Crenças e comportamento na Terapia Cognitivo-Comportamental

 

Para concluir a série, vamos relacionar os conceitos abordados anteriormente com crenças e comportamento.

 

RELAÇÃO ENTRE PENSAMENTOS AUTOMÁTICOS E COMPORTAMENTO

 

Retomando o esquema que esboçamos anteriormente, temos que crenças nucleares são formadas ao longo do desenvolvimento e dão origem a crenças intermediárias, as quais podem ser atitudes, regras ou pressupostos. Numa dada situação, as crenças mais centrais modulam a interpretação, que é expressa pelos pensamentos automáticos; estes, por sua vez, influenciam como a pessoa reage naquela situação, ou seja, afetam seu comportamento, suas emoções e as respostas fisiológicas do seu organismo. No caso de Lúcia, nas situações em que precisa estudar algum assunto novo, sua conceituação cognitiva é a seguinte:

 

Esquema adaptado de Beck (2013).

 

Com o treino cognitivo, Lúcia poderia avaliar seus pensamentos tão rapidamente quanto eles apareçam, e seu comportamento, suas emoções e sua fisiologia não serão afetados daquela maneira. Ela poderia ter respondido ao seu pensamento automático dizendo a si mesma: “esse assunto até pode ser difícil, mas não significa que seja impossível. Eu já passei por essa situação antes e já consegui entender assuntos talvez tão difíceis quanto esse. Se eu continuar tentando, provavelmente vou entender melhor.” Esse tipo de avaliação e resposta ao pensamento automático diminuiria a tristeza e o desânimo de Lúcia e ela provavelmente continuaria lendo em vez de assistir vídeos no YouTube. Em suma, seus pensamentos automáticos, advindos da influência de suas crenças nucleares sobre incompetência na interpretação da situação, desencorajaram Lúcia a realizar a tarefa.

 

Esta é uma simplificação meramente didática do modelo cognitivo usado na terapia cognitivo-comportamental. Pensamentos, humor, fisiologia, comportamento e o ambiente se afetam mutuamente o tempo todo. Várias podem ser as situações desencadeantes, desde memórias, imagens e a própria emoção que a pessoa está experienciando, até comportamentos ou a percepção de alguma alteração fisiológica, como sentir a boca secando ou o coração disparando. Esse modelo é bastante útil para realizar a conceituação cognitiva do paciente e pensar as melhores estratégias para intervenção. A conceituação vai sendo constantemente aperfeiçoada conforme novas informações surgem, o terapeuta levanta hipóteses sobre o paciente e as confirma ou rejeita de acordo com os dados que o paciente for apresentando. Às vezes, podem ser planejados experimentos para testar essas hipóteses e algumas crenças do paciente. A conceituação pode ser testada, também, perguntando diretamente ao paciente o que ele acha. Via de regra, ele confirmará se estiver adequada.

 

Anexo: lista de erros cognitivos comuns

 

Aproveito para colocar uma lista dos erros mais frequentes que as pessoas cometem em seus raciocínios.

 

  1. Pensamento do tipo tudo ou nada: você enxerga uma situação em apenas duas categorias em vez de em um continuum.

Exemplo: “Se eu não for um sucesso total, sou um fracasso.”

 

  1. Catastrofização: você prevê negativamente o futuro sem levar em consideração outros resultados mais prováveis.

Exemplo: “Eu vou ficar muito perturbada. Eu não vou conseguir trabalhar.”

 

  1. Desqualificar ou desconsiderar o positivo: você diz a si mesmo, irracionalmente, que as experiências positivas, realizações ou qualidades não contam.

Exemplo: “Eu realizei bem aquele projeto, mas isso não significa que eu sou competente; só tive sorte.”

 

  1. Raciocínio emocional: você acha que algo deve ser verdade porque você “sentiu” intensamente (na verdade, acreditou), ignorando ou desvalorizando as evidências em contrário.

Exemplo: “No trabalho, eu sei fazer muito bem as coisas, mas eu ainda me sinto um fracasso.”

 

  1. Rotulação: você coloca em você e nos outros um rótulo fixo e global sem considerar que as evidências possam levar mais razoavelmente a uma conclusão menos desastrosa.

Exemplo: “Eu sou um perdedor. Ele não é bom.”

 

  1. Magnificação/Minimização: quando você se avalia ou avalia outra pessoa ou uma situação, você irracionalmente magnifica o lado negativo e/ou minimiza o positivo.

Exemplo: “Receber uma avaliação medíocre prova o quanto eu sou inadequado. Tirar notas altas não significa que eu seja inteligente.”

 

  1. Filtro mental: você dá uma atenção indevida a um detalhe negativo em vez de ver a situação como um todo.

Exemplo: “Como eu tirei uma nota baixa na minha avaliação [que também continha várias notas altas], significa que eu estou fazendo um trabalho malfeito.”

 

  1. Leitura mental: você acredita que sabe o que os outros estão pensando, não levando em consideração outras possibilidades muito mais prováveis.

Exemplo: “Ele acha que eu não sei nada sobre este projeto.”

 

  1. Supergeneralização: você tira uma conclusão negativa radical que vai muito além da situação atual.

Exemplo: “[Como eu me senti desconfortável na reunião], eu não tenho as condições necessárias para fazer amigos.”

 

  1. Personalização: você acredita que os outros estão agindo de forma negativa por sua causa, sem considerar explicações mais plausíveis para tais comportamentos.

Exemplo: “O encanador foi rude comigo porque eu fiz alguma coisa errada.”

 

  1. Afirmações com “deveria” e “tenho que” (também chamados de imperativos): você tem uma ideia fixa precisa de como você e os outros devem se comportar e hipervaloriza o quão ruim será se essas expectativas não forem correspondidas.

Exemplo: “É terrível eu ter cometido um erro. Eu sempre deveria dar o melhor de mim.”

 

  1. Visão em túnel: você enxerga apenas os aspectos negativos de uma situação.

Exemplo: “O professor do meu filho não faz nada direito. Ele é crítico, insensível e ensina mal.” (Beck, 2013)

 

 

REFERÊNCIAS

 

Beck, J. S. (2013). Terapia cognitivo-comportamental. Artmed Editora.

 

Knapp, P. (2009). Terapia cognitivo-comportamental na prática psiquiátrica. Artmed Editora.

 

Knapp, P., & Beck, A. T. (2008). Fundamentos, modelos conceituais, aplicações e pesquisa da terapia cognitiva Cognitive therapy: foundations, conceptual models, applications and research. Rev Bras Psiquiatr, 30(Supl II), S54-64.

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