Memória – parte 4: A caminho da informação

 

Ao longo do tempo, o modelo de memória foi tornando-se cada vez mais sofisticado. No caso das memórias declarativas, isto é, aquelas das quais podemos nos lembrar de forma consciente, são reconhecidos os processos de codificação, armazenamento, consolidação, evocação e reconsolidação. Neste texto, abordaremos cada um deles para explicar quais são os caminhos possíveis de uma informação na memória.

 

A codificação começa com o registro de uma informação na memória e é feito sempre em relação às demais informações já contidas nela. A codificação pode ser feita em níveis. Você pode codificar a palavra “CABELO” de acordo com sua aparência, isto é, quantas letras ela tem e se são maiúsculas ou minúsculas. Você também pode codificá-la a respeito de como ela soa, notando que ela rima com “novelo”. Outra forma de codificação levaria em conta seu significado, dessa forma, pode ser relacionada com tudo mais que sabemos sobre cabelo, seja que pode ter várias cores, formatos, estilos de corte ou que é ausente em carecas. É muito mais fácil se lembrar de uma informação codificada de acordo com seu significado.

 

O próximo passo é o armazenamento ou retenção. A duração da retenção pode variar de segundos ao resto da vida. Como dissemos em outro lugar, a capacidade de armazenamento de curto prazo é bastante limitada e gira em torno de 5 a 7 itens. Por exemplo, abra o gerador de números aleatórios e teste sua capacidade de memorizar sequências numéricas. Você pode gerar uma sequência, variando a quantidade de números, começando com 5 e indo até o máximo que você puder memorizar. Gere os números, leia em voz alta, número a número, com uma pequena pausa entre eles, feche os olhos e tente repetir em voz alta toda a sequência. Você pode usar o gravador do celular para verificar seu desempenho. Aproveite para checar se os seus erros se encontram mais na porção inicial, central ou final da sequência, pois falaremos disso a seguir. Se achar muito fácil, pode tentar repetir a sequência na ordem inversa. Se você conseguir superar os 10 itens, deixe um comentário abaixo nos contado sobre isso. Contudo, é esperado que uma pessoa normal oscile entre 5 e 9 itens e simplesmente não lembre do restante. Isso nos leva um processo mnêmico fundamental para o bom funcionamento da memória: o esquecimento.

 

Embora seja comum supor que esquecer é um problema para a memória, na verdade, é o esquecimento que possibilita o seu bom funcionamento. Esquecer aspectos pouco importantes de um evento é o que nos permite lembrar daquilo que realmente importa dos demais. A nossa capacidade de recordação certamente é limitada e a de evocar eventos com riqueza de detalhes é menor ainda. Dessa forma, se guardássemos todos os aspectos de um evento, teríamos uma memória inchada de informações irrelevantes e sobraria pouco espaço para o que realmente importa. Pense no último filme que você assistiu. Se foi há poucas horas, talvez você saiba contar quase o filme todo. Se você o viu a menos de uma semana, é bem provável que você saiba contar a história e até reproduzir os melhores diálogos. Porém, pense num filme que você viu há um ano, talvez você não saiba nem o roteiro dele. Aliás, o exemplo do filme é bom para ressaltarmos o papel que o aspecto emocional tem na retenção das memórias. É provável que você se recorde com uma riqueza muito maior de detalhes de um filme impactante visto há vários anos do que de um filme mediano e sem graça que você viu na semana passada.

 

Retirado de Lent, R. (2010). Cem bilhões de neurônios? 2. São Paulo: Atheneu.

 

Outros fatores que influenciam no esquecimento são a posição da informação e distrações. Se você fez o teste que sugerimos e guardou bem os dados, pode verificar que a maioria dos itens que você esqueceu constam na parte central da sequência. Estudos mostraram que é mais fácil reter a parte inicial e a parte final de uma sequência do que as porções intermediárias. Você também pode pedir a um amigo ou familiar seu para memorizar e repetir uma sequência numérica, igual você fez. Depois, peça a ele para fazer o mesmo processo novamente enquanto você lê a sequência Fibonacci em voz alta do lado dele. Assim, você pode avaliar o papel da distração na retenção das informações.

 

Após o armazenamento, a informação está disponível aos demais processos cognitivos. Podemos pensar sobre ela e utilizá-la para realizar alguma ação. A receita de torta que você acabou de ver pelo YouTube pode servir para você fazer uma torta para o seu amor ou pode servir para elaborar mentalmente a sua lista de compras. Se quem vai fazer a torta é outra pessoa, pode ser que após elaborar a lista, você não se lembre mais do modo de preparo. Nesse caso, a informação retida foi logo em seguida evocada e utilizada. Porém, após o uso, ela foi esquecida. Esquecimento, aliás, é o caminho preferido da maioria das informações que adquirimos. Tente, ao final do dia, lembrar-se de tudo o que aconteceu e de todos os diálogos que você participou. Pois é, você esqueceu boa parte deles.

 

Contudo, na retenção de curto prazo, a memória é muito instável. O processo que permite que a informação seja armazenada de forma duradoura é chamado de consolidação. O sono é um fator muito influente na consolidação. Isto é, a consolidação das memórias pode ser enfraquecida no caso de uma noite mal dormida. Por isso que nunca foi uma boa ideia virar a noite estudando para a prova do dia seguinte. A consolidação é um processo demorado, pois envolve modificações estruturais nas sinapses. O limite de informações armazenadas no longo prazo parece ser virtualmente infinito.

 

A evocação pode ser realizada a partir do armazenamento de curto e de longo prazo. Há uma pequena diferença entre ambos os casos. Quando você está lendo um livro ou assistindo a um filme, constantemente lhe é solicitado que evoque informações de eventos anteriores para que possa entender a história. Ainda mais se for uma narrativa não-linear, como no filme Pulp Fiction. Neste caso você tem que evocar constantemente os eventos para tentar localizá-los numa linha do tempo coerente. Entretanto, considerando que a consolidação da memória é um processo lento, durante a exibição de um filme, as evocações são feitas todas do armazenamento de curto prazo.

 

Agora considere alguma série de TV. É bastante comum assistir aos episódios em dias diferentes, certo? Neste caso, havia tempo hábil para o processo de consolidação entrar em cena. Dessa forma, quando era necessário se lembrar de eventos dos episódios anteriores, a evocação era feita a partir do armazenamento de longo prazo. A principal diferença entre os dois casos reside na estabilidade que é conferida a uma memória de longa duração. Contudo, ao ser evocada, torna-se mais instável, passível de ser modificada com mais facilidade. Além disso, aquela memória precisa passar por um novo processo, chamado reconsolidação, para adquirir estabilidade novamente.

 

Elenco da série The Sopranos (HBO).

 

Nesse meio tempo, muitas coisas podem acontecer a essa memória. Isto é, ela pode ser modificada com a inclusão de novas informações. Imagine que você viu um episódio de uma série contado sob a perspectiva de um personagem específico e registrou na memória aquele evento de uma determinada forma. Duas temporadas depois, aquele mesmo evento é contado do ponto de vista de outro personagem e você tem acesso a outros acontecimentos que antes não sabia. A sua memória de longa duração é evocada e, uma vez instável, modificada com a adição de novas informações. Nesse momento, a memória deixa de constar no armazenamento de longa duração. É necessário, então, um novo processo de consolidação, caso contrário, a memória pode ser apagada, pelo menos parcialmente.

 

Esse processo é passível de muitas falhas, como abordamos no nosso artigo sobre falsas lembranças. No entanto, é um processo que ocorre o tempo todo. A todo momento, recorremos a lembranças antigas para realizar tarefas atuais e, em muitos casos, essas lembranças modificam-se a cada evocação. Se você quiser fazer um teste, pergunte aos seus antigos colegas de escola sobre como eles se lembram de determinados eventos daquele período. Provavelmente vocês terão versões distintas sobre como as coisas ocorreram. Outro teste consiste em manter um diário no qual se registram eventos desimportantes do dia a dia. Após um longo período, tente se lembrar dos eventos e descrevê-los. Então, confronte as duas versões e procure por discrepâncias.

 

Vale ressaltar que de todos esses processos, o de reconsolidação é o mais recente a ser descrito. Desse modo, sabe-se ainda muito pouco sobre ele. Há pesquisadores que colocam em xeque a sua própria existência. Contudo, é mais bem aceito que se trata de um processo real.

 

Parte 1, Parte 2, Parte 3

 

 

REFERÊNCIAS

 

Kandel, E., Schwartz, J., Jessell, T., Siegelbaum, S., & Hudspeth, A. J. (2014). Princípios de Neurociências-5. Porto Alegre: AMGH Editora.

 

Lent, R. (2010). Cem bilhões de neurônios? 2. São Paulo: Atheneu.

 

Sternberg, R. J. (2015). Psicologia Cognitiva. 5. São Paulo: Cengage Learning.

 

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