O que é a Terapia Cognitivo-Comportamental (parte 2)

 

Nesta segunda parte do texto, vamos abordar alguns conceitos centrais da Terapia Cognitivo-Comportamental, dentre eles: crenças nucleares, atitudes, pressupostos e regras.

 

CRENÇAS

 

A definição de crença em filosofia é um problema, mas, para os propósitos deste texto, podemos pensar em crenças como ideias nas quais as pessoas acreditam, Isto é, estamos entendendo que crenças são estados psicológicos com um conteúdo proposicional. Elas podem ser verdadeiras ou falsas a depender do conteúdo corresponder ou não à realidade. Podem ser justificadas se tivermos bons motivos ou evidências para acreditar daquela forma ou injustificadas se não dispusermos de bons motivos para a crença. Com o fluxo de novas informações, podemos passar a ter bons motivos para pensar que uma crença que temos é, na verdade, falsa. Assim, a crença se torna injustificada.

 

No começo da infância e ao longo do desenvolvimento, as crianças formam crenças a respeito de si mesmas, das pessoas ao seu redor e do seu mundo a depender da sua história de vida e do seu contexto social. Algumas dessas crenças são mais centrais, as chamadas crenças nucleares. Frequentemente não são articuladas nem para a própria pessoa, ou seja, são crenças que a pessoa tem, mas que não pensa ou talvez nunca tenha pensado nelas. (Um exemplo caricato seria a crença compartilhada por quase todas as pessoas de que ovelhas não se dissolvem em água. Provavelmente você que está lendo este texto tem essa crença, embora eu duvide que alguma vez você já tenha pensado nela.) Essas crenças são tidas como verdadeiras, embora nunca tenham sido avaliadas criticamente.

 

Consideremos uma daquelas pessoas que ao lerem o texto de divulgação científica pensaram que não tinham capacidade para entendê-lo. Vamos dar-lhe o nome de Lúcia e fazer um estudo de caso dessa pessoa hipotética para exemplificar o modelo cognitivo. Lúcia tem o mesmo tipo de pensamento cada vez que se engaja numa atividade nova, como aprender a cozinhar, tirar carteira de motorista ou ter que apresentar um seminário na faculdade. Vamos partir da hipótese de que uma das crenças nucleares de Lúcia é “eu sou incompetente”. Essa crença pode ser ativada em momentos nos quais ela está mais triste ou pode estar ativa quase o tempo todo. Estar ativa quer dizer que essa crença funciona como um princípio pelo qual Lúcia interpreta os acontecimentos que vivencia. Nesses casos, a percepção que Lúcia tem de alguma situação ou evento se dá pelo filtro dessa crença. 

 

Isso costuma funcionar da seguinte maneira: Lúcia dá ênfase às informações que confirmam sua crença de que é incompetente e desconsidera ou negligencia informações contrárias. Esse efeito é mais forte quando o estado emocional é mais intenso, isto é, quando Lúcia está mais triste. Como veremos mais à frente, isso se trata de uma distorção cognitiva. Tomemos o caso do seminário da faculdade. Ela tirou uma nota baixa na apresentação e tomou isso como sinal de que é incompetente. Outras pessoas que ela julga competentes também tiram notas baixas eventualmente, mas esse fato não lhe ocorreu. Ela não se lembrou do pouco tempo que teve para se dedicar ao seminário nem que ficou doente e de cama às vésperas da apresentação. Ela também não se lembrou de que o seminário anterior que apresentou foi muito elogiado pela professora e que, naquele caso, ela teve mais tempo de estudo. No entanto, ela ficou muito triste pela sua nota, e sua crença de incompetência foi ativada. Assim, passou a processar as informações por esse filtro. Sua avaliação enviesada e muito pouco realista da situação confirmou sua crença, fortalecendo-a. Esse tipo de avaliação não pensada, é automática. Muitas vezes não é nem mesmo consciente.

 

É importante frisar que isso ocorre com todas as pessoas, todos nós processamos informações de acontecimentos de acordo com as crenças que possuímos. Essa distorção cognitiva que consiste em focar naquilo que confirma nossas crenças e relevar o que discorda delas é chamado de viés de confirmação. Lúcia também desqualifica os aspectos positivos (confira uma lista de erros cognitivos comuns no final do texto). Outra particularidade é que ela tende a focar muito mais nas informações negativas e atribuir a si a responsabilidade pelas coisas ruins que ocorrem a ela e às pessoas próximas. Por exemplo, se chamar um amigo para almoçar e a comida lhe fizer mal, Lúcia pode se sentir culpada pelo mal-estar de seu amigo e achar que é tão incompetente que não consegue sequer escolher um bom lugar para comer. Ela, no entanto, não pensa que a outra pessoa ter passado mal é por ter comido muito além da conta.

 

Quando coisas boas acontecem a si ou a pessoas próximas, ela tende a atribuir a responsabilidade disso ao acaso. Ela não interpreta uma nota boa numa prova como evidência de que é inteligente e competente, mas pensa que a prova estava muito fácil ou que deu sorte ao chutar as respostas. Ou seja, nos casos em que essa crença está ativada, Lúcia processa dados positivos tirando deles toda sua positividade (“fui bem na prova, mas é porque ela era uma prova fácil”) para que se encaixem em seu esquema cognitivo, confirmando sua crença de incompetência. Há ainda alguns dados positivos que passam desapercebidos ou que são rejeitados por Lúcia. Por exemplo, Lúcia não considera em sua avaliação o fato de conseguir gerenciar muito bem seu dinheiro e de nunca ter reprovado em nenhuma disciplina. Boa parte do trabalho do terapeuta cognitivo-comportamental é ajudar o paciente a processar os dados de forma mais realista, mostrando como ele pode estar dando uma interpretação muito enviesada para uma situação ao desconsiderar alguns aspectos e salientar outros.

 

CRENÇAS INTERMEDIÁRIAS

 

Vimos acima alguns exemplos de como crenças podem produzir pensamentos automáticos em algumas situações, agora precisamos elaborar melhor como funciona essa relação para mostrar como isso afeta o comportamento. Pensemos então em níveis de cognição, dentre os quais os mais centrais são os das crenças nucleares e os mais superficiais são os dos pensamentos automáticos. Entre ambos, há uma classe de crenças intermediárias, que se apresentam como atitudes, regras e pressupostos. Esse nível intermediário de cognição frequentemente não é articulado. Vejamos um exemplo disso tomando o caso da Lúcia. Ela parece expressar as crenças intermediárias esquematizadas a seguir:

 

Atitude: “É terrível falhar.”

Regra: “Sempre desistir se uma tarefa parecer muito difícil.”

Pressuposto: “Se eu me engajar em uma tarefa difícil, vou falhar. Se eu a evitar, ficará tudo bem.”

 

Lembremos de que sua crença nuclear de incompetência surgiu e se manteve, dentre outros fatores, por uma série de avaliações enviesadas. As emoções que acompanharam essa avaliação (tristeza, raiva, etc) podem ter dado origem a sua atitude de que é terrível falhar. Esse pano de fundo ajuda a explicar porque Lúcia tem aquela regra e aquele pressuposto. Suas relações sociais e suas experiências pessoais podem ter reforçado suas regras e pressupostos. Todo esse nível de cognição raramente é articulado para Lúcia, ou seja, ela não tem um bom nível de consciência dessas crenças. No entanto, esse esquema de crenças influencia sua forma de perceber o mundo, o que, por sua vez, influencia seus pensamentos automáticos, suas emoções e seu comportamento. Esquematizando:

 

Esquema adaptado de Beck (2013).

 

O leitor pode estar se perguntando sobre a origem dessas crenças. Vamos ouvir o que Judith Beck tem a dizer sobre isso:

 

“Desde os primeiros estágios do desenvolvimento, as pessoas tentam entender seu ambiente. Elas precisam organizar sua experiência de forma coerente para que possam funcionar adaptativamente […] Suas interações com o mundo e as outras pessoas […] conduzem a determinados entendimentos: suas crenças, as quais podem variar na sua acurácia e funcionalidade. Um aspecto muito significativo para o terapeuta cognitivo-comportamental é que as crenças disfuncionais podem ser desaprendidas, e novas crenças baseadas na realidade e mais funcionais podem ser desenvolvidas e fortalecidas durante o tratamento.” (Beck, 2013)

 

Todo o nível de cognição mais superficial depende das crenças nucleares e, por isso, a forma mais efetiva de ajudar o paciente a se sentir melhor e se comportar de uma forma que considere mais adequada é modificando-as. Assim, o paciente tenderá a interpretar as situações de modo mais realista. Entretanto, nem sempre é possível efetuar tais modificações logo no início do tratamento. De fato, há outros modelos de terapia cognitivo-comportamentais que tendem a focar bastante também nos aspectos emocionais ligados às crenças e efetuar mudanças através de outras técnicas. Isso vai depender, dentre outros fatores, de se as demais crenças que o paciente formou sobre si mesmo são adequadas e realistas. Caso não sejam, a tentativa de modificar as crenças nucleares no início do tratamento pode abalar a aliança terapêutica e diminuir a credibilidade do psicólogo, fatores essenciais para o sucesso da terapia cognitivo-comportamental.

 

A sequência comum do tratamento envolve focar primeiramente na identificação e modificação dos pensamentos automáticos que se originaram das crenças nucleares, intervindo indiretamente nesse nível mais central de cognição. Para isso, o paciente é ensinado identificar pensamentos automáticos e a avaliá-los com um certo distanciamento. O terapeuta começa a quebrar a confiança que o paciente tem em seus pensamentos ao lembrá-lo que não é só porque ele acredita em algo que isso seja necessariamente verdadeiro e que mudar o pensamento, tornando-o mais realista, faz com que se sinta melhor e progrida no seu tratamento. O foco desse texto não é ensinar habilidades cognitivas ao leitor, mas apenas dar um panorama do funcionamento da terapia cognitivo-comportamental. Por isso, como avaliar e responder aos pensamentos automáticos será assunto de outro texto.

 

O nível superficial de cognição é mais específico e situacional, enquanto que as crenças nucleares são mais globais. Desse modo, é mais fácil para o paciente reconhecer a distorção em seus pensamentos, pois eles se dão em situações específicas, do que em suas crenças centrais, que perpassam virtualmente todas as suas experiências. Ao longo do tratamento, o terapeuta ajuda o paciente a avaliar e responder aos seus pensamentos automáticos em diversas situações, proporcionando alívio do seu sofrimento. Essas experiências fazem com que o paciente fique mais aberto a questionar suas crenças intermediárias e nucleares. A modificação desse nível de cognição é mais efetiva a longo prazo e diminuí as chances de recaída.

 

Na próxima parte retomaremos os conceitos abordados aqui. Na parte 1 fizemos uma síntese do modelo cognitivo.

 

 

REFERÊNCIAS

 

Beck, J. S. (2013). Terapia cognitivo-comportamental. Artmed Editora.

 

Knapp, P. (2009). Terapia cognitivo-comportamental na prática psiquiátrica. Artmed Editora.

 

Knapp, P., & Beck, A. T. (2008). Fundamentos, modelos conceituais, aplicações e pesquisa da terapia cognitiva Cognitive therapy: foundations, conceptual models, applications and research. Rev Bras Psiquiatr, 30(Supl II), S54-64.

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