Memória – parte 5: Falando de memória

 

Nos textos anteriores, falamos sobre memória de uma maneira geral, mais intuitiva, para facilitar o entendimento do conteúdo. No entanto, para aprofundar ainda mais o assunto, precisamos distinguir as memórias de acordo com o seu conteúdo. Retomando os conceitos de aprendizado e memória, sabemos que a aquisição de informações proporcionada pela memória modifica o comportamento. Isso engloba mais do que as lembranças que temos sobre eventos e fatos, também envolve habilidades motoras, como amarrar o tênis e andar de bicicleta, e associações que fazemos entre estímulos, entre outras formas de aprendizado. Nessa parte da série, nos debruçaremos sobre os diferentes tipos de informações que armazenamos e mostraremos algumas evidências que justificam tal distinção.

 

A primeira e mais importante divisão da memória envolve a participação da consciência no processo de evocação. Os casos em que recordamos alguma informação sem que saibamos que e como estamos fazendo isso tratam-se de memória não-declarativa ou implícita. Já quando podemos evocar uma informação estando cientes disso trata-se de memória declarativa ou explícita. Algumas das divisões que veremos são fruto da pesquisa em psicologia cognitiva enquanto outras surgiram da pesquisa neurocientífica. Embora seja fundamental o uso do conhecimento das neurociências para estabelecer essas distinções, não é nosso intuito neste texto fazer um aprofundamento sobre as estruturas cerebrais envolvidas em cada tipo de memória.

 

A perda severa de memória explícita – amnésia – foi largamente estudada no último século. O caso mais famoso, do paciente H.M., foi um marco no estudo da memória. H.M. apresentava crises severas de epilepsia, incapacitando-o de levar uma vida normal. Como resultado da investigação neurológica, foi feita a remoção bilateral do hipocampo, da amígdala e de parte do córtex temporal. As crises de epilepsia ficaram sob controle, contudo algumas alterações notáveis surgiram. Ele mantinha suas lembranças de antes da cirurgia, sua memória de trabalho era normal e ainda era capaz de usar a linguagem da mesma forma.

 

Cérebro normal e o cérebro de H.M.

 

Porém, ele se tornou incapaz de armazenar novas informações na memória de longo prazo. Após a cirurgia, ele passou a ser acompanhado mensalmente pela psicóloga Brenda Milner. Entretanto, em todas as vezes que ela o visitava era tratada por ele como se nunca tivessem se visto antes. O caso H.M. trouxe muitos avanços para o estudo da memória. Por exemplo, o papel de algumas estruturas cerebrais, como o hipocampo, na formação de novas memórias de longo prazo. Para além disso, a distinção entre memórias explícitas e implícitas pôde ser demonstrada com experimentos comportamentais. Milner solicitava a H.M. que realizasse tarefas motoras complexas. Numa delas, H.M. tinha que contornar a lápis o desenho de uma estrela com a condição de que o acesso visual ao desenho fosse feito por um espelho, o que dificultava bastante a tarefa. Ao longo de meses, como a prática regular, o desempenho de H.M. foi melhorando, muito embora ele não se recordasse de ter realizado a tarefa antes. Isso mostrava que ele ainda conseguia formar novas memórias de longo prazo, mas de um tipo específico – memórias não-declarativas.

 

Brenda Milner

Essas evidências suportam a distinção entre memórias explícitas e implícitas e lançam luz sobre quais sistemas neurais estão envolvidos na formação de cada tipo.

 

Dentre as lembranças que podemos evocar conscientemente, uma parte delas tem relação com algum evento ou contexto específico. Perguntas como “o que você jantou ontem?” e “o que você fez ontem logo antes de se deitar?” se referem a informações que são retidas com um referente temporal. Esse tipo de armazenamento para eventos é chamado de memória episódica. O outro tipo de memória declarativa armazena informações sobre fatos ou significado de palavras e conceitos e é chamada de memória semântica. Perguntas como “quantos planetas há no sistema solar?” ou “o que é memória de trabalho?” se referem ao conhecimento que temos sobre fatos dos quais nos lembramos sem referência a qualquer contexto temporal específico. Há algumas sutilezas nessa distinção. Por exemplo, você pode se lembrar que as Torres Gêmeas caíram enquanto um fato, da mesma forma que você se lembra que os cromossomos são compostos de DNA; ou você pode se lembrar disso enquanto um evento, se você pensar no que fez no dia do atentado.

 

Essa distinção é apoiada também por evidências neurobiológicas. Em pacientes com lesões em algumas áreas cerebrais, é observado que perdem a capacidade de se lembrar quando tiveram contato com algum estímulo, mas ainda se lembram que tiveram contato. Vários achados neuropsicológicos de pacientes que apresentam deficit em um dos dois tipos de memória declarativa também indicam também essa separação. Outras evidências foram encontradas em estudos com imagem cerebral, nos quais tarefas de memória episódica e de memória semântica eram realizadas pelos participantes enquanto o fluxo sanguíneo no encéfalo era monitorado. Notou-se que quando a tarefa era de memória semântica, o lado esquerdo do cérebro se tornava mais ativo, enquanto que na tarefa de memória episódica o lado mais ativado era o direito. Em suma, a divisão entre o conhecimento episódico e semântico tem bases neurobiológicas bem conhecidas.

 

Parte 1, parte 2, parte 3, parte 4 e parte 6

 

 

REFERÊNCIAS

 

Kandel, E., Schwartz, J., Jessell, T., Siegelbaum, S., & Hudspeth, A. J. (2014). Princípios de Neurociências-5. Porto Alegre: AMGH Editora.

 

Lent, R. (2010). Cem bilhões de neurônios? 2. São Paulo: Atheneu.

 

Sternberg, R. J. (2015). Psicologia Cognitiva. 5. São Paulo: Cengage Learning.

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