O erro fundamental de atribuição

 

Aristóteles pensava que uma pedra afunda quando jogada dentro d’água porque tem a propriedade da gravidade. É claro que nem tudo afunda quando jogado dentro d´água. Um pedaço de madeira boia, porque tem a propriedade da leveza. As pessoas que se comportam moralmente se comportam assim porque têm a propriedade da virtude; gente que não se comporta moralmente carece dessa propriedade.

 

Molière zomba deste modo de pensar colocando uma equipe de médicos em O Doente Imaginário para explicar por que o ópio induz o sono, a saber, por causa do seu poder dormitivo.

 

Seja ou não zombaria, a maioria de nós pensamos no comportamento de objetos e pessoas na maior parte do tempo em termos puramente disposicionais. São propriedades possuídas pelos objetos ou pessoa que explicam o seu comportamento. A física moderna substituiu o pensamento disposicional de Aristóteles pela descrição de todo movimento como se devendo às propriedades de um objeto interagindo de modos particulares com o campo em que está localizado.

 

A psicologia científica moderna insiste em que a explicação do comportamento dos humanos sempre requer fazer referência à situação em que a pessoa se encontra. Não o fazer de modo suficiente é conhecido como o Erro Fundamental de Atribuição. No famoso experimento de obediência de Milgram, dois terços dos seus sujeitos se provaram dispostos a dar bastante choque num homem de meia idade e aparência agradável, bem além do ponto em que ele ficava em silêncio após lhes implorar para parar por conta da sua condição cardíaca. Quando ensino sobre este experimento a graduandos, tenho bastante certeza de que nunca convenci um só deles que o seu melhor amigo poderia ter dado aquela quantidade de choque no gentil cavalheiro, muito menos que eles próprios poderiam. Eles estão protegidos pela sua armadura de virtude de um comportamento iníquo desses. Nenhum tanto de explicação acerca do poder da situação singular em que os sujeitos de Milgram foram colocados é suficiente para convencê-los de que a sua armadura poderia ser violada.

 

Meus alunos, e todo o mundo na sociedade ocidental, estão confiantes que as pessoas se comportam honestamente por que têm a virtude da honestidade, conscienciosamente porque têm a virtude da conscienciosidade. (Em geral, não-ocidentais são menos sujeitos ao erro fundamental de atribuição, carecendo como carecem de conhecimento suficiente de Aristóteles!) Acredita-se que as pessoas se comportam de um modo aberto e simpático porque têm a característica da extroversão, de um modo agressivo porque têm a característica da hostilidade. Quando observam uma só instância de comportamento honesto ou extrovertido ficam confiantes de que, numa situação diferente, a pessoa teria se comportado de um modo semelhantemente honesto ou extrovertido.

 

Na realidade, quando grandes números de pessoas são observadas numa ampla gama de situações, a correlação para comportamento relacionado a característica chega a cerca de 0,20 ou menos. As pessoas pensam que a correlação chega a 0,80. Na realidade, ver Carlos se comportar mais honestamente do que Bill numa dada situação aumenta a probabilidade de que ele se comportará mais honestamente em outra situação do nível de probabilidade de 50 por cento para a vizinhança de 55-57. As pessoas acham que se Carlos se comporta mais honestamente do que Bill em uma situação a probabilidade de ele se comportar mais honestamente do que Bill em outra é de 80 por cento!

 

Como poderíamos estar tão desesperadamente mal calibrados assim? Há muitas razões, mas uma das mais importantes é que normalmente não recebemos informação relacionada a características de uma forma que facilite comparação e cálculo. Observamos Carlos numa situação quando ele poderia exibir honestidade ou a falta dela, e então não em outra por talvez umas semanas ou meses. Observo Bill numa situação diferente elegendo a honestidade e então não em outra por muitos meses.

 

Isto implica que, se as pessoas recebessem dados comportamentais de tal forma que muitas pessoas sejam observadas pelo mesmo curso de tempo numa dada situação fixa, nossa calibração poderia ser melhor. E de fato é. As pessoas estão muito bem calibradas para habilidades de vários tipos, especialmente esportes. A probabilidade de que Bill marque mais pontos do que Carlos num jogo de basquete dado que ele marcou em outro é cerca de 67 por cento — e as pessoas pensam que é cerca de 67 por cento.

 

Nossa suscetibilidade ao erro fundamental de atribuição — superestimar o papel das características e subestimar a importância das situações — tem implicações para tudo desde como selecionamos empregados ao ensino do comportamento moral.

 

 

Richard Nisbett é professor de psicologia da Universidade de Michigan em Ann Arbor.

Tradução: Luan Rafael Marques

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Este estudante de filosofia está extremamente interessado e esperançoso pelas crescentes ciências da mente. Ele acredita que podemos chegar ao consenso pelo diálogo racional e superar nossos vários tribalismos. Ele também acredita que um grande passo nessa direção é esclarecer sobre os fatos da nossa natureza e vieses, seguir o oráculo e conhecermo-nos a nós mesmos. A Rainha de Copas disse a Alice que conseguia acreditar em seis coisas impossíveis antes do café-da-manhã. Ele está quase lá.

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