Neuroteologia: o cérebro e as experiências espirituais

 

Nos dias atuais, novas técnicas de diagnóstico por imagem tornam visível o mundo cerebral interno. Podemos, por exemplo, analisar o nosso cérebro através de imagens com alto grau de detalhamento anatômico com uma ressonância magnética, e dessa forma observar as regiões do cérebro que estão associadas ao pensamento cognitivo, emoções e até mesmo as experiências espirituais. Posteriormente neste artigo veremos hipóteses que foram geradas através da análise de neuroimagens de pessoas religiosas durante uma oração e também meditação.

 

No início dos anos 90, Andrew Newberg, um neurocientista americano, começou sua pesquisa sobre quais regiões do cérebro exerciam maior atividade durante experiências religiosas e espirituais. O neurocientista disse uma vez em um documentário sobre si próprio: “Desde que eu era pequeno, eu tinha o interesse em entender a realidade. Impressionava-me o fato de todos observarem a mesma realidade, mas haver pessoas com religiões diferentes e crenças políticas diferentes”. Sua pesquisa ficou conhecida como Neuroteologia: um novo ramo da neurociência que estuda os efeitos da espiritualidade no cérebro humano.

 

Para realizar a pesquisa, o neurocientista injetava um inofensivo contraste radioativo enquanto a pessoa submetida ao experimento rezava, o mesmo dirige-se as regiões do cérebro onde o fluxo sanguíneo estiver mais intenso. O exame em uma mulher religiosa mostrou uma atividade maior nos lobos frontais e na área de linguagem do cérebro, esse padrão de atividade não foi exclusivo da tal paciente, todos os pacientes religiosos que afirmavam crer em algum deus tiveram esse padrão registrado.

 

Andrew acredita que o lobo frontal durante uma oração se ativa como em uma conversa normal: “Para o cérebro, falar com deus é idêntico a falar com uma pessoa ”. Ao analisar uma meditação budista (quando eles visualizam algo) ficou registrado que o cérebro sofre atividade nas áreas visuais, como uma essência que pode ser visualizada durante uma meditação profunda.

 

Na mesma pesquisa foi feito uma análise em cérebros de pessoas que não acreditam em deus; nessas pessoas não foi registrado nenhuma atividade cerebral resultante de uma meditação ou contemplação a deus, ou seja, seus lobos frontais permaneceram “desativados”, diversamente do que ocorre com quem reza.

 

Através da pesquisa de Andew foi possível mapear as regiões do cérebro que são mais afetadas durante uma experiência espiritual, porém, importa ressaltar que, tais resultados são apenas correlacionais por natureza, nada revelando sobre as relações causais. Ainda que as experiências religiosas e espirituais sejam associadas com mudanças em atividades cerebrais regionais, não é claro se essas mudanças causavam aquelas experiências ou se respondiam às mesmas.

 

A primeira ligação cientifica entre atividades cerebrais e experiências religiosas foi a hipótese do lobo temporal. Esta hipótese sugeria que descargas elétricas sincronizadas de grupos neurais do córtex temporal poderiam estar na origem de pensamentos e obsessões com conteúdo religiosos ou atinentes a questões morais.

 

Michael Persinger em 1987 criou um instrumento capaz de gerar campos eletromagnéticos fracos (estimulava partes discretas do lobo temporal), parecido com um capacete de motocicleta. O instrumento ficou conhecido como “God Helmet”. As pessoas submetidas ao experimento relataram sentir uma intensa presença de deus. Persinger concluiu que a experiência religiosa e a fé em deus são uma consequência de anomalias elétricas cerebrais.

 

A hipótese de Persinger foi bem aceita até 2005 e ao mesmo tempo muito criticada. Visto que, do fato de uma sensação ser produzida por condições patológicas ou artificiais não se pode inferir que só estas a possam produzir, mas que unicamente o cérebro está predisposto a gera-la (CESCON, 2011). Para compreendermos melhor o lado crítico basta pensar da seguinte forma; lesões no hipotálamo podem causar uma fome intensa, lesões na amígdala causam desejo sexual, mas nem por isso dizemos que o apetite de alimentos e o desejo de acasalar-se são exclusivos de danos cerebrais. (CESCON, 2011).

 

 

REFERÊNCIAS

 

[1] CESCON, Everaldo. Neurociêncai e religião: As pesquisas neurológicas em torno da experiência religiosa. [S.l.: s.n.], 2011. 314 p. Disponível em: <http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/teo/article/download/8828/6689>. Acesso em: 12 ago. 2017.

 

[2] APARECIDO, José. Neuroteologia: a Neurociência da religião e da Espiritualidade. [S.l.: s.n.], 2017. 1 p. Disponível em: <https://www.revide.com.br/blog/jose-aparecido-da/neuroteologia-neurociencia-da-religiao-e-da-espiri/>. Acesso em: 12 ago. 2017.

 

[3] NEWBERG, Andrew. Neuroteologia. Youtube, 18 nov. 2012. Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=6Xbiesyjzr0>. Acesso em: 21 nov. 17.

Graduando em Ciências Biológicas modalidade bacharelado. Apaixonado pelas neurociências, um curioso buscando entender as leis que regem a natureza do comportamento humano. Certo grau de peculiaridade quando o assunto refere-se aos psicopatas. Fã dos seriados: Hannibal Lecter, Dexter, MindHunters, House e Sherlock Holmes.

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