O que é e como funciona nossa voz interior: a ciência da fala subjetiva

 

Consegue escutar uma voz dentro da sua cabeça enquanto lê estas palavras? Digo, pode ouvir esta frase enquanto faz a sua leitura? É quase certo que a resposta seja positiva. De acordo com um estudo recente conduzido por Ruvanee Vilhauer, e publicado no Psychosis, é provável (embora não conclusivo devido à metodologia não convencional usada) que as pessoas, em sua grande maioria, escutem uma voz interior durante a leitura. O estudo se baseou nas descrições dos colaboradores sobre suas experiências internas ao lerem. Mas deixemos a leitura de lado por um instante e nos concentremos em questões mais básicas. Que tipo de voz é a que escutamos ao pensar? Como e de onde ela soa? Há mais de uma? É normal ouvir vozes? Que impacto nossa voz interior tem em nosso comportamento? Alguma luz será lançada sobre essas questões até o final desse texto.

 

O QUE É?

 

O linguista e psicólogo evolucionista Steven Pinker afirma haver uma tendência entre os pesquisadores, de considerar os aspectos cruciais da evolução da linguagem em nossa espécie como derivados de mudanças nos órgãos vocais e nos circuitos cerebrais que produzem e detectam os sons da fala. Ademais, é hoje sabido que circuitos do lobo frontal, temporal e parietal envolvidos na articulação do pensamento e no planejamento, conteúdo e expressão da fala e linguagem em geral, estão funcionalmente conectados de diversas maneiras, pelo que não deveríamos nos surpreender com a ideia de que o pensamento[i]  e a fala possam ser instâncias de uma mesma habilidade cognitiva mais geral. Essa ideia não é nova.  O psicólogo soviético Lev S. Vygotsky e o psicólogo norte-americano B.F Skinner já haviam proposto, cada um a sua maneira, que a fala privada funcionaria como uma variação encoberta ou subjetiva da fala física exterior normal[ii]. O organismo humano, no transcorrer de sua aprendizagem, passaria a ser cada vez mais capaz de internalizar[iii] a fala e demais competências conceituais aprendidas socialmente, usando-as depois para pensar privadamente[iv]. Vygotsky supunha que em determinado momento do desenvolvimento cognitivo, o pensamento puro e a linguagem, antes não tão coligados, se intercruzariam, dando origem ao pensamento verbal e simbólico. Assim, o pensamento, que antes era mais sensorial, torna-se também verbal, enquanto a fala, que antes era mais concreta, torna-se mais intelectual. 

 

COMO E ONDE

 

As considerações acima nos dão uma ideia de qual pode ser a natureza geral da fala privada ou voz interior. Passemos à questão sobre como essa voz soa e de onde vem. De acordo com o Ph.D. em psicologia Russell Hurlburt, especialista em experiência interna, na maior parte das vezes nossa voz interior soa a nós como nossa própria voz exterior, e assim como esta, pode apresentar variações de tom, volume e emoção. Em contrapartida, sua localização (onde as pessoas relatam ouvi-la) não é exatamente a mesma para cada um de nós. Algumas pessoas dizem ouvi-la em algum local específico dentro de suas cabeças, outras relatam ouvir de dentro da cabeça, mas sem local exato (talvez de forma dissipada), enquanto outras a escutam ecoar como se viesse do peito.

 

EU OUÇO VOZES…

 

Mas haverá mesmo somente uma voz? Apesar de a voz interior predominante ser mais ou menos como a nossa voz externa, ela pode dar lugar a outras vozes, por exemplo, quando lemos. Voltando ao estudo de Vilhauer, sobre a voz interior (ou vozes) que usamos para ler, pelo menos 82,5% dos participantes relataram ouvir uma voz interna ao lerem em silêncio, e desses, cerca de metade afirmou ouvir a mesma voz, enquanto a outra metade garantiu ser capaz de ouvir diferentes vozes, por exemplo; quando leem histórias com várias personagens (nesse caso, a voz interior muda conforme muda a personagem) ou quando leem mensagens de texto reproduzindo internamente as vozes dos seus remetentes.

 

 

Praticamente todos os participantes que disseram usar uma voz interior, ou vozes, para ler, eram capazes de descrevê-la(s) com alguma riqueza de detalhes, incluindo volume, tom e sotaque. Alguns relataram controlar essa habilidade, a ponto de escolherem a voz interior para ler. Para os participantes que relataram escutar somente uma voz interior, esta tendia a ser a sua própria voz (ou pelo menos a mesma voz que usam para pensar), havendo algumas variações no tom e na emoção, o que corrobora a pesquisa de Hurlburt.

 

Dos participantes restantes, 10,6% disseram não ter ouvido vozes interiores durante a leitura, enquanto os demais não foram claros a respeito. Dos que disseram ouvir, 13% afirmaram que a frequência com que ouvem tende a aumentar por causa de variados fatores, entre eles, seu interesse na mensagem do texto, o que novamente se alinha à pesquisa de Hurlburt, que descobriu que a frequência com que experimentamos nossa voz interior pode variar bastante, havendo momentos em que não a escutamos, o que talvez explique por que os 10,6% da pesquisa de Vilhauer disseram não ouvir vozes interiores ao lerem, pois é possível que não estivessem numa situação propícia. Voltando a Hurlburt, no seu experimento 30 participantes previamente treinados foram orientados a esperar pelo som de um beep, que tocaria dez vezes durante o dia ao longo de três dias. Assim que o ouvissem, deveriam relatar em termos precisos a atividade mental que estavam experimentando imediatamente antes. Alguns participantes não relataram a presença de fala interior, enquanto outros relataram fala interior em cerca de 75% dos beeps. Em média, a fala interior era relatada em cerca de 23% dos beeps.

 

Por sua vez, a psicóloga Malgorzata Puchalska-Wasyl acredita que diferentes tipos de vozes interiores disputam nossa cabeça, ou nossa atenção, com mais frequência do que o estipulado por Hurlburt. Se bem que, como veremos, a constelação de vozes postulada por Puchalska-Wasyl parece consistente com a pesquisa de Hurlburt num sentido importante: pode ser o caso de essas vozes serem uma variação tonal e emocional de uma mesma, como prevê Hurlburt, assim como ocorre normalmente com nossa voz externa conforme o contexto, motivação ou estado emocional se modificam.

 

De qualquer modo, o objetivo de Puchalska-Wasyl é descobrir se há tipologias vocais internas universais, e com essa finalidade convidou voluntários a pensarem nas vozes interiores que usam com maior frequência e então marcarem, numa intensidade de 1 a 4, o quanto essas vozes estavam associadas a categorias emocionais como alegria, raiva, vergonha, paz interior, entre outras. Os dados obtidos até então permitiram que a pesquisadora propusesse uma taxonomia preliminar para algumas tipologias detectadas. Com um experimento de duas etapas, a primeira com 98 participantes com idade média de 23 anos, e a segunda com 114 participantes com a mesma faixa etária, Puchalska-Wasyl descobriu não apenas que a função das vozes interiores dos participantes oscila entre integrativas (de busca de soluções) e conflituosas, mas que essas vozes também possuem alguma “personalidade” própria, associada a algum estado afetivo, como a voz do “amigo leal”, a da “criança indefesa”, a do “otimista tranquilo” ou a do “rival orgulhoso” (segundo a criativa terminologia provisória de Puchalska-Wasyl). Essas vozes ainda cumpririam funções específicas em diferentes contextos.

 

UM CONFRONTO ENTRE VOZES

 

A esta altura alguns leitores devem estar se perguntando se isso de ouvir vozes conflituosas não seria um tanto quanto “excêntrico”. Para jogar mais lenha na fogueira, talvez seja interessante mencionar que Hurlburt também registrou casos de conflitos entre a fala interior e a exterior em pessoas que relataram ouvir sua voz interior enquanto falavam em voz alta, com as duas vozes dizendo coisas diferentes! Isso sem falar sobre relatos de fala interior sem significado, e ainda episódios de fala interior em taxas muito mais aceleradas do que seria fisicamente possível pronunciar com a fala exterior normal. Tudo isso registrado por esse pesquisador.

 

Mas se de um lado a invasão incontrolável de vozes privadas é um forte indício de patologia grave, a fala privada em si, como normalmente acontece, é sem dúvida uma dimensão saudável de nossa vida mental. Mesmo o conflito entre vozes internas é importante à nossa economia psicológica, incluindo aqueles momentos em que dizemos a nós mesmos que queremos assistir a um filme, e logo aparece outra voz contraditória nos alertando que devemos terminar de ler aquele capítulo de livro antes. Nossas vozes internas dialogam, debatem e discutem, por vezes nos explicam aquela matéria da prova. Podem inclusive nos dar broncas, por exemplo; quanto nos admoestam, em tom ranzinza, para que não quebremos nossa dieta devorando aquela irresistível barra de chocolate.

 

AFINAL, A FALA INTERNA PODE AFETAR NOSSO COMPORTAMENTO? 

 

Nesse ponto, uma questão interessante se impõe: as vozes interiores realmente têm influência sobre nossos impulsos e comportamentos, ou não passam de narrativas privadas acerca da paisagem interna? Para Alexa Tullett e Michael Inzlicht essas vozes realmente nos possibilitam autocontrole. A metodologia de seu experimento é engenhosa, exigindo algum detalhamento em sua descrição, de modo que deixaria esse texto demasiado esticado. De forma resumida, o experimento mostrou que os seus 37 participantes tiveram seu desempenho prejudicado em tarefas que exigiram decisões rápidas (apertar um botão ao invés de outro, segundo instruções prévias) ao mesmo tempo em que repetiam mentalmente a palavra “computer”, o que mantinha sua voz interior ocupada, impedindo que fosse usada para auxiliar o autocontrole.

 

O experimento foi programado para que os participantes se sentissem compelidos a pressionar mais um botão do que o outro, e quando suas vozes interiores estavam liberadas para ajudar na tomada de decisão, cometiam menos erros, já que podiam ser usadas para frear o impulso que os levava a pressionar o botão errado.

 

“Acredite em sua voz interior.”

 

Tullett e Inzlicht estão convencidos de que seu estudo fornece evidências de que nossa voz interior pode nos persuadir a persistir na ginástica ou dieta, a nos acalmar (como quando contamos até dez), a ajudar em nossos relacionamentos e a controlar uma série de impulsos que possam atrapalhar nosso desempenho em diversas áreas. Já Vilhauer acredita que sua pesquisa sobre o uso da voz interior na leitura fornece algum apoio às teorias psicológicas que concebem alucinações auditivas como vozes internas incorretamente identificadas como não pertencendo ao eu. Finalmente, Puchalska-Wasyl espera que sua taxonomia de vozes interiores ocasione expressivos impactos nas psicoterapias, o que não é difícil vislumbrar já que o diálogo interno de vozes contraditórias, bem como a tipificação das vozes mais influentes, pode inovar vários processos terapêuticos baseados na fala.

 

A verdade é que os psicólogos estão cada vez mais interessados no fenômeno da fala privada, em como funcionam nossos monólogos mentais (ou diálogos, triálogos…). O que mais pode revelar esse fascinante campo de pesquisa sobre a voz interior e que outros impactos pode gerar na psicologia aplicada? É aguardar para ver.


[i] Aqui me detenho às formas verbais e conceituais de pensamento.

[ii] As primeiras escolas behavioristas propuseram que o pensamento fosse na verdade um processo sutil de fala subvocal. De modo nenhum isso está sendo proposto aqui.

[iii] Skinner procurou evitar terminologias mentalistas em sua explicação do comportamento verbal encoberto.

[iv] Não quero sugerir que a linguagem seja uma faculdade completamente aprendida nem que o pensamento seja puramente linguístico. Mesmo Vygotsky não via a linguagem como criadora, mas como mediadora do pensamento, no que concorda com Pinker. 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Hurlburt, R.T; Heavey C.L.; Kelsey J.M. (2013). Toward a phenomenology of inner speaking. Consciousness and cognition, 22 (4), 1477-94.

 

Lent, R. (2001). Cem bilhões de neurônios: conceitos fundamentais da neurociência.
São Paulo: Atheneu.

 

Pinker, S. (2002). O Instinto da Linguagem: como a mente cria a linguagem. São Paulo: Martins Fontes.

 

Puchalska-Wasyl, M. (2014). Self-Talk: Conversation With Oneself? On the Types of Internal Interlocutors The Journal of Psychology, 149 (5), 443-460

 

Skinner, B. F. (1978). Comportamento Verbal. Tradução organizada por M. P. Villalobos. São Paulo: Cultrix, (Original publicado em 1957).

 

Tullett A.M; Inzlicht, M. (2010). The voice of self-control: Blocking the inner voice increases impulsive responding. Acta psychologica, 135 (2), 252-6

 

Vihauer, R. (2016). Inner reading voices: An overlooked form of inner speech. Psychosis, 8 (1), 37-47.

 

Vygotsky, L. S. (1989). Pensamento e linguagem. São Paulo: Martins Fontes.

Um comentário em “O que é e como funciona nossa voz interior: a ciência da fala subjetiva

  1. Uma das dicas que já li para se conseguir fazer leitura dinâmica, rápida, é a de evitar a dependencia desta voz interna durante a leitura, pois esta estaria limitada pela nossa capacidade de pronunciar um número bem limitado de palavras por segundo. É algo que nunca consegui fazer.
    Não sei se é bem isso, de fato, mas me parece interessante trazer isso para a discussão.

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