Exercícios de treino cerebral só te fazem melhor em exercícios de treino cerebral

 

Se você gastar tempo na academia aperfeiçoando sua força física e vigor, você pode esperar que estes benefícios se mostrem na sua vida cotidiana. Será mais fácil carregar sacolas de compras pesadas e correr para pegar o ônibus. Você, possivelmente, irá reduzir suas chances de desenvolver doenças cardiovasculares, dentre outras. Uma nova revisão de jogos de treino cerebral na Psychological Science in the Public Interest – a mais compreensiva já realizada – mostra que, infelizmente, o mesmo princípio não se aplica para estes jogos. Quando você gasta tempo completando exercícios mentais no seu celular ou computador, você provavelmente irá ficar melhor somente nestes exercícios ou tarefas muito similares. As evidências disponíveis no momento sugerem que você provavelmente não verá melhorias em sua performance na escola ou trabalho, nem mesmo reduções nas suas chances de experienciar declínio mental graças à idade.

 

Jogos comerciais de treino cerebral, que envolvem tarefas de memória simples, atenção e tempo de reação que ficam progressivamente mais difíceis na medida em que você fica melhor, são imensamente populares. Tanto que o negócio se tornou em uma indústria de milhões de dólares e que em alguns anos chegará na casa dos bilhões de dólares. As pessoas são atraídas por estes jogos como uma maneira divertida e conveniente de incrementar não somente seus poderes cerebrais, mas também – e como prometido pelos produtos – a saúde dos seus cérebros e o seu sucesso na vida.

 

Mas, em 2014, um grupo de mais de 70 especialistas, psicólogos e neurocientistas, assinaram uma carta aberta alertando que as empresas de treino cerebral, tais como Lumosity, Posit Science e Cogmed, estavam fazendo alegações infladas sobre os benefícios dos seus produtos, especialmente em relação à prevenção de demência ou reversão do declínio mental associado ao envelhecimento. Isto levou grupo rival e maior de especialistas e praticantes a retrucar em uma outra carta aberta, que defendia que a evidência a favor dos jogos era convincente e cada vez maior. Por último, em Janeiro deste ano (2016), a U.S. Federal Trade Comission multou a Lumos Labs (os desenvolvedores do treino cerebral Lumosity) no valor de 2 milhões de dólares por fazerem alegações não fundamentadas quanto aos benefícios de seus produtos.

 

Quando a opinião de especialistas está dividida desta forma, é difícil de saber em quem acreditar. Este é o motivo pelo qual esta nova revisão é tão oportuna e importante. Ela representa um significante avanço por diversas razões. Alongando-se por 84 páginas e incluindo interpretações e avaliações críticas de todos os 374 estudos publicados que já foram ao menos uma vez citados em apoio aos benefícios do treino cerebral, esta revisão é certamente compreensível.

 

Ela também é objetiva. Os revisores, liderados por Daniel Simons da University of Illinois at Urbana Champaign, definiram os padrões de melhor prática para a avaliação de intervenções com treinos cerebrais – garantindo testes de performance de linha de base, alocando participantes aleatoriamente em treinos cerebrais de tamanho adequado e grupos de controle ativo, pré-registrando o design, dentre outras coisas – para então avaliar a literatura atual através deste padrão estabelecido. Simons e seus seis colaboradores (todos psicólogos) também não têm nenhum conflito de interesse para com qualquer resultado da revisão.

 

O veredito em que chegaram é forte. Simons e colaboradores descobriram que várias das evidências publicadas é de baixa qualidade, porque, por exemplo, houve falta de condições de controle adequadas para a comparação dos benefícios do treino cerebral, além de falhas na mensuração objetiva de quaisquer benefícios na vida real. A área, como um todo, também tem comumente falhado em tentar controlar o efeito das expectativas dos participantes (de que eles irão experienciar benefícios após completar o treino cerebral).

 

Os pesquisadores destacam e dão créditos ao experimento ACTIVE (Advanced Cognitive Training for Independent and Vital Elderly – “Treino Cognitivo Avançado para Idosos Independentes e Vigorosos”, em tradução livre) pelo seu rigor metodológico, mas nem mesmo este experimento alcançou todos os melhores requerimentos para a investigação de treinos cerebrais. No geral, Simons e colaboradores concluíram que a evidência de que o treino cerebral leva a benefícios no mundo real, isto é, que extrapolem os ganhos nos próprios exercícios cerebrais, é “inadequada”.

 

Os pesquisadores explicam que isto provavelmente se deve ao fato dos exercícios mentais envolvidos em jogos de treino mental são “descontextualizados”. Melhorar nossas habilidades mentais tais como são aplicadas em contextos no mundo real requer prática e experiência naqueles domínios específicos. Uma pessoa que gasta muitas horas em jogos de treino cerebral, mas nunca se envolve em nenhum desafio no mundo real é como o pupilo de karatê que pratica todos seus movimentos sozinhos no dojô. Aí dele se algum dia se encontrar em uma luta de verdade. “Nós não conhecemos nenhuma evidência para melhorias amplas na cognição, conquistas acadêmicas, performance profissional, e/ou competências sociais que sejam derivadas de práticas descontextualizadas de habilidades cognitivas que são de conteúdo próprio de um domínio específico”, dizem os revisores.

 

Qual conselho Simons e seus colaboradores têm para os consumidores? Jogos de treino cerebral provavelmente não te farão nenhum mal, exceto, talvez, no seu bolso. Mas é valioso lembrarmos que tempo gasto nos jogos é tempo que você poderia gastar fazendo algo mais benéfico, como por exemplo, e citando Simons et al, “… aprendendo coisas que provavelmente irão melhorar sua performance na escola (e.g., ler; desenvolver conhecimento e habilidades em matemática, ciência ou artes), no trabalho (e.g., atualizar seu conhecimento de conteúdos e padrões de sua profissão), ou em atividades que são de alguma forma prazerosas”.

 

Este não é o fim da história – é possível que pesquisas futuras mostrem novas evidências que sejam mais favoráveis ao treino cerebral. A revisão fornece alguns conselhos para que pesquisadores conduzam experimentos de melhor qualidade no futuro (se eles irão atrair os fundos necessários para fazer estas pesquisas é outro assunto) e Simons e colaboradores criaram um website aberto ao público no qual eles irão postar links para qualquer novo experimento sobre treino cerebral e publicar quaisquer erros que forem descobertos em suas análises da literatura atual.

 

 

Autor: Christian Jarrett

Tradutor: Jerônimo Gregolini Pucci

Texto originalmente publicado no Research Digest da BPS.

Meus principais interesses são Filosofia da Psicologia, Filosofia da Mente e Psicologia Experimental. Penso que a divulgação da ciência psicológica e dos campos da filosofia relacionados ao empreendimento científico em Psicologia é uma importante forma de se combater a pseudociência e os abusos pós-modernos dentro do cenário acadêmico de Psicologia no Brasil. Sou Psicólogo pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.
Amo video games e tenho um gosto peculiar para música.

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