Memória – parte 2: níveis de processamento

Vale Sagrado dos Incas

 

Alguns psicólogos cognitivistas se afastaram do modelo dos três receptáculos. Uma das alternativas foi enfatizar como a codificação da informação influencia no armazenamento e na evocação. Nesse sentido, o processamento de uma informação poderia ser feito em diferentes níveis de profundidade. O experimento clássico que apoiou essa visão foi feito da seguinte forma. Os participantes deveriam memorizar uma lista de palavras. Cada palavra era precedida por uma pergunta que induzia o participante a focar sua atenção em um aspecto particular da palavra. Algumas questões pediam ao participante para dizer se as letras que compunham a palavra eram maiúsculas ou minúsculas, induzindo-o a processar o aspecto físico da palavra. O foco da atenção também poderia ser direcionado ao aspecto fonológico ao perguntar se a palavra rimava com alguma outra. O terceiro tipo de pergunta dirigia a atenção ao aspecto semântico da palavra, ao indagar sobre seu significado. Essas perguntas alteravam a forma como a palavra era codificada. Palavras processadas em sua dimensão mais superficial (o nível físico) eram menos lembradas, enquanto que palavras processadas em nível mais profundo eram mais lembradas. Um experimento parecido foi feito para medir o nível de memorização de listas de palavras: aquelas listas que continham palavras relacionadas logicamente entre si eram lembradas mais facilmente do que as que tinham palavras sem conexão alguma.

 

Nível de processamento Características processadas Exemplo
Físico Aspectos visuais das letras Quantas letras há na palavra “FOGO”? Ela está escrita em letras maiúsculas?
Fonológico Combinações de sons associados às letras, como rimas, assonância e aliteração A palavra “cabelo” rima com “medo”?
Semântico Significado A palavra “contusão” se refere a algum tipo de alimento?

 

No entanto, há alguns problemas nesse modelo. Em alguns contextos, como memorizar uma letra de música, estratégias fonológicas, ou seja, manter o foco da atenção nas rimas, surtem maior efeito. É provável que o leitor saiba algumas estrofes do hino nacional, mas não é tão comum que saibamos o que elas significam. Pense em outras músicas que você sabe as letras mas que sequer pensou no significado delas. Dessa forma, o modelo teve que ser aprimorado. O efeito de rememoração depende, por um lado, da forma como a informação é codificada e, por outro, da forma como é solicitada a evocação. Isso explica porque codificar uma letra de música focando nas rimas aumenta a chance de ela ser lembrada enquanto a música toca, pois isso obriga a pessoa a evocar o aspecto fonológico da informação. Além disso, uma informação é codificada em relação ao que já está contido na memória. Portanto, ao estudar um novo tema, tente relacioná-lo com os demais conhecimentos que possui, porque isso cria novas formas de evocá-lo, e tente codificá-lo de forma semelhante com a qual ele provavelmente deverá ser evocado. Se você tiver que dissertar sobre esse tema, tente codificá-lo de maneira profunda, fazendo a si mesmo perguntas que o forcem a relacioná-lo com outros temas significativos e que centrem sua atenção nos aspectos principais do assunto. Codificar as informações novas como uma história, com início, meio e fim, ajuda a evocar as demais partes a partir de uma delas.

 

Faça você mesmo um experimento. Separe uma porção de amigos ou familiares em dois grupos. Para metade deles, dê a orientação de contar o número de letras das palavras que você vai falar. Para o restante, peça que pensem em três palavras relacionadas a cada uma das que você vai dizer. Pronuncie as palavras da lista seguinte dando 5 segundos de intervalo entre uma e outra: alegria, mar, delinquente, bom, decente, bonito, feroz, almoço, criatividade, desamparo. Espere cerca de 5 a 10 minutos, dê uma folha de papel com um lápis a cada um de seus participantes e peça que escrevam nela todas as palavras de que se lembrarem. Desse modo, você os induz a codificar as palavras em determinado nível. Quem contou as letras provavelmente não prestou muita atenção ao significado da palavra; quem pensou em palavras relacionadas processou com muito mais profundidade a informação e, como vimos, deverá ter um desempenho melhor do que as pessoas do outro grupo. Se você fizer o experimento, deixe um comentário nos contando o seu resultado.

 

Parte 1, Parte 3

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Kandel, E., Schwartz, J., Jessell, T., Siegelbaum, S., & Hudspeth, A. J. (2014). Princípios de Neurociências-5. Porto Alegre: AMGH Editora.

 

Lent, R. (2010). Cem bilhões de neurônios? 2. São Paulo: Atheneu.

 

Sternberg, R. J. (2015). Psicologia Cognitiva. 5. São Paulo: Cengage Learning.

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