O que nos leva ao esquecimento?

O estudo do comportamento, por vezes, suscita alguns questionamentos simples, porém muito dignos do tempo que investimos para tentar responde-los. Apesar de parecerem questões óbvias ou ridículas à primeira vista, podem, após análise pormenorizada, se apresentar como um nó górdio às nossas reflexões.

 

Um exemplo de questionamento aparentemente básico que pode provocar discussões interessantes na investigação analítico-comportamental é aquele feito sobre o fenômeno do esquecimento.

 

EXTINÇÃO E ESQUECIMENTO

 

Os apressados costumam apontar o esquecimento como sinônimo de extinção. Esse equívoco pode ser rapidamente resolvido se traçarmos linhas distintivas entre os termos. Geralmente são raros os obstáculos para definir o que é a extinção; entretanto, o mesmo não se aplica ao conceito de esquecimento.

 

Vamos começar pela parte menos difícil. Extinção, elementarmente, é a queda acentuada da frequência com que ocorre um comportamento, e seu posterior escasseamento, porque os efeitos habituais que mantinham a sua ocorrência se tornaram inacessíveis.

 

Para entender melhor, imagine que um sujeito iniciava diariamente conversas no WhatsApp com uma jovem atraente. Todos os dias seu comportamento de iniciar conversas com ela produzia um efeito específico: as mensagens/respostas da jovem, vistas como pré-condição para um possível contato social-afetivo-sexual. A partir do momento em que a moça parou de lhe responder, o comportamento do sujeito continuou a ocorrer por um tempo, com variações de intensidade acompanhadas de reações emocionais descritas como raiva diante das visualizações sem respostas. A frequência das investidas via mensagens diminuíram com os dias até que escassearam. A ação de iniciar conversas com aquela jovem específica extinguiu-se. Isso é o que comumente chamamos de desistir. O que não é equivalente a dizer que ele se esqueceu dela.

 

É caricata qualquer afirmação no sentido de tornar o “desistir” um sinônimo de “esquecer”. Pessoas não se esquecem de suas paixões não correspondidas; ocorre que os comportamentos apaixonados (e as emoções que os acompanham), sem produzirem os efeitos esperados, perdem força e escasseiam. Sofrem extinção. Desistimos.

 

Diferentemente da extinção, esquecer tem a ver com aprender a obter um dado resultado em um primeiro momento, e em um segundo momento não ser mais capaz de fazê-lo em uma situação funcionalmente similar. Por quê?

 

Skinner, um dos nomes mais importantes de psicologia comportamental, nos sugere que a variável relevante para entendermos o esquecimento é a passagem do tempo. Confiram: “No esquecimento, o efeito do condicionamento é perdido simplesmente à medida que o tempo passa, enquanto que a extinção requer que a resposta seja emitida sem reforçamento” (Skinner, 1953, p. 71). Podemos interpretar aqui que Skinner entendia o esquecimento como produto do desuso de uma aprendizagem ao longo de um período. Quanto maior o tempo entre a aprendizagem e a contingência/teste, maior seria a chance de nos esquecermos.

 

 

Outro autor comportamentalista acreditava que conceber o esquecimento apenas como produto do desuso era um equívoco: “[…] o comportamento não desaparece simplesmente pelo desuso. A ideia de que o esquecimento é meramente um declínio passivo daquilo que foi anteriormente aprendido é totalmente incorreta […]” (Lundin, 1977, p 94). Para Robert Lundin, os mecanismos do esquecimento operam por princípios semelhantes aos do contracondicionamento. Como assim? Para ele, em situações bem particulares, a aprendizagem de uma resposta interfere na ocorrência de outra aprendida antes. Entre a aprendizagem e a contingência que irá testá-la existe um lapso de tempo, e seriam as várias aprendizagens e outras atividades dentro deste lapso que produziriam o esquecimento de algo aprendido antes: “Se num intervalo de tempo outras coisas são aprendidas e mantidas e entram em conflito com um teste da resposta original, resultará um processo que comumente chamamos de ‘esquecimento’” (LUNDIN, 1977, p. 96). Ou seja, ele propôs que o esquecimento não tinha a ver apenas com a passagem do tempo, mas também com uma espécie de “inibição retroativa”, na qual uma aprendizagem inibe ou prejudica outra anterior.

 

Entende-se aqui, que as ideias de Skinner e Lundin sobre o esquecimento são apenas aparentemente contrárias, e que na verdade eles abordaram instâncias diferentes, mas complementares, desta questão. A passagem do tempo e o desuso são relevantes, sim, para o enfraquecimento de condicionamentos, como coloca Skinner; e, obviamente, Skinner não sugeriu que essa passagem de tempo fosse um vácuo psicológico sem aprendizagens intermediárias. E, complementarmente, o fluxo de aprendizagens e atividades comportamentais é incessante, e isso poderá prejudicar, de várias formas, as aprendizagens anteriores, produzindo esquecimento, como alerta Lundin. 

 

 

Entretanto, Lundin talvez não tenha se atentado para a possibilidade de que esse mesmo fluxo de aprendizagens, em alguns arranjos de circunstâncias bem particulares, possa ter o efeito oposto: melhorar e consolidar aprendizagens anteriores. Vemos um caso disso quando aprendemos desempenhos com gradativa elevação da complexidade da exigência, e em dado momento somos submetidos a demandas anteriores (e, portanto, menos complexas), nosso desempenho é melhor. Por exemplo, quando estamos habituados a pilotar uma moto no fluxo intenso do centro da cidade, e nos vemos na ocasião de retornar ao bairro tranquilo onde pilotamos pela primeira vez, a nossa aprendizagem terá melhorado e se consolidado em um desempenho muito mais eficaz naquela situação mais simples, em vez de ter sido inibida retroativamente pelas aprendizagens intermediárias. Mas, em favor de Lundin, podemos interpretar que ele estava exclusivamente se referindo a aprendizagens intermediárias diferentes entre si e, logo, não relacionadas em sistema de gradação, pois ele enfatiza um conflito com as aprendizagens anteriores: “[..] entram em conflito com um teste da resposta original” (Lundin, 1977, p. 96).

 

Nesse ponto, já concebemos o esquecimento como um processo em que uma aprendizagem é enfraquecida pelo seu desuso durante um lapso de tempo no qual outras aprendizagens não relacionadas entre si ocorreram, interferindo no desempenho dessa aprendizagem original. De fato, é muito difícil lembrarmos a letra de uma nova música após passarmos uma semana aprendendo letras de outras músicas novas. Além do lapso de desuso da letra em questão, temos a aprendizagem das outras letras interferindo no desempenho.

 

 

Estas reflexões analítico-funcionais nos colocam diante de três (não necessariamente os únicos) elementos contingenciais importantes para explicar o esquecimento: 1) passagem do tempo; 2) desuso e; 3) aprendizagens e outras atividades intermediárias não relacionadas entre si e que entram em conflito com o teste da aprendizagem.

 

TESTE LEMBRANÇA/ESQUECIMENTO

 

Basta de especulações, vamos aos fatos. Lundin (1977) citou uma pesquisa realizada em 1924 por Jenkins e Dallenbach. Eles estudaram o esquecimento em dois universitários durante dois meses. Os autores solicitaram aos jovens que aprendessem listas de sílabas sem sentido, que eram apresentadas uma de cada vez. Consideravam que a lista estava aprendida quando os garotos podiam reproduzi-la na ordem correta. Algumas sequências de sílabas eram aprendidas pela manhã e outras à noite antes de dormir. Os testes de aprendizagem eram feitos 1, 2, 4 e 8 horas após o aprendizado. Fizeram testes após o sono e também enquanto estavam no meio de atividades diárias. Lundin (1977) não especificou todos os detalhes do resultado da pesquisa, mas destacou que Jenkins e Dallenbach descobriram que lembrar depois do sono era muito mais fácil do que depois de atividades em estado de vigília.

 

Aos moldes das colocações de Lundin, podemos conjecturar que as atividades durante o período do sono são menos intensas do que em estado de vigília. Os sonhos, e outras possíveis operações oníricas (atividades executadas durante e relativas ao sono, como sonhos, falas, movimentos etc) interfeririam pouco nas aprendizagens anteriores que, desse modo, seriam lembradas melhor. A neurociência tem algo muito interessante para dizer sobre esse ponto. O neuropedagogo Pierluigi Piazzi (2009), explica que durante o sono as sinapses relacionadas às aprendizagens ocorridas ao longo do dia se consolidam, o que contribui para que informações sejam lembradas com mais facilidade e por mais tempo.

 

Considerando o que foi apontado por Piazzi, é possível especular que as atividades oníricas protagonizam também um caso no qual aprendizagens intermediárias melhoram a efetivação de aprendizagens anteriores, em vez de prejudica-las.  Contudo, essa especulação não é suficiente para tranquilizar as dúvidas que o tema nos traz: o fluxo comportamental onírico é parte da efetivação da aprendizagem anterior, ou apenas ocorre paralelamente ao processo? Contribui para o processo ou é apenas um produto do mesmo? Essas perguntas estão fora do alcance do autor deste texto.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Certamente, existem mecanismos do esquecimento ainda desconhecidos. Esquecemos algumas coisas mais facilmente que outras; esquecemos, às vezes, apenas algumas propriedades de uma informação; cada informação parece ter seu próprio tempo necessário para que o esquecimento ocorra; e dificilmente esquecemos de coisas altamente importantes para nossas vidas. “Usualmente esquecimento não ocorre rapidamente; curvas de extinção consideráveis foram obtidas com pombos até 6 anos depois que resposta havia sido reforçada. Seis anos equivale a, aproximadamente, metade da expectativa de vida de um pombo” (SKINNER, 1953, p. 71).

O pombo em questão não sofreu extinção, apenas deixou de ser treinado durante seis anos, e mesmo assim ainda não havia se esquecido do que fazer na caixa de experimental: bicar um disco para obter alimento. Skinner usou a expressão “curva de extinção” em vez de “curva de esquecimento” possivelmente porque quis saber o quanto o pombo responderia sem receber reforçamento. A “curva” a qual ele se refere é um gráfico que registra cumulativamente o quanto o pombo bicou o disco. Possivelmente, bicar o disco foi algo muito importante para as vidas daqueles pombos.

 

Esquecer é parte natural do funcionamento operacional de um organismo. Há muito que se pesquisar, questionar e especular sobre o assunto. Como o leitor percebeu, perguntas aparentemente simples podem se revelar, após nos determos um tempo para a sua análise, como obstáculos desafiadores. 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

LUNDIN, Robert. Personalidade: uma análise do comportamento. 2ª ed. São Paulo: EPU, 1977.

 

PIAZZI, Pierluigi. Ensinando inteligência. 1ª ed. São Paulo: Aleph, 2009.

 

SKINNER, B. F. (1953). Science and human behavior. New York, NY: MacMillan.

Nascido, crescido e residente no estado de Rondônia. Formei-me em Psicologia no ano de 2013. Iniciei minha atuação profissional em 2014, na área da Ação Social de um pequeno município do interior chamado de Santa Luzia d’Oeste/RO e lá trabalhei até o começo de 2017. Em março de 2017 fui trabalhar na Educação de outro município da região, este chamado Alta Floresta d’Oeste/RO. Sou um sujeito motivado para estudar assuntos relacionados a comportamento, lógica, estratégia, oratória e alguns outros.

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