O problema da consciência: Parte I

COM O QUE ESTAMOS LIDANDO?

 

Em tempos recentes tenho pensado sobre um dos tópicos mais enigmáticos do debate intelectual contemporâneo. Este é o chamado problema difícil da consciência, que é de fato tão importante quanto enigmático. O problema é o seguinte: por que e como certos eventos cerebrais são dotados de consciência — este concerto vívido de imagens, sons, cheiros, sentimentos, insights, impressões, e imaginações que constituem a mobília da nossa experiência.

 

É o objetivo desta série de ensaios explicar o problema da consciência de modo simples e não-técnico, sem delongar sobre aquelas dimensões tão duvidosas ou difíceis do problema que seu tratamento excede minhas capacidades de síntese e didática. Não só isso, como estou pessoalmente explorando o tema. Comecemos pensando sobre o que acontece em nossos cérebros enquanto lemos este texto.

 

 

Fótons atingem nossa retina, gerando uma corrente elétrica, que é enviada para dentro do nosso crânio. O sinal elétrico passa por uma série de estágios de processamento, indo pelo nervo ótico até regiões de processamento visual primário, subindo as escadas até centros de processamento mais avançado, e aí… algo acontece, e nós temos a sensação de ver a tela de um computador!

 

Saberia alguém dizer o que acontece neste último passo? Centenas de pessoas nos mais diversos ramos, passando pela ciência da computação, a física, a filosofia, a psicologia, a neurociência, e a biologia evolutiva tentaram desvelar os mistérios deste último passo, mas sem sucesso reconhecido. A questão ainda está em aberto, e há uma sensação geral que talvez nenhuma das hipóteses em jogo poderiam dar conta de explicar o que acontece.

 

Um filósofo da mente e cientista cognitivo chamado David Chalmers nota como progredimos em nosso entendimento do cérebro e do comportamento — de coisas como a linguagem, a percepção visual, a coordenação motora, o raciocínio matemático, e a atração amorosa —, mas não em nossa compreensão da consciência:

 

O problema fácil é entender como o cérebro (e o corpo) geram a percepção, a cognição, o aprendizado, e o comportamento. O problema difícil é entender porque essas coisas deveriam ser associadas com a consciência: porque não somos apenas robôs… sem qualquer universo interno.”

 

DUAS TENSÕES EMARANHADAS

 

Devo dizer de abertura que existem duas tensões principais que serão pivô desta série de textos. A primeira é a seguinte: costumeiramente em alguns meios, como veremos na parte seguinte, se concebe o cérebro humano como sendo inteiramente físico, e a consciência como sendo um aspecto deste cérebro humano — o que significa que a consciência é entendida como física.

 

Entretanto, há uma aparente incompatibilidade entre nosso conceito de coisa física e nosso conceito de consciência, o que dificulta tentativas materialistas de fazer sentido da ideia que nossa consciência nada mais é do que processos no cérebro físico. Conforme veremos ao longo da série, esta resistente incompatibilidade conceitual leva muita gente a negar que a consciência pode ser física.

 

(Nota terminológica: termos como «materialismo, coisa material», «fisicismo, coisa física», e «naturalismo, coisa natural» são polissêmicos. Os três podem ser entendidos da mesma maneira, como podem ser vistos como distintos. Não nos emaranharemos nestas distinções verbais aqui.)

 

De fato, parece ser muito difícil resolver esta primeira tensão; os motivos são sutis e requerem uma exposição mais demorada, e isto será feito nos ensaios subsequentes. O fato é que encaixar a consciência em nosso entendimento científico de mundo é uma tarefa que há séculos preocupa pessoas do mais alto calibre, e esse encaixe resiste a ser feito. Teremos nós que abandonar o materialismo para fazer jus a este fenômeno incrível que é a consciência? O que este abandono acarretaria, e o que poderia substituí-lo? Ou haveria algum tipo de revolução conceitual ou empírica poderia salvá-lo?

 

A outra tensão é que parece que podemos explicar o funcionamento do cérebro inteiramente em termos de neurônios, células glia, bainhas de mielina, impulsos elétricos, disponibilidade de glicose, distribuição de íons, etc., sem nunca invocar eventos da consciência, como cheiros e dores. Se não houver nada mais no funcionamento de uma pessoa do que as operações do cérebro e suas relações com o corpo e o mundo externo, então parece ser possível contar uma história completa do comportamento de uma pessoa sem falar em sua consciência.

 

Não se diria que ela come porque sente a sensação de fome, mas porque houve um certo padrão de ativação neural e um desbalanço químico nas vísceras do corpo. Nem se diria que ela chora, pois sente uma tristeza, mas sim porque houve um certo mecanismo complicado no cérebro. Se for este o caso, talvez seja possível concluir que a consciência não serve papel algum no funcionamento do corpo, sendo mais um artigo supérfluo e inerte da realidade do que um componente importante da biologia humana — a consciência está mais para a fumaça de uma churrasqueira do que para o carvão.

 

Que fazer destas tensões? Por um lado, se o materialismo for verdadeiro, a segunda tensão está resolvida: a ativação neural é a consciência. Explicar o funcionamento do corpo falando sobre estruturas neurológicas e suas dinâmicas elétroquímicas é a mesma que falar sobre consciência. Daqui, no entanto, incorremos na primeira tensão: como fazer sentido da consciência como uma coisa física como a nossa neurobiologia?

 

Por outro lado, se o materialismo for falso e as sensações forem algo além do cérebro material, ressuscita a segunda tensão. Se nada no comportamento escapa aos mecanismos físicos do cérebro, torna-se perfeitamente misterioso qual o papel da consciência em nossas vidas. Aparentemente não haveria nada no nosso comportamento diário que seria causado pelo fato de que nós temos uma “vida interna”, uma consciência rica em imagens e emoções. Não grito por sentir dor, nem procuro relações sexuais pelo prazer. Fora essa estranheza, há uma série de outras coisas misteriosas que surgem da falsidade do materialismo.

 

Sair desta rua aparentemente sem saída e fazer sentido do que está acontecendo dentro de nossos crânios é o objetivo central desta série de textos, e em nosso percurso avistaremos resultados notáveis das ciências biológicas e psicológicas. Possivelmente, nos resumiremos a um reconhecimento amplo do terreno conceitual e científico, pois sair do labirinto pode provar uma tarefa difícil demais para mim.

 

Nossa viagem começa na parte dois, em que exploramos a segunda tensão com uma caracterização dos padrões “reducionistas” de explicação no materialismo — e o quão fantasticamente bem isso funcionou na ciência…

Graduando em Filosofia pela UNICAMP e altamente interessado nas ciências da natureza e da mente, este fulano também escreve para o portal de divulgação científica e filosófica Universo Racionalista, tem um blog de filosofia, e gosta de papear pelo Facebook no pouco tempo livre que se permite. 🙂

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