Há relações entre a prática de mindfulness e mudanças cerebrais?

Fonte: https://goo.gl/46LdBZ

 

Nos últimos anos tem havido um crescente interesse em práticas de meditação, tanto ao nível social, quanto psicológico e científico. Entre as muitas práticas meditativas, a prática da mindfulness (atenção plena) parece ser a que tem recebido mais atenção.

 

Se você pensar sobre isso, todos nós já realizamos a atenção plena em mais de uma ocasião, mesmo sem perceber. Nas ocasiões em que somos conscientes do que estamos fazendo, pensando ou sentindo, estamos praticando essa técnica. Mas, na verdade, o que é mindfulness?

 

O QUE É MINDFULNESS?

 

Jon Kabat-Zinn, um dos pais da utilização clínica da mindfulness no ocidente, sugere que ela é simplesmente “parar e estar presente, isso é tudo”. De um ponto de vista científico, a prática pode ser definida como um estado em que a pessoa pode manter seu foco em um objeto por um período teoricamente ilimitado de tempo.

 

OS COMPONENTES DA TÉCNICA

 

Mindfulness possui dois componentes. Um deles é poder prestar atenção à experiência imediata (característica fundamental da atenção plena, fazendo o reconhecimento dos acontecimentos corporais, sensoriais e eventos mentais). O segundo componente consiste em viver as experiências momentâneas com curiosidade, abertura e aceitação.

 

COMO PRATICAR MINDFULNESS?

 

A técnica mais utilizada, a princípio, consiste em concentrar a atenção na respiração, e quando a mente se afastar desse foco de atenção, de maneira suave direcioná-la novamente. É importante manter uma postura adequada, a fim de evitar desconfortos e dores corporais que irão atrapalhar o andamento do exercício. A postura mais conhecida é chamada de lótus, que consiste em manter uma postura na qual as pernas estarão cruzadas sobre as coxas, logo acima dos joelhos. Essa posição é a melhor pois consegue manter o corpo estabilizado. Caso você não consiga executar essa posição logo de início, não se preocupe, a posição meio-lótus é recomendável, consistindo apenas em um pé colocado sobre a coxa, enquanto o outro se encontra sob a outra. Caso ainda haja dificuldades, recomenda-se o uso de cadeiras ou banquinhos. O importante é que você consiga se adaptar da melhor maneira possível. Para mais informações acesse este link do Templo Zu Lai e este vídeo do lama budista brasileiro, Padma Samten, onde ele introduz a técnica.

 

Exercício simples de atenção plena.
Fonte: https://www.iniciativamindfulness.com.br/oque

 

QUAL A RELAÇÃO ENTRE PRÁTICA MEDITACIONAL E SAÚDE MENTAL?

 

Um aspecto importante é que a prática da atenção tem sido associada a vários indicadores de saúde, tais como apresentação de níveis mais baixos de sentimentos negativos e sintomas psicopatológicos, maior vitalidade e um melhor equilíbrio do sistema nervoso autônomo. Esse maior equilibro possibilita a utilização da prática no tratamento de diferentes desordens.

 

Da mesma forma, através da prática mindfulness, pode-se melhorar a atenção e concentração, o que pode ser muito benéfico para pacientes que estão em atendimento psicoterapêutico. Existem diferentes técnicas terapêuticas em que as práticas de meditação incluem, por exemplo, redução do estresse com base em atenção plena. Exemplos de terapias que utilizam dessas técnicas são a terapia cognitiva baseada na atenção plena, a terapia de aceitação e compromisso e a terapia comportamental dialética.

 

Outros efeitos positivos subjacentes da atenção plena, além do controle já mencionado de atenção, seria uma maior consciência das experiências externas e internas, e uma menor reatividade contra essas experiências, logo é possível alcançar uma melhor regulação emocional e maior flexibilidade psicológica.

 

QUAIS MUDANÇAS CEREBRAIS OCORREM POR TRÁS DA PRÁTICA DE MEDITAÇÃO?

 

Tendo em conta os benefícios discutidos, a visão neurocientífica quer responder as perguntas sobre quais alterações cerebrais vem acompanhadas a partir da prática, sejam elas alterações anatômicas ou funcionais. Assim, numerosos estudos nos últimos anos concordam que a prática da atenção está relacionada a mudanças em três estruturas básicas: o córtex cingulado anterior (CCA), a ínsula (INS) e o córtex pré-frontal (CPF).

Lembrem-se destas siglas, pois será essencial para o entendimento do texto.

 

Vamos nos concentrar, em primeiro lugar, na relação entre a mindfulness, a atenção e o CCA. Um dos primeiros estudos que analisaram esta relação foi feito por Lazar et al. (2000). Mediante ressonância magnética funcional (fMRI), os estudos mostraram como era a atividade cerebral de pessoas que meditavam durante um longo período de tempo, enquanto concentravam suas atenções em construir nomes de animais. Os autores do estudo encontraram conexões nervosas ativas em diferentes áreas do cérebro, entre elas no CCA.

 

A partir desse momento, diversos seriam os trabalhos em que o CCA estaria destacado como área de interesse em pesquisas envolvendo meditação. Um exemplo é o trabalho de Hölzel et al. (2007), que comparou a atividade cerebral de meditadores especialistas e indivíduos saudáveis ​​em duas condições: prestar atenção à respiração enquanto realiza operações aritméticas mentais. Ao comparar essas condições, eles observaram que durante a condição de atenção à respiração, os meditadores especialistas mostraram aumento de ativação no CCA frontal e CPF dorsomedial. Desta forma, podemos pensar que o maior nível de treinamento da mente e, portanto, maior formação de atenção, torna a atividade do CCA maior.

 

No entanto, Brefczynski & Lewis et al. (2007) fizeram a comparação de meditadores de larga e média duração e observaram que os meditadores de larga duração exibiam uma menor ativação no CCA em comparação aos de média duração. Então, em um determinado ponto da experiência, quando a capacidade de se esforçar para prestar atenção é menor, a atividade do CCA é diminuída também. Além disso, eles também observaram alterações na estrutura do CCA, mesmo com práticas de curta duração. Após oito semanas de prática diária, observaram-se alterações em várias estruturas que se encontram no CCA posterior.

 

Quanto à relação entre a meditação, consciência corporal e ínsula, um dos estudos mais importantes é o de Farb et al. (2007). Nesse estudo, eles compararam a atividade cerebral de indivíduos sem experiência anterior com sujeitos que tinham concluído um curso de mindfulness de oito semanas. Os resultados indicaram que os sujeitos que tinham recebido o curso mostrara aumento de atividade no INS e córtex somatossensorial secundário. Por outro lado, vários estudos têm refletido sobre uma maior espessura cortical e uma densidade mais elevada de matéria cinzenta na insula em meditadores de longo prazo.

 

Fonte: http://www.yogasampa.com.br/wp-content/uploads/2015/10/cerebro-na-meditacao.jpg

 

Se você olhar para o CPF, entra em jogo a relação entre meditação e regulação das emoções. Na verdade, existem vários estudos sobre o papel do CPF e regulação das emoções. Por exemplo, Creswell et al. (2007) encontraram uma conectividade funcional reduzida entre o CPF e a amígdala em meditadores que realizaram uma tarefa de reconhecer rostos, quando comparados com indivíduos que não praticam a meditação. Esse resultado pode estar relacionado ao fato de que as pessoas que praticam meditação são capazes de reter algum grau de distanciamento da experiência emocional, considerando os estados emocionais como “objetos” de atenção, e não como realidades. Outros autores obtiveram resultados semelhantes, no entanto, Goldin et al. (2010), consideraram a amígdala como o centro principal para regular emoção e observaram uma redução na estrutura depois de um treino na redução da ansiedade através de técnicas de meditação.

 

VALE A PENA PRATICAR MEDITAÇÃO?

 

Em suma, a prática da mindfulness – prestar atenção para o momento presente sem julgá-lo -, é acompanhada por vários benefícios psicológicos e de saúde. Estes benefícios estão relacionados com mudanças na atividade e estrutura do cérebro, especialmente no córtex cingulado anterior (melhor controle da atenção), ínsula (melhoria da consciência corporal) e córtex pré-frontal (melhoria na regulação emocional).


Nota do tradutor: A autora do texto original não fez a distinção entre “meditação” e “mindfulness”. De um maneira geral, mindfulness é meditação, mas meditação não é mindfulness. Algumas fontes sugerem que meditação indiana difere da meditação budista (sentido usado pela autora). A prática de meditação descrita, então, pela autora, é a que chamam de “meditação ao estilo americano”, ou seja, uma prática que visa o treino mental para se obter os benefícios dessa prática [descritos no texto].

 

 

Autora: Xisca Rosselló Muntaner é psicóloga da saúde e doutora em neurociência.

Tradução: Vinicius Vanso.

Veja o artigo original aqui.

Este artigo contém informações adicionadas pelo tradutor.

Sou estudante de psicologia, tenho 20 e tantos anos. Já quis ser arqueólogo e astrônomo – talvez ainda gostaria de ser. Despertei meu interesse por ciência na infância quando preferia desmontar os brinquedos, ao invés de brincar com eles. Nas horas vagas gosto de conversar sobre a vida, o universo e tudo mais. Acredito que ficarei mais contente com a minha vida se puder ser metade do homem que Carl Sagan foi.

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