Irracionalidade onipresente

 

Uma das mais importantes lições que a psicologia nos deu, senão a mais importante, é esta: a ignorância é nosso estado natural por direito. É o produto direto de como nossa mente trabalha. São toneladas de experimentos realizados no correr das últimas décadas confirmando de forma exaustiva que as pessoas raciocinam mal. Mostram-se em geral incompetentes em avaliar argumentos, realizar inferências válidas, examinar evidências e distinguir o relevante do irrelevante na análise de uma questão. Fazem pouquíssima questão de checar a consistência das notícias e a qualidade da informação que recebem e propagam a rodo (vide a interminável enxurrada de compartilhamentos de informações duvidosas nas redes sociais). Também são péssimas em considerar imparcialmente opiniões que as desagradam, além de encontrarem consensos onde eles jamais existiram. Manipulam informações a seu favor, evitando aquelas que ameaçam seus pontos de vista, e como se não bastasse, são demasiado refratárias a críticas, mesmo quando são claramente corretas. Assim persistem teimosamente em seus pontos de vista quase sempre frágeis e mal elaborados, o que as torna muito ruins em revisar as próprias opiniões. Além de tudo, são crédulas e supersticiosas.

 

Como disse Elizabeth Kolbert em seu recente artigo no The New Yorker, se nos anos 70 a afirmação de que as pessoas não sabem pensar direito soava chocante, já não é mais.  Atualmente qualquer pós-graduando com uma prancheta na mão pode demonstrar que pessoas aparentemente razoáveis são passíveis de falhas cognitivas gritantes.  Mesmo hoje, com todas as oportunidades de correção de erros proporcionadas por um acesso à informação sem precedentes na história, as pessoas perseveram heroicamente no engano e na crendice. 

 

Para se ter uma ideia, até então foram identificados e classificados mais de 180 tipos de vieses cognitivos (preconceitos, se preferirem) que afetam de forma sistemática nosso julgamento, atenção, memória, tomada de decisão e comportamento social. Veja bem, não são 10, nem 20 nem 40 não. São 180!

 

TÁTICAS PARA DIMINUIR NOSSA PALERMICE

 

A pior tragédia é que a racionalidade tem limites enquanto a irracionalidade não. O que fazer perante essa realidade inconveniente? Adiante apresento algumas estratégias inspiradas na literatura atual em raciocínio motivado e vieses cognitivos para aprendermos a liberar um pouco mais nosso pensamento de suas armadilhas típicas.

 

Admitir nossos vícios

 

O primeiro passo é reconhecer que os seres humanos são tolos, e que sempre será assim. Essa realidade nunca irá mudar, pode apenas ser atenuada. Preconceitos, vieses, dissonâncias e racionalizações estarão atrelados ao gênero humano até o dia de nossa extinção — que provavelmente vai acontecer. Sempre haverá pessoas cometendo tolices, e numa escala mais ampla, quem queira subtrair direitos de uns, anular a liberdade de outros, aniquilar politicamente um grupo, alimentar a desigualdade, semear o antagonismo e a ameaçar a harmonia. E essas infâmias têm como base aquelas centenas de dispositivos psicológicos de ilusão e autoengano, como dito acima. Por isso — e isso faz parte de nossa estratégia — a vigília deve ser constante. Em resumo, admitir a doença é o primeiro passo em direção a seu tratamento, mesmo se tratando de uma doença crônica, como a ignorância.

 

Entender os motivos

 

O próximo passo é entender por que somos assim. Os chamei de dispositivos de autoengano, e de um ponto de vista ontogênico bem que são isso mesmo, mas filogeneticamente, aqueles preconceitos arquetípicos que mencionei antes resultam de estratégias adaptativas que acumulamos enquanto lidávamos com problemas de sobrevivência mais primitivos e menos complexos que os problemas sociológicos que temos de enfrentar hoje.

 

Nossa mente foi desenhada de tal maneira que pudesse tomar uma série de atalhos cognitivos, deixando lacunas e pontos cegos ou soltos para que fosse possível adiantar o julgamento e a tomada de decisão num ambiente onde pensar demais e cometer erros poderia ser fatal. Não havia tempo para argumentar ou fazer observações sistemáticas. Decidir que a moita sacudindo escondia um predador à espreita aumentava as chances de sobrevivência e reprodução de nossos antepassados, mesmo que a melhor explicação para o evento fosse o soprar da brisa.

 

Em suma, os mesmos mecanismos de automação da ação e pensamento que causam imensos prejuízos no mundo moderno, foram cruciais a nossa sobrevivência num passado ancestral, mas dado que compõem nossa estrutura ontológica, modificar contextos socioculturais não pode anulá-los, embora possa domá-los. Dito isto, o melhor é assumirmos esses antigos companheiros, que num passado imemorial impediram que perecêssemos.  Deixá-los debaixo do tapete nos poupa da vergonha de assumir o que somos, mas também impede que os expliquemos, e que sejam mantidos sob controle, debaixo de nossa supervisão consciente.

 

Abertura à atualização

 

Um conselho vindo da economia comportamental é que não vale a pena evitar ativamente informações potencialmente relevantes para nossa vida intelectual, social, profissional ou para nossa saúde, mesmo quando essas informações abalam nossa estabilidade interna, por exemplo, desafiando crenças e valores caros a nós.

 

Gerenciar as emoções

 

É comum dizer por ai que para pensarmos bem precisamos deixar as emoções de fora. Isso nem é necessário nem é possível. As emoções não levam necessariamente a pessoa a perder o controle sobre a razão, é a inabilidade de geri-las que o faz. O problema não está nas emoções, mas no desequilíbrio emocional. Razão e emoção não só não têm de ser inimigas como também parece verdadeiro que na ausência de qualquer emoção a razão seria estéril e inamovível.

 

A propósito, as emoções são a estratégia básica que a natureza escolheu para garantir que tomássemos decisões certas em tempo hábil. Todavia, não convém deixar que as emoções erradas (ou uma dose inadequada delas) sabotem o processo de deliberação.

 

Quando nos expomos a críticas a nossas crenças e valores nucleares, a manifestação de emoções negativas é difícil de ser evitada, e nessas ocasiões é importante gerir a situação com mais frieza. Deixar se consumir por emoções negativas ou desproporcionais nos tira valiosas chances de revisar nosso modelo de mundo e corrigir nossos erros, além de atrapalhar a compreensão correta das ideias em disputa. As táticas subsequentes poderão facilitar a obtenção de autocontrole emocional.

 

Habituar-se ao contraditório

 

Sem se acostumar a processos de conflito intelectual o indivíduo não progride no pensamento crítico. É imperativo que nos engajemos em espaços mais instáveis de interlocução e troca de ideias, valorizando as melhores opiniões que põem a nossa em xeque, e então avaliar se ela sobrevive ou se necessita de revisão.

 

Desnecessário dizer que não proponho que consideremos a sério todo tipo de adversário ou contraposição. É importante que sejamos seletivos em relação aos espaços de discussão que frequentamos.

 

Pensando agora em proporções mais amplas, seria fundamental que as instituições tradicionais, como escola, universidade e família, incorporassem com naturalidade esse tipo de dialética, habituando as pessoas a se inserirem com mais frequência em atividades inconsistentes com a identidade e visão de mundo delas, e assim predispondo-as a reagir com mais naturalidade em face de potenciais refutações. Isso pode promover relações de interlocução, ensino e aprendizagem de maior eficiência e qualidade. 

 

Não demonizar os oponentes

 

Demonizar oponentes intelectuais ou políticos é duplamente ineficaz. Primeiro, porque taxá-los de monstros não é persuasivo, do ponto de vista deles. O efeito mais acertado é que rejeitem nossas ideias com mais fervor. Segundo porque ao demonizar nossos adversários tendemos a desumanizá-los, a vê-los como um cancro a ser eliminado. Quando as coisas chegam nesse ponto o diálogo perece para sempre e o ódio toma conta.

 

É verdade que ninguém é de ferro. E cá pra nós, alguns sujeitos merecem levar uns esporros mesmo (haters e trolls, por exemplo). Mas é importante que essa não seja a nossa atitude padrão em situações de conflito intelectual e político.

 

Desvincular nossas crenças de nossa identidade

 

De certo modo nossa identidade é composta por nossas crenças mais enraizadas. Entretanto é importante separarmos um pedaço de nós do resto de nossas crenças, preconceitos e valores. Não podemos perder de vista que assistir a uma crença nossa sendo aniquilada por provas não pode equivaler a assistir a nossa própria aniquilação. Nesse sentido, uma técnica psicoterápica chamada desfusão cognitiva[1] pode ser útil. Ela consiste num exercício metacognitivo no qual isolamos um pensamento, como se pudéssemos assisti-lo de fora, na condição de um telespectador imparcial. Isso pode nos ajudar a entender que nossos pensamentos não fazem parte de nós, e a notar como muitos deles podem ser infantis e mal fundamentados.  

 

Resistir ao gregarismo

 

Também é interessante conter nosso impulso gregário para se identificar com grupos, instituições e sistemas de ideias. Uma identificação muito forte com um grupo ou sistema de pensamento acaba por nos tornar tribais e dogmáticos. 

 

Mais responsabilidade em relação ao que compartilhamos

 

A responsabilidade na gestão da informação é hoje uma das mais importantes iniciativas éticas que podemos tomar em tempos de redes e mídias sociais. Para tornar o processo de responsabilização mais fácil é importante sondarmos os sentimentos que acompanham as notícias de que gostamos e as de que não gostamos. Como dito, emoções negativas costumam se ativar quando nos deparamos com fatos e notícias contrárias a nossas ideologias de estimação. E isso pode fazer com que negligenciemos o potencial de ideias que a princípio possam nos parecer absurdas ou tolas.

 

Igualmente, a sensação positiva que acompanha notícias e informações que condizem com nossas crenças pode turvar nossa percepção para possíveis falhas dessas fontes ou nos levar a superestimar sua solidez.

 

Policiar as emoções e tentar desvincular sentimentos desproporcionais de noticias e informações delicadas pode nos proporcionar o distanciamento epistêmico necessário para sermos mais responsáveis com o que compartilhamos ou damos nosso assentimento.  

 

Vacinar-se contra falsas notícias

 

Em complemento à tática anterior, menciono uma promissora forma de combate a falsas notícias, que consiste em nos “vacinarmos” contra a desinformação. Experimentos bem conduzidos têm mostrado que expor as pessoas a versões mais brandas das estratégias de enganação disseminadas nas mídias sociais cria resistências cognitivas poderosas contra notícias fraudulentas. Para que a inoculação do antídoto psicológico seja bem sucedida, as doses brandas de desinformação precisam ser administradas junto com advertências sobre a ação de grupos politicamente motivados que se especializam em difundir confusão pelas novas mídias. Esse processo deixa a pessoa em estado de alerta cognitivo e funciona melhor do que apenas expô-las frigidamente a argumentos e fatos científicos, além de ser uma arma eficiente contra a atual onda de negação da ciência.

 

Selecionar formas eficazes de transmissão de informação

 

Outra recomendação valiosa dos especialistas em economia comportamental é que bombardear as pessoas com informações é ineficaz. E se as informações forem hostis à visão de mundo delas o efeito é ainda pior. O ideal é buscar estratégias inteligentes para transmitir informações intempestivas. 

 

Uma boa estratégia é verificar nossas próprias reações emocionais a informações desafiadoras e então imaginar como elas poderiam ser transmitidas a nós por terceiros mediante rotas mais fluidas. A ideia é que usemos “lubrificantes retóricos” (no sentido não pejorativo de “retórico”) quando vamos propor ideias desafiadoras ou objeções.

 

A proposta não é poupar as pessoas do incômodo de ver suas opiniões refutadas. Se todos aprendessem a seguir as táticas anteriores dificilmente haveria tanta cólera e rancor nas discussões públicas. Mas enquanto isso não acontece convém buscarmos táticas mais criativas e eficientes de persuasão.

 

Acostumar-se a pensar e a aprender

 

Por fim, um clichê. Jamais deixe de exercitar o pensamento crítico e sistemático. E nunca deixe de suplementar esse pensamento com informação de qualidade.

 

Concluindo…

 

Esses conselhos não nos transformarão em agentes idealmente racionais, mas poderão reduzir nossa incompetência congênita, tornando mais fácil que avaliemos ideias e informações de maneira mais imparcial, e permitindo que revisemos nossas crenças e valores com menos pesar. O cultivo do pensamento crítico e sistemático é fundamental. Quanto mais pessoas pensando criticamente, maior é a qualidade das interações humanas e das instituições e escalas de valores que dão forma a nossa sociedade.


[1] Obviamente, a técnica é mais sistemática. Aqui proponho apenas a aplicação livre e assistemática de seu principio geral.

 

 

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