Neurodiversidade

 

Os humanos possuem diversidade em suas condições neurológicas. Embora algumas como o autismo sejam consideradas deficiências, muitos argumentam que são o resultado de variações normais no genoma humano. O movimento da neurodiversidade é um movimento internacional de direitos civis, que argumenta que o autismo não devia ser “curado” e que é uma forma autêntica de diversidade humana que deve ser protegida.

 

Nos princípios dos anos 1900, a eugenia e a esterilização de pessoas consideradas geneticamente inferiores eram ideias cientificamente sancionadas, com defensores declarados como Theodore Roosevelt, Margaret Sanger, Winston Churchill e o juíz do Supremo Tribunal dos EUA Oliver Wendell Holmes Jr. O horror do holocausto, inspirado pelo movimento da eugenia, demonstrou o perigo e a devastação que estes programas podem exigir quando postos em prática.

 

Temple Grandin, uma defensora declarada do autismo e da neurodiversidade, argumenta que Albert Einstein, Wolfgang Mozart e Nikola Tesla teriam sido diagnosticados no “espectro autista” se estivessem vivos hoje. Ela também crê que o autismo há muito tem contribuído para o desenvolvimento humano, e que “sem o autismo poderíamos ainda estar vivendo nas cavernas”. Hoje, crianças não-neurotípicas com frequência sofrem com programas corretivos no sistema educacional tradicional só para serem descobertas gênios depois. Muitas dessas crianças acabam em MIT e outros institutos de pesquisa.

 

Com a invenção do CRISPR, a possibilidade de editar o genoma humano em escala, de repente, tornou-se viável. As aplicações iniciais que estão sendo desenvolvidas envolvem o “concerto” de mutações genéticas que causam doenças debilitantes, mas também estão nos levando a um caminho com o potencial de eliminarmos não só o autismo, como muito da diversidade que faz a sociedade humana florescer. Nosso entendimento do genoma humano é rudimentar o bastante para haver um tempo até podermos implementar mudanças complexas que envolvem coisas como inteligência e personalidade, mas é um declive escorregadio. Alguns anos atrás, vi um plano de negócios  que argumentava que o autismo se constituía apenas em “erros” no genoma que poderiam ser identificados e “corrigidos” similarmente à remoção de ruído de uma fotografia ou gravação de áudio granulosa.

 

Claramente algumas crianças nascidas com autismo estão em estados que exigem intervenção e possuem problemas debilitantes. No entanto, nossas tentativas de “curar” o autismo, seja por remediação ou por engenharia genética, poderiam resultar na erradicação de uma diversidade neurológica que move a erudição, a inovação, as artes e muitos dos elementos essenciais de uma sociedade saudável.

 

Sabemos que diversidade é essencial para ecossistemas saudáveis. Vemos como monoculturas agrícolas criaram sistemas frágeis e insustentáveis.

 

Minha preocupação é que, ainda que descubramos e entendamos que a diversidade neurológica é essencial para a nossa sociedade, desenvolvamos ferramentas para excluir por design quaisquer características arriscadas que se desviem da norma e que, dada uma escolha, as pessoas tendam a optar por uma criança neuro-típica.

 

Conforme marchamos pelo caminho da engenharia genética para eliminar deficiências e doenças, é importante nos conscientizarmos de que este caminho, embora mais cientificamente sofisticado, foi seguido de consequências e efeitos colaterais não intencionais e possivelmente irreversíveis.

 

 

Joichi Ito é Diretor do MIT Media Lab; Coautor (com Jeff Howe) de Whiplash: How to Survive Our Faster Future.

Tradução: Luan Rafael Marques

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