Memória – parte 1: armazenando experiências

 

A forma como agimos e pensamos é modificada o tempo todo pelo contato que temos com nós mesmos, com o mundo e com as outras pessoas. Essa mudança decorre da aquisição de conhecimento proporcionada pelas experiências: a isso damos o nome de aprendizado. A memória, por sua vez, é o processo que nos permite codificar, armazenar e evocar esse conhecimento. Nesta série de textos, veremos que há diferentes formas de memória e que elas podem ser classificadas de acordo com o tipo de informação armazenada e com a sua dimensão temporal.

 

Hermann Ebbinghaus.

Pesquisas sobre memória surgiram mais ou menos na época da fundação da psicologia enquanto ciência independente. Hermann Ebbinghaus fundou o primeiro laboratório de psicologia especializado no estudo da memória ainda em 1890. No entanto, muita coisa mudou de lá pra cá. Pode parecer estranho, por exemplo, pensar que na época de Ebbinghaus, ele usava a si mesmo como sujeito experimental. Hoje em dia, existem diversos métodos especializados para estudar cada aspecto particular da memória. Os participantes da pesquisa podem realizar tarefas cognitivas enquanto seus cérebros são monitorados por ressonância magnética ou tomografia em tempo real. Uma parte importante da pesquisa moderna envolve descobrir quais são os sistemas neurobiológicos envolvidos em cada tipo de memória.

 

Ao longo do último século, foram feitas várias tentativas de unificar o conhecimento sobre a memória. A primeira delas remonta a 1965 e é baseada na distinção entre duas estruturas de memória. Peço ao leitor que tente se lembrar de algum fato significativo de sua infância e de quantos planetas há no sistema solar (dica: são ao todo 8). Esse tipo de lembrança, que inclui informações adquiridas há bastante tempo, corresponde a uma das estruturas propostas inicialmente: a memória secundária. A outra estrutura, a memória primária, armazena informações momentâneas, como quando você fica repetindo a si mesmo o número de telefone da pizzaria até realizar a ligação, mas já não se lembra mais dele ao comer o primeiro pedaço. Esse modelo deixou de ser usado, mas a ideia de separar lembranças de acordo com a dimensão temporal permanece influente até os dias de hoje.

 

Três anos depois, em 1968, os cientistas Richard Atkinson e Richard Shiffrin propuseram uma teoria alternativa, que ficou conhecida como o modelo dos três receptáculos. Desse modo, a memória é armazenada em três sistemas diferentes:

 

  • Memória sensorial: a informação é armazenada por períodos muito breves e em pouca quantidade;
  • Memória de curto prazo: também armazena uma quantidade baixa de informação, mas por um período maior do que a memória sensorial;
  • Memória de longo prazo: tem uma capacidade muito grande de armazenar informação, aparentemente sem prazo limite.

 

É importante ressaltar que esses sistemas não foram propostos como estruturas neurobiológicas distintas, apenas como construtos hipotéticos. Na psicologia, sobretudo na sua vertente cognitiva, é comum a utilização desse tipo de recurso teórico. Construtos são modelos usados para a compreensão de um fenômeno psicológico. Um exemplo de construto psicológico largamente usado é a inteligência. No modelo Atkinson-Shiffrin, a informação é transferida de um sistema para o outro, de modo que a memória de longo prazo foi, em algum momento, memória de curto prazo. Hoje sabemos que isso não acontece, pois a formação de memória de curto e de longo prazo são processos independentes. No entanto, essa não é a única fraqueza desse modelo, como veremos. Antes disso, porém, vamos tratar brevemente de cada tipo de armazenamento, começando pela memória sensorial.

 

Memória sensorial

 

Para demonstrar na prática, peço que o leitor faça uma experiência. Pegue o celular e vá a um local escuro. Ligue a tela e faça movimentos circulares ou de vai-e-vem com o aparelho. Você vai notar que a luz deixa um traço no ar. O mesmo fenômeno ocorre ao observar aqueles projetores de laser de casas noturnas. Na verdade, não existe traço algum no ar. Essa permanência da luminosidade só acontece na experiência subjetiva e é um exemplo da armazenagem sensorial. Pesquisas sobre esse tipo de memória são feitas utilizando slides de computador contendo matrizes de letras. Os participantes veem os slides por frações de segundos e, logo após cada slide, são solicitados a informar uma das letras da matriz. Um sinal, que aparece acima da posição da letra imediatamente antes ou depois da apresentação do slide, indica qual letra deverá ser informada. Dessa forma, o experimento pode investigar a quantidade de itens que a memória sensorial pode armazenar. Pesquisas usando slides como o da imagem encontraram que a capacidade é de cerca de 12 itens.

 

 

Outra característica importante é que esse tipo de memória pode ser apagado. Se o sinal que indica a letra for apresentado no mesmo local dela em vez de um pouco acima, os participantes não conseguem informar qual era a letra. Esse efeito é fortemente dependente do tempo entre a apresentação dos dois itens. Se dois itens – por exemplo, uma matriz contendo somente letras F maiúsculas e outra contendo apenas letras L maiúsculas – forem apresentadas em sequência na mesma posição, com um intervalo de cerca de 100 milissegundos, ocorre a superposição de ambos. No caso do nosso exemplo, o participante veria a superposição das letras F e L, formando uma matriz contendo somente letras E. Se o intervalo for maior do que 100 milissegundos, ocorre a permanência somente das letras L. Esse efeito de apagamento possibilita uma melhor percepção dos objetos quando observamos rapidamente o local em que estamos, pois do contrário, a percepção de um objeto sofreria a interferência do objeto visto anteriormente.

 

Em suma, o armazenamento sensorial é o primeiro passo para a informação ser registrada na memória. Isso depende, contudo, do intervalo temporal entre a apresentação de dois itens na mesma posição. Se esse período não for longo o suficiente, a transferência para outro sistema de memória não é feita e a informação é apagada. Vale notar também que, embora tenhamos tratado apenas visão, a memória sensorial funciona de modo muito semelhante para as demais modalidades perceptivas.

 

 Memória de curto prazo

 

Vamos começar novamente com uma experiência. Você se lembra do nome do cientista que fundou o primeiro laboratório especializado em memória? E dos cientistas que propuseram o modelo dos três receptáculos? Se você aprendeu essas coisas lendo este texto e soube responder à pergunta, então essas informações estavam presentes no receptáculo de curto prazo. Você utiliza a memória de curto prazo em tarefas cotidianas, seja para resolver problemas matemáticos, como quando quer saber o valor da compra no mercado, seja para cozinhar, memorizando a receita e o modo de preparo. Em ambos os casos, você seleciona quais informações utilizar naquele momento, seja o preço dos vários itens que você comprou ou a quantidade de ovos e de xícaras de farinha para fazer o bolo, e permanece pensando nelas enquanto realiza a tarefa.

 

A memória de curto prazo tem capacidade limitada. Você faz ideia de quantos itens ela pode armazenar? Vamos fazer um teste? Olhe para a seguinte sequência de algarismos por alguns segundos, feche os olhos e tente repeti-la: 101001000100010000100. Se você não só não conseguiu como também não chegou nem perto então você é uma pessoa como a grande maioria de nós. A memória de curto prazo, em geral, consegue abranger uma quantidade média de sete itens, mais ou menos dois. A sequência contém 21 itens. No entanto, existe uma forma de “trapacear”, de aumentar a capacidade da memória de curto prazo. O truque está em como separar a sequência. Se, em vez de separar algarismo por algarismo, você a dividir em conjuntos maiores, como 10, 100, 1000, 1000, 10000, 100, a probabilidade de que você consiga reproduzir a sequência será maior. Isso acontece porque, dessa forma, você tem que armazenar apenas 6 itens em vez de 21.

 

A informação é armazenada no receptáculo de curto prazo pelo modo como ela soa, e não pelo seu aspecto visual. Por isso, a capacidade de sete itens cai bastante se cada um for formado por muitas sílabas. Assim, é mais fácil manter na memória uma sequência de itens que são lidos com poucas sílabas do que itens que são pronunciados com longas palavras.

 

 Memória de longo prazo

 

A memória de curto prazo, como vimos, é utilizada em atividades cotidianas. Mas a memória de longo prazo é fundamental para todos os aspectos da nossa vida. Nela armazenamos informações sobre nossa rotina, o local onde estudamos ou trabalhamos, como se chamam as pessoas e até mesmo dependemos dela para reconhecer as pessoas do nosso convívio. É o sistema de memória mais difícil de pesquisar. Não se sabe como investigar a quantidade nem o prazo máximo de retenção da informação. Sabe-se que uma lembrança contida na memória de longo prazo tende a ser mais forte quanto maior for sua carga emocional. Também sabe-se que a formação de novas memórias de longo prazo é altamente dependente do sono. Um foco de pesquisa é sobre a precisão dessas lembranças, mas isso é assunto de outro texto. Voltaremos a falar mais das memórias de longo prazo nos próximos textos, quando tratarmos de amnésia.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Kandel, E., Schwartz, J., Jessell, T., Siegelbaum, S., & Hudspeth, A. J. (2014). Princípios de Neurociências-5. Porto Alegre: AMGH Editora.

 

Lent, R. (2010). Cem bilhões de neurônios? 2. São Paulo: Atheneu.

 

Sternberg, R. J. (2015). Psicologia Cognitiva. 5. São Paulo: Cengage Learning.

Comentários no Facebook