O pensamento e seus vícios

 

A proverbial afirmação de que o homem é um animal racional não pode ser levada tanto a sério. Indo direto ao ponto, nossa característica mais peculiar não é, ora vejam, a racionalidade, mas a crendice! Somos demasiado indulgentes com preconceitos, sobretudo quando são nossos preconceitos, sendo ligeiros em privilegiar dados que porventura os apoiam enquanto ignoramos com o mesmo entusiasmo dados que os põem em xeque.

 

Claro que somos capazes de pensamento analítico, mas especialmente quando se trata de escrutinar os defeitos no pensamento dos outros. Quem dera fossemos tão críticos com nossas opiniões quanto somos com as dos outros.

 

Com efeito, praticamos um extraordinário conformismo cognitivo com nós mesmos. Raciocínio motivado é como os psicólogos chamam essa nossa característica, que por sinal é profundamente enraizada em nossa mente hominídea, estando na base de antigas discórdias e superstições que já deveriam ter sido dissuadidas por conhecimentos que estão há muito tempo disponíveis e bem consolidados.

 

Uma motivação primária do raciocínio motivado, além daquela de privilegiar nossos pontos de vista em detrimento de outros, é reduzir a tensão psicológica que experimentamos ao tentar conciliar crenças e comportamentos mutuamente incompatíveis.

 

Esse estado de inconsistência interna na rede de crenças é chamado pelos psicólogos de dissonância cognitiva. Quando o desconforto provocado pela dissonância atinge um ponto crítico, há uma motivação para que o indivíduo tente restaurar a consistência cognitiva modificando um dos elementos incompatíveis (uma crença ou comportamento). Todavia, a ação do raciocínio motivado pode sabotar esse processo, visto ser capaz de fazer com que a pessoa negue até princípios elementares do pensamento lógico, levando-a a negar provas, distorcer interpretações a seu favor, cegar sua percepção para certas informações e até criar falsas memórias. Daí que alguns psicólogos também chamam o raciocínio motivado de racionalização, enquanto outros não o distinguem do chamado viés de confirmação. A racionalização não elimina a inconsistência interna mas reduz o desconforto. No limite esse processo pode levar o indivíduo a perder o contato com a realidade (psicose), mas em termos gerais é uma característica do modo humano normal de proceder.  Enfim… O ser humano é isso ai mesmo.

 

UM POUCO SOBRE VIESES COGNITIVOS

 

Além do viés de confirmação, os psicólogos catalogaram até agora mais de 100 tipos de vieses cognitivos — algumas listas chegando a conter mais de 180! — capazes de produzir falhas sistemáticas de pensamento, afetando diferentes faculdades cognitivas como julgamento, atenção, memória e tomada de decisão.

 

Um dos mais interessantes é o efeito backfire (efeito rebote), bem parecido com o viés de confirmação. Seu efeito consiste em amplificar o apego a uma crença em resposta a refutações sólidas contra ela. Uma apresentação mais detalhada desse viés pode ser lida aqui.

 

O viés de falso consenso produz uma sensação ilusória de que todo mundo a nossa volta compartilha conosco nossos próprios valores e crenças, o que pode nos deixar boquiabertos ao descobrirmos, vejam só, que alguém discorda de nós! Esse viés é uma das principais fontes do provincialismo mental.

 

 

O viés do ponto cego nos leva a reconhecer os impactos negativos que preconceitos podem causar no julgamento de outrem, mas não no nosso. Uma doce ilusão! Por sua, a ilusão de compreensão profunda chega a ser um viés jocoso.  Consiste em pensarmos possuir o conhecimento aprofundado que outras pessoas têm sobre uma determinada matéria, mesmo sabendo muito pouco ou nada sobre aquilo, bastando que acreditemos ter acesso fácil às mesmas fontes desse conhecimento que essas pessoas tiveram.

 

O viés endogrupal leva ao favoritismo, nos tornando altamente propensos a superestimar as qualidades de nosso grupo, privilegiando-o em detrimento de membros de grupos externos. É um viés tribal por excelência. Também é conhecido como preconceito nós vs. eles, e está associado a diversas formas de discriminação, como racismo e xenofobia.

 

Já o viés de status-quo nos mantém presos ao passado e à tradição. Diz respeito a nosso receio a mudanças e se expressa no pensamento de que é melhor deixar as coisas como estão do que experimentar novas saídas aos problemas que enfrentamos.

 

O viés de auto-serviço (self-serving bias) e o efeito Dunning-Kruger são bastante recorrentes no contexto universitário e nas redes sociais, mas deixo ao leitor mais curioso pesquisar algo sobre eles. 

 

Enfim, a lista é enorme. Um passeio pelo cenário do debate político nos fornece exemplos abundantes dos vieses apresentados aqui, cuja maioria pertence à categoria social. Há ainda as categorias de vieses de memória, tomada de decisão e raciocínio probabilístico. Algumas táticas para reduzir o efeito dessas armadilhas do pensamento são apresentadas aqui.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

O linguista e psicólogo cognitivo Steven Pinker faz um lembrete que não pode ser obliterado pela atual, e diria até bem-vinda, rejeição à psicanálise: embora a psicanálise ortodoxa esteja caindo em desuso, Freud estava essencialmente correto sobre a existência de mecanismos de defesa do ego. Qualquer terapeuta contemporâneo irá dizer, Pinker afirma, que as pessoas frequentemente racionalizam os motivos reais de sua conduta, projetam suas falhas nos outros, negam ou reprimem verdades desconfortáveis, protestam além da conta, procrastinam em demasia, convertem suas aflições em problemas intelectuais abstratos e por ai vai.  Não é necessário admitir que a função de tais mecanismos seja proteger o ego de traumas e desejos sexuais bizarros, como queria Freud. São na verdade estratégias de autoengano, cujo propósito é abolir as inconvenientes evidências de que não somos tão bons e competentes como gostaríamos. Pinker termina o raciocínio citando Michael Gold — personagem de Jeff Goldblum em The Big Chill — que ao ser contrariado pelos amigos por ter dito que era a racionalização e não o sexo o mais básico, retrucou: “Alguém aqui já conseguiu passar uma semana sem uma racionalização?”.

 

 

REFEREÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Ehrlinger, J.; Readinger, W. O. Decision-Making and Cognitive Biase. (2016). ResearchGate – Share and discover research. Retrieved from: https://goo.gl/OgfnHJ

 

Escobar, M.V.M. (2017). Cooperação e racionalidade distribuída. Revista SimplesMente. Disponível em: https://goo.gl/agxIHR

 

Escobar, M.V.M. (2017). Um duelo entre crenças e fatos: o efeito backfire. Revista SimplesMente Disponível em:  https://goo.gl/KWLkma

 

Hilbert, M. (2012). Toward a Synthesis of Cognitive Biases: How Noisy Information Processing Can Bias Human Decision Making. Psychological Bulletin, Vol 138(2), 211-237.

 

List of cognitive biases. Retrieved from: https://goo.gl/EZKB0J

 

Pizarro, D. (2017). Raciocínio Motivado. Tradução: Luan Marques Oliveira. Revista SimplesMente. Disponível em: http://revistasimplesmente.com.br/raciocinio-motivado/

 

McLeod, L. (2008/Updated 2014). Cognitive Dissonance. SimplePsychology. Retrieved from: https://goo.gl/EZKB0J

 

Pinker, S. (2002). The Blank Slate. New York, NY: Viking.
 

Pucci, J. C. (2017), O efeito das memórias e informações falsas. Revista SimplesMente. Disponível em: https://goo.gl/ySO8Eu

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