Memória – parte 6: Lembrando sem saber

 

Para além da memória explícita, temos a memória de representação perceptual, de procedimentos, memória associativa e não associativa. Todas elas funcionam sem depender necessariamente da consciência. Vamos pegar um exemplo. Você reconhece a pessoa retratada na figura a seguir? Possivelmente. Mas você sabe dizer como você o reconheceu? Talvez você possa fazer uma comparação entre a caricatura de Freud e um retrato ou fotografia dele e tentar traçar semelhanças entre ambos, mas, ainda assim, é provável que fique sem saber ao certo como pôde reconhecê-lo.

 

 

O exemplo anterior serve para ilustrar a memória de representação perceptual. Outro exemplo pode ser dado pela seguinte tarefa. Complete a palavra: m e _ ó _ _ _. Em ambos os casos, a apresentação de partes de um objeto conhecido – na caricatura, são retratados apenas alguns traços bem característicos de Freud, e no caso da palavra, são mostradas somente poucas letras – foi o suficiente para o seu reconhecimento. Isso depende de haver repetidas exposições ao objeto para que este se torne conhecido e de um fenômeno chamado priming, que consiste da evocação do objeto a partir da apresentação de suas partes. Um exemplo cotidiano de priming é começar a cantar uma música desde o começo para conseguir se lembrar de algum trecho dela.

 

Outras coisas que fazemos sem a necessidade de consciência são os procedimentos. Hábitos e regras que seguimos e habilidades que aprendemos. Dirigir e amarrar o tênis envolvem muitas sessões de treinamento para que o aprendizado ocorra. No entanto, tendo aprendido, não necessitamos de esforço consciente para realizar essas tarefas. O mesmo vale para saber usar o idioma de acordo com as regras gramaticais. Pode ser complicado no começo, mas depois de consolidado esse conhecimento, usamos com facilidade e de forma automática.

 

É possível realizar uma reconstrução de forma consciente dos passos envolvidos na execução dos procedimentos. Mas isso por si só não transforma esse tipo de memória em declarativa. O que importa é que, a princípio, a formação das memórias de procedimento não necessita da participação dos processos conscientes para ocorrerem. Lembre-se do caso do paciente H.M.. Ele teve seu desempenho motor melhorado com a prática embora não fosse capaz de se lembrar de que já havia realizado a tarefa antes. Além das evidências do caso H.M., há outros experimentos que corroboram essa ideia. Em um deles, os participantes têm que apertar teclas de acordo com uma sequência que lhes parece aleatória, mas que segue uma regra. Algo parecido com o jogo Guitar Hero. Com várias repetições, seu desempenho melhora, embora os participantes não saibam dizer por que isso ocorre.

 

A possibilidade de tomar consciência de um procedimento é particularmente importante na clínica psicológica. Pessoas seguem regras e mantém hábitos, muitas vezes, sem saber que o fazem. Alguns desses hábitos e regras podem ser prejudiciais. Por exemplo, digamos que alguém tenha o hábito de não puxar papo e siga a regra de falar com desconhecidos apenas se a outra pessoa iniciar a conversa primeiro, mesmo que ela pareça interessante. Alguns meses depois de entrar na universidade, essa pessoa começa a se sentir isolada, triste e pensa que não tem amigos. Ao buscar ajuda psicológica e contar sua queixa ao terapeuta, responde algumas perguntas sobre sua rotina na faculdade e fora dela. Após conhecer melhor o paciente, o terapeuta descobre que suas interações com outras pessoas são raras, mas que isso não ocorre por falta de oportunidades. Resumindo o processo, ele pode formular a hipótese de que o paciente tem aquele hábito e segue aquela regra. Ao fazer o paciente tomar consciência disso, ele abre a possibilidade de modificação do comportamento. Trabalhando com o paciente as questões que o levaram a desenvolver esses procedimentos, o terapeuta o ajuda a desenvolver novos hábitos e regras mais adaptativos. O paciente pode mudar a regra para “iniciar uma conversa se a outra pessoa parecer interessante” e com o tempo desenvolver o hábito de puxar assunto. Com as novas experiências, é provável que o nível de interação social do paciente aumente e que ele deixe de se sentir isolado e triste na faculdade.

 

Esse foi apenas um exemplo, mas isso pode ocorrer muito frequentemente. Pessoas mantém hábitos de estudo pouco adequados e sofrem de ansiedade em vésperas de provas. Algumas pessoas podem ter desenvolvido a regra de que não podem pedir ajuda, pois isso significa para elas um sinal de fraqueza, e ter muito mais dificuldades ao começar um trabalho novo.

 

 

As memórias associativas estão relacionadas com o condicionamento pavloviano e o operante. Vamos considerar cada caso. No condicionamento pavloviano, um estímulo que causa uma certa resposta em um indivíduo de uma determinada espécie pode ser apresentado associado com um estímulo neutro, isto é, que não cause a mesma resposta. Chama-se a essa associação pareamento. Após sucessivo pareamentos, a apresentação isolada do estímulo neutro – agora chamado estímulo condicionado – provocará a mesma resposta. Neste caso, diz-se que houve um condicionamento. Por exemplo, quando você saliva ao ver uma foto de uma comida que você gosta é certo que você passou por um condicionamento deste tipo. Imagens não tem a propriedade de produzir a resposta fisiológica de salivar. No entanto, o cheiro da comida tem. Neste caso, você viu a imagem da comida enquanto sentiu o seu cheiro por diversas vezes, de modo que ao ter contato somente com a imagem, a salivação ocorre. Emoções também podem sofrer condicionamento. Se você se sente triste ao ouvir alguma música ou ao assistir ao programa do Faustão, então você sabe do que estamos falando.

 

Skinner conduzindo um de seus experimentos

O condicionamento operante, por outro lado, ocorre quando um determinado comportamento emitido em um certo contexto é associado a um estímulo que o segue. Dessa forma, aquele comportamento num contexto semelhante pode ter sua frequência aumentada, se for seguido por um estímulo chamado de reforçador, ou diminuída, se o estímulo que o seguir for punidor. Por exemplo, um rato é mantido sem alimento por 24 horas e é posto numa caixa com uma alavanca cujo acionamento faz cair uma pelota de ração. O rato naturalmente começa a explorar o ambiente. Eventualmente, ele pode acabar se apoiando na alavanca e movendo o mecanismo. Dessa forma, ele recebe alimento. Após algumas repetições, a associação do comportamento de apertar a alavanca com o recebimento de comida é estabelecido. Assim, o comportamento de apertar a alavanca tem sua frequência aumentada pois ele foi associado com a comida, um estímulo reforçador. Se o experimentador mudar o mecanismo de modo que em vez de entregar uma pelota de ração o acionamento da alavanca produza um choque elétrico no rato, a frequência do comportamento de mover a alavanca certamente diminuirá. No primeiro caso, dizemos que o comportamento foi reforçado, no segundo, que foi punido.

 

Faltou falar apenas das memórias relacionadas ao aprendizado não associativo: a habituação e a sensibilização. A primeira ocorre quando diversas apresentações de um mesmo estímulo passam a produzir respostas menos intensas. Por exemplo, na aplysia, um tipo de molusco, um leve toque com um pincel em sua pele produz um reflexo de contração, no sentido de afastamento do estímulo. Após ser tocada diversas vezes, a contração se torna mais fraca. Dizemos então que houve habituação. É o mesmo fenômeno que ocorre quando você liga o ventilador e após um tempo percebe que não estava mais ouvindo o seu som. Voltando ao caso da aplysia, se ela for tocada por um estímulo nocivo de forma bem intensa, produzirá um reflexo muito forte. Dizemos que ocorreu sensibilização se ao ser estimulada na mesma região por um estímulo muito mais fraco, como o toque das cerdas de um pincel, ela produzir um reflexo tão forte ou até mesmo maior que o anterior.


Parte 1, parte 2, parte 3, parte 4 e parte 5

 

 

REFERÊNCIAS

 

Kandel, E., Schwartz, J., Jessell, T., Siegelbaum, S., & Hudspeth, A. J. (2014). Princípios de Neurociências-5. Porto Alegre: AMGH Editora.

 

Lent, R. (2010). Cem bilhões de neurônios? 2. São Paulo: Atheneu.

 

Sternberg, R. J. (2015). Psicologia Cognitiva. 5. São Paulo: Cengage Learning.

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