O mais forte preconceito foi identificado

 

Se você estivesse num comitê de seleção com a tarefa de escolher alguém para contratar (ou admitir na sua universidade, ou para receber um prêmio em seu campo), e se resumisse a dois candidatos que fossem igualmente qualificados em medidas objetivas, qual candidato seria mais provável que você escolhesse?

 

A) O que partilhasse da sua raça;
B) O que partilhasse do seu gênero;
C) O que partilhasse da sua religião;
D) O que partilhasse do seu partido ou ideologia política.

 

A resposta correta, para a maioria dos americanos, agora é D. Certamente são boas novas que o preconceito baseado em raça, gênero e religião esteja bem em baixa em décadas recentes. Mas são muito más notícias — para a América, para o mundo e para a ciência — que a hostilidade transpartidária esteja bem em alta.

 

Minha nomeação para “notícias que continuarão sendo notícia” é um artigo dos cientistas políticos Shanto Iyengar e Sean Westwood, intitulado “Fear and Loathing Across Party Lines: New Evidence on Group Polarization” [Medo e Repulsa Através de Linhas Partidárias: Novas Evidências sobre Polarização de Grupos]. Iyengar e Westwood reportam quatro estudos (todos usando amostras nacionalmente representativas) em que deram aos americanos várias maneiras de revelar preconceito tanto transpartidário como transracial, e em todos os casos o preconceito transpartidário foi maior.

 

Primeiro, eles usaram uma medida de atitudes implícitas (o Teste da Associação Implícita), que mede quão rápida e facilmente as pessoas conseguem emparelhar palavras que são emocionalmente boas vs. ruins com palavras e imagens associados com negros vs. brancos. Também realizaram uma nova versão do teste que permutava palavras e imagens relacionadas com republicanos vs. democratas no lugar de brancos vs. negros. Os tamanhos do efeito para atitudes implícitas transpartidárias foram muito maiores do que as transraciais. Se focamos em participantes brancos que se identificam com um partido, o efeito transpartidário era cerca de 50 por cento maior do que o efeito transracial. Quando os americanos olham uns para os outros ou tentam escutar uns aos outros, suas associações automáticas são mais negativas com relação às pessoas do “outro lado” do que são com relação às pessoas de uma raça diferente.

 

Em outro estudo, solicitaram aos participantes que lessem pares de currículos fabricados de estudantes do último ano do ensino médio e selecionassem um para receber uma bolsa de estudos. A raça fez uma diferença — participantes negros e brancos geralmente preferiam conceder a bolsa ao estudante com o nome estereotipicamente negro. Mas o partido fez uma diferença ainda maior, e sempre de uma maneira tribal: em 80 por cento das vezes, os partidários selecionaram os candidatos cujo currículo mostrasse que estavam do seu lado, e fazia pouca diferença se o copartidário tinha uma média de notas mais alta ou mais baixa do que o candidato transpatidário.

 

Em dois estudos adicionais Iyengar e Westwood solicitaram aos participantes que jogassem jogos de economia comportamental (o “jogo da confiança” e o “jogo do ditador”). Cada pessoa jogava com o que eles pensavam ser uma outra pessoa particular, sobre a qual eles leram um breve perfil que incluía a idade, o gênero, a raça e a ideologia política da pessoa. A raça e a ideologia foram manipuladas sistematicamente. A raça não fez diferença nenhuma, mas a partidariedade importou muito: as pessoas tinham mais confiança e generosidade quando pensavam que estavam jogando com um copartidário do que com um transpatidário.

 

Estas são notícias extremamente ruins para a América pois é muito difícil ter uma democracia eficaz sem acordos. Mas a hostilidade transpartidária crescente significa que os americanos veem o outro lado não só como errado, mas como malvado, como uma ameaça à própria existência da nação, de acordo com a Pew Research. Os americanos podem esperar crescente polarização, grosseria, paralisia e disfunção governamental por um longo tempo por vir.

 

Este é um aviso para o resto do mundo pois algumas da tendências que levaram a América a este ponto estão ocorrendo em muitos outros países, incluindo: crescente educação e individualismo (que tornam as pessoas mais ideológicas), crescente imigração e diversidade étnica (que reduz a confiança e o capital social) e crescimento econômico estagnante (que põe as pessoas numa mentalidade de soma-zero).

 

Estas são notícias extremamente ruins para a ciência e as universidades pois as universidades são usualmente associadas com a esquerda. Nos Estados Unidos, as universidades têm se movido rapidamente para a esquerda desde os anos 1990, quando a razão esquerda-direita de professores passando por todos os departamentos era menor que de dois para um. À altura de 2004, a razão esquerda-direita era, grosso modo, de cinco para um, e ainda está escalando. Nas ciências sociais e nas humanidades é muito mais alta. Porque esta purificação política está ocorrendo numa época de crescente hostilidade transpartidária, podemos esperar crescente hostilidade de legisladores republicanos com relação às universidades e as coisas que elas desejam, incluindo financiamento para pesquisa e liberdade do controle federal e estadual.

 

Os conflitos tribais e a política tribal vieram para o centro do palco em 2015. Iyengar e Westwood nos ajudam a compreender que conflitos tribais devem tornar-se um foco de preocupação e pesquisa. Nos Estados Unidos, podem até ser um problema mais urgente do que o preconceito transracial.

 

 

Jonatahn Haidt é psicólogo social; professor na New York University Stern School of Business; e autor de The Righteous Mind: why good people are divided by politics and religion [Tradução livre: A Mente Moralista: porque boas pessoas são divididas pela política e a religião].

Tradução: Luan Rafael Marques.

Link para o original.

Este estudante de filosofia está extremamente interessado e esperançoso pelas crescentes ciências da mente. Ele acredita que podemos chegar ao consenso pelo diálogo racional e superar nossos vários tribalismos. Ele também acredita que um grande passo nessa direção é esclarecer sobre os fatos da nossa natureza e vieses, seguir o oráculo e conhecermo-nos a nós mesmos. A Rainha de Copas disse a Alice que conseguia acreditar em seis coisas impossíveis antes do café-da-manhã. Ele está quase lá.

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