Memória – parte 3: integrando experiências

 

O assunto deste texto é a memória de trabalho, ou memória operacional, como também é conhecida. Em primeiro lugar, precisamos fazer uma distinção entre a memória de trabalho e a memória de curto prazo, do modelo dos três receptáculos. As informações contidas na memória de trabalho podem ter sido adquiridas há poucos segundos, como quando alguém lhe pede para memorizar um número de telefone e você não tem meios de anotá-lo no momento, ou quando você abre a geladeira, pega alguma coisa e a fecha, então alguém lhe pergunta o que tinha dentro e você sabe enumerar alguns dos itens. Também podem ter sido adquiridas há muito tempo, como quando você precisa utilizar a fórmula para cálculo da área do triângulo durante uma prova de vestibular.

 

 

Todas as informações que foram ativadas recentemente, sejam elas sobre conhecimentos que você tem há bastante tempo ou sobre o que acabou de aprender, fazem parte da memória de trabalho. Por exemplo, lembre-se de alguma informação adquirida há muitos anos, como o nome da sua primeira professora. Você, muito provavelmente, não estava pensando nisso antes da minha sugestão, ou seja, essa informação não constava na sua memória operacional. No entanto, ao recuperar essa lembrança, você moveu uma informação da memória de longo prazo para a memória de trabalho. Dito de outro modo, consta na sua memória de trabalho aquilo que você está pensando em cada momento.

 

A memória operacional consiste de subsistemas. O primeiro deles é o circuito fonológico, responsável pela manipulação de representações verbais. Por exemplo, ao conversar com alguém, você deve ter em mente o que ele fala para compreender e elaborar uma resposta coerente. Você usa o circuito fonológico para essas duas tarefas. De um lado, serve para armazenar informações que chegam até você pela audição e, de outro, para ensaiar sua fala subvocalmente. Esse ensaio ativa suas demais lembranças, movendo-as para a memória de trabalho e permite que você dê uma resposta adequada. Pessoas com deficit no circuito fonológico não conseguem, por exemplo, repetir uma frase que acabaram de ouvir.

 

O segundo subsistema, chamado de esboço visuoespacial, mantêm representações de objetos e da sua localização no espaço. Alguns pesquisadores sugerem que o esboço visuoespacial poderia ser melhor descrito na forma de dois sistemas separados, um para conhecimento de objetos visuais e outro para conhecimento espacial. Algumas evidências neurobiológicas sugerem essa separação. Em primatas não humanos, há grupos de neurônios que respondem seletivamente a estímulos visuais, outros são ativados na presença de estímulos espaciais e há ainda alguns grupos que parecem promover a integração de ambos os estímulos. A função do esboço visuoespacial é reter informações visuais. Em experimentos, pacientes com lesões cerebrais em determinadas áreas, como a via dorsal, não conseguem realizar tarefas que envolvem lembrar a ordem em que o experimentador apontou objetos dispostos em uma mesa. Curiosamente, alguns primatas têm esse componente da memória muito mais desenvolvido do que os seres humanos. Você acha que poderia ganhar desse chimpanzé?

 

 

Outro componente é o anteparo episódico. Sua função primordial é integrar informações verbais e visuoespaciais num todo significativo, que faça sentido para nós. Na coordenação de todos esses processos estão as funções executivas, o quarto subsistema da memória de trabalho. Elas são responsáveis, entre outras coisas, por determinar o grau de atenção disponibilizada para os sistemas verbal e visuoespacial, fazer checagens constantes do conteúdo da memória de trabalho e decidir a quais informações dar ênfase. Também estão envolvidas na seleção de informações da memória sensorial. Por exemplo, isso ocorre quando você está passando os olhos por um texto, à procura de algumas palavras específicas. Ao escanear aquela palavra, essa informação é selecionada pelas funções executivas e passa a constar na memória de trabalho. As demais palavras, que não era relevantes naquele momento, são descartadas.

 

Como se estuda a memória de trabalho? Existem métodos cognitivos, neurobiológicos e a combinação de ambos. Alguns métodos cognitivos envolvem a apresentação de slides, contendo estímulos como número ou imagens, que devem ser memorizados. Por exemplo, o participante do experimento pode ser apresentado a uma sequência de slides com algarismos. Ao final, terá que repetir os algarismos. O experimentador também pode solicitar que sejam repetidos na ordem inversa à qual foram apresentados. São avaliados a quantidade máxima de itens armazenados, a taxa de erros e acertos e também a velocidade da resposta. Os métodos neurobiológicos geralmente envolvem lesionar ou inativar temporariamente, via medicação, algumas regiões encefálicas de animais não humanos. Eles realizam diversas tarefas cognitivas e comportamentais nessas condições. A finalidade desses métodos é descobrir o papel das áreas cerebrais na memória operacional.

 

 

Na neuropsicologia, utiliza-se a combinação de ambos os métodos. Pacientes lesionados ou com suspeita de lesão realizam tarefas cognitivas e comportamentais. A partir do seu desempenho, formula-se hipóteses sobre qual região cerebral estaria lesionada. Imagine o caso de uma pessoa que foi internada porque feriu a cabeça num acidente de trânsito. Após receber alta, o paciente começa a apresentar deficit de memória. Um neuropsicólogo investigaria qual componente da memória foi prejudicado, então levantaria hipóteses sobre o local da lesão e como poderia ser feita a reabilitação. Isso é possível porque existe uma correlação entre lesões em locais específicos e deficit mnêmicos específicos, como veremos nos próximos textos da série. Como dissemos em outro lugar, lesões em algumas áreas específicas do cérebro podem eliminar completamente algumas funções psicológicas.

 

Em resumo, a memória operacional faz a integração das informações que chegam da memória sensorial, selecionados pela sua relevância, com as lembranças mais antigas, as emoções e os pensamentos atuais. Além disso, essas informações são manipuladas, por meio do ensaio, para planejar o comportamento. Enquanto o comportamento ocorre, ele é monitorado constantemente e sua realização é comparada com o seu planejamento, contido na memória operacional. Ao mesmo tempo, as funções executivas fazem checagens no conteúdo da memória de longo prazo para comparar a situação presente com anteriores e avaliar a eficácia da ação naquele contexto.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Kandel, E., Schwartz, J., Jessell, T., Siegelbaum, S., & Hudspeth, A. J. (2014). Princípios de Neurociências-5. Porto Alegre: AMGH Editora.

 

Lent, R. (2010). Cem bilhões de neurônios? 2. São Paulo: Atheneu.

 

Sternberg, R. J. (2015). Psicologia Cognitiva. 5. São Paulo: Cengage Learning.

 

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