Jogos de soma positiva

 

Um jogo de soma zero é uma interação na qual o ganho de um partido é igual à perda do outro partido — a soma dos seus ganho e perda é zero (mais precisamente, é constante passando por todas as combinações de seus cursos de ação). Partidas esportivas são exemplos quintessenciais de jogos de soma zero: vencer não é tudo que importa, é a única coisa que importa, e os bonzinhos ficam para trás. Um jogo de soma não zero é uma interação na qual algumas combinações de ações oferecem um ganho líquido (soma positiva) ou uma perda líquida (soma negativa) aos dois. O comércio de excedentes, como quando pastores e fazendeiros permutam lã e leite por grãos e frutas, é um exemplo quintessencial, como o é a troca de favores, como quando as pessoas alternam no cuidado das crianças umas das outras.

 

Num jogo de soma zero, um agente racional buscando o maior ganho para si necessariamente estará buscando a máxima perda para o outro agente. Num jogo de soma positiva, um agente racional movido pelo interesse próprio pode beneficiar o outro cara com a mesma escolha que lhe beneficia. Mais coloquialmente, jogos de soma positiva são chamados de situação ganha-ganha e são capturados no clichê “todo mundo sai ganhando”.

 

Esta família de conceitos (jogos de soma zero, soma não-zero, soma positiva, soma negativa, soma constante e soma variável) foi introduzida por John von Neumann e Oskar Morgenstern quando inventaram a teoria matemática dos jogos em 1944. A ferramenta Ngram do Google Books mostra que os termos viram um aumento estável em popularidade começando nos anos 1950 e seu parente coloquial “ganha-ganha” (win-win) iniciou uma ascensão similar nos anos 1970.

 

 

Quando as pessoas são lançadas em conjunto numa interação, suas escolhas não determinam se elas estão num jogo de soma zero ou não-zero; o jogo é parte do mundo em que vivem. Mas as pessoas, negligenciando algumas das opções sobre a mesa, podem perceber que estão num jogo de soma zero quando estão na verdade num jogo de soma não-zero. Além do mais, elas podem modificar o mundo e tornar a sua uma interação de soma zero. Por estas razões, quando as pessoas se conscientizam da estrutura teórica dos jogos da sua interação (isto é, se é de soma positiva, negativa ou zero), elas podem fazer escolhas que lhes trazem resultados valiosos — como segurança, harmonia e prosperidade — sem precisarem se tornar mais virtuosas, nobres ou puras.

 

Alguns exemplos. Colegas ou parentes briguentos concordam em engolir o orgulho, limitar seus prejuízos ou deixar pra lá para desfrutarem da cortesia resultante ao invés de absorver os custos de contínuas brigas na esperança de prevalecer numa batalha de vontades. Dois partidos numa negociação dividem a diferença nas suas posições de barganha iniciais para “chegar ao sim”. Um casal em processo de divórcio se dá conta de que podem reenquadrar suas negociações, passando de cada um tentar engolir o outro enquanto enriquecem seus advogados para tentarem manter tanto dinheiro com os dois e fora dos honorários faturáveis de Dewey, Cheatham e Howe quanto possível. Populachos reconhecem que o intermediário econômico (particularmente minorias étnicas que se especializam neste nicho como judeus, armênios, chineses além-mar e indianos expatriados) não são parasitas sociais cuja prosperidade vem às custas dos seus hospedeiros, mas sim criadores de jogos de soma positiva que enriquecem a todos de uma vez só. Países reconhecem que o comércio internacional não beneficia o seu parceiro comercial em seu detrimento, mas beneficia a ambos, e dão as costas para o protecionismo de “mendigar ao próximo” e viram economias abertas que (como os economistas clássicos observaram) deixam todo o mundo mais rico e que (como os cientistas políticos mostraram recentemente) desencorajam guerras e genocídios. Países beligerantes abaixam suas armas e dividem os dividendos da paz ao invés de buscar vitórias pírricas.

 

Admito que algumas interações humanas são realmente de soma zero — competições por parceiros é um exemplo biologicamente saliente. E até em jogos de soma positiva um partido pode buscar uma vantagem individual à custas do bem-estar comum. Mas uma consciência plena dos riscos e custos da estrutura teórica dos jogos de uma interação pode (particularmente se é repetida, de modo que a tentação de buscar uma vantagem numa rodada pode ser penalizada quando os papéis são trocados na próxima) militar contra várias formas de explorações míopes.

 

Uma crescente consciência da qualidade de soma zero ou não-zero das interações nas décadas desde 1950 (seja referida nestes termos ou não) realmente levou a um aumento de paz e prosperidade no mundo? Não é implausível. O comércio internacional e a afiliação a organizações internacionais decolaram nas décadas em que o pensamento de teoria dos jogos infiltrou o discurso popular. E, talvez não por coincidência, o mundo desenvolvido viu tanto um crescimento econômico espetacular quanto um declínio sem precedentes históricos em várias formas de violência institucionalizada, tais como guerras entre grandes potências, guerras entre estados abastados, genocídios e tumultos étnicos letais. Desde os anos 1990, estas dádivas começaram a se acumular no mundo em desenvolvimento também, em parte porque trocaram suas ideologias fundamentais das que glorificam lutas de soma zero entre classes e nações para as que glorificam a cooperação de soma positiva no mercado (todas estas afirmações podem ser documentadas a partir da literatura em estudos internacionais).

 

Os efeitos enriquecedores e pacificadores da participação em jogos de soma positiva precedem em muito a consciência contemporânea do conceito. Os biólogos John Maynard Smith e Eörs Szathmáry argumentaram que uma dinâmica evolutiva que cria jogos de soma positiva conduziu as principais transições na história da vida: a emergência dos genes, dos cromossomos, das bactérias, das células nucleadas, dos organismos, dos organismos que se reproduzem sexuadamente e das sociedades animais. Em cada transição, agentes biológicos se introduziram em totalidades mais amplas nas quais eles se especializavam, permutavam benefícios e desenvolviam salvaguardas para impedir que um explorasse o resto em detrimento da totalidade. O jornalista Robert Wright esboçou um arco similar em seu livro Não Zero, A Lógica do Destino Humano e o estendeu para a história distante das sociedades humanas. Um reconhecimento explícito entre as pessoas cultas da abstração abreviada “jogo de soma positiva” e seus parentes podem estar estendendo um processo no mundo das escolhas humanas que tem operado no mundo natural há bilhões de anos.

 

 

Autor: Steven Pinker

Tradução: Luan Rafael Marques

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Este estudante de filosofia está extremamente interessado e esperançoso pelas crescentes ciências da mente. Ele acredita que podemos chegar ao consenso pelo diálogo racional e superar nossos vários tribalismos. Ele também acredita que um grande passo nessa direção é esclarecer sobre os fatos da nossa natureza e vieses, seguir o oráculo e conhecermo-nos a nós mesmos. A Rainha de Copas disse a Alice que conseguia acreditar em seis coisas impossíveis antes do café-da-manhã. Ele está quase lá.

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