são uma força limitante e a ideia de um bem comum é meramente uma abstração confusa e inconveniente.

 

 

REFERÊNCIAS

 

[1] KOLB, Bryan; WISHAW, IAN Q. Neurociência do comportamento. SP Brasil: Manole, 2002. 601 p.

 

[2] Kandel, E., Schwartz, J., Jessell, T., Siegelbaum, S., & Hudspeth, A. J. (2014). Princípios de Neurociências-5. Porto Alegre: AMGH Editora.

 

[3] DOUGLAS, John; OLSHAKER, Mark. Mindhunter: O primeiro caçador de serial killers americano. RJ: Intrinseca, 2017. 374 p.

 

[4] CASOY, Ilana. Arquivos serial killers: Louco ou cruel? Made in brazil. RJ: DarkSide, 2017. 715 p.

 

[5] DIMAIO, Vicent. O segredo dos corpos. RJ: DarkSide, 2017. 288 p.

 

[6] SILVA, Ana Beatriz Barbosa. Mentes perigosas: O psicopata mora ao lado. 2 ed. SP: Globo S.A, 2014. 232 p.

 

[7] MCWILLIAMS, Nancy. Diagnóstico psicanalítico: Entendendo a Estrutura da Personalidade no Processo Clínico. 2 ed. [S.L.]: ArtMed, 2014. 445 p.

 

[8] MORANA, Hilda; STONE, Michael; FILHO, Elias. Transtornos de personalidade, psicopatia e serial killers. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-44462006000600005>. Acesso em: 13 dez. 2017.

 

[9] JOAQUIM, Natália; OLIVEIRA, Tharissa. Psicopatia e Sociopatia Na teoria Comportamental . Disponível em: <http://www.fae.br/2009/Psicologia_literaturas/Psicopatia_e_Sociopatia.pdf>. Acesso em: 13 dez. 2017.

 

[10] JUNIOR, Edinaldo Oliveira. A psicopatia e a dissociação entre as realidades. Instituto Brasileiro de Linguagem Corporal. Disponível em < https://ibralc.com.br/psicopatia-dissociacao/> . Acesso em 12 Dec 2017.

 

[11] MOTZKIN, Julian et al. Reduced Prefrontal Connectivity in Psychopathy. Disponível em: <http://www.jneurosci.org/content/31/48/17348>. Acesso em: 13 dez. 2017.

 

[12] MOTZKIN, Julian et al. Ventromedial prefrontal cortex is critical for the regulation of amygdala activity in humans. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4145052/>. Acesso em: 13 dez. 2017.

 

[13] DEL-BEN, Cristina et al. Neurobiologia do transtorno de personalidade anti-social: Neurobiology of anti-social personality disorder. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-60832005000100004>. Acesso em: 13 dez. 2017.

 

[14] SABBATINI, Renato. O Espantoso Caso de Phineas Gage. Disponível em: <http://www.cerebromente.org.br/n02/historia/phineas_p.htm>. Acesso em: 13 dez. 2017.

 

[15] TRIPICCHIO, Adalberto. O Psicopata sob o prisma da Psicologia Evolucionista. Disponível em: <http://www.redepsi.com.br/2007/06/28/o-psicopata-sob-o-prisma-da-psicologia-evolucionista/>. Acesso em: 13 dez. 2017

 

[16] BRITO, Dayana. O perfil do psicopata. Disponível em: <http://www.cedipe.com.br/3cbpj/docs/artigos_pdf/09_perfil_do_psicopata.pdf>. Acesso em: 13 dez. 2017.

 

[17] LENT, Robert et al. (Org.). Neurociência da Mente e do Comportamento. Rio de Janeiro: LAB, 2008. 356 p.

Graduando em Ciências Biológicas modalidade bacharelado. Apaixonado pelas neurociências, um curioso buscando entender as leis que regem a natureza do comportamento humano. Certo grau de peculiaridade quando o assunto refere-se aos psicopatas. Fã dos seriados: Hannibal Lecter, Dexter, MindHunters, House e Sherlock Holmes.

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