Evolução: o homem é superior a todas espécies?

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Fonte: http://sorisomail.com/partilha/12605.html

 

A discussão está interessante, você e seus amigos discorrem sobre os enigmas do comportamento humano. Afinal, por que fazemos o que fazemos na frequência que fazemos? As chances de que essa discussão se direcione às áreas biológicas, especificamente “Darwin”, mais especificamente “seleção natural”, e muito mais especificamente “processo evolutivo”, são de uma probabilidade alta.  Até que um desses amigos inicia a afirmação: “nós, como espécie mais evoluída e superior (…)”. Bom, é sobre esses termos que quero tratar.

 

Para que a reflexão se torne possível, é necessário adotar alguns critérios para situar os seres humanos entre as variedades de vida no planeta e compreender de que modo a evolução é costumeiramente interpretada. Foley (1993) adota dois critérios, os quais considera fundamentais. O primeiro se refere à utilização de parâmetros para aferição de características biológicas com nossos parentes mais próximos na escala evolutiva, para que seja possível verificar se as diferenças são maiores das que ocorrem entre duas outras espécies quaisquer; o segundo critério baseia-se no desenvolvimento de uma cultura.

 

A seguir, discorreremos sobre evolução e sobre como este termo é equivocadamente entendido pelo senso-comum e muitas vezes no próprio meio acadêmico.

 

EVOLUÇÃO NÃO É SINÔNIMO DE SUPERIORIDADE

 

O senso comum comumente interpreta o termo evolução como “algo superior ao outro”. Até mesmo a transposição dos conceitos científicos para livros didáticos do ensino fundamental e médio sofre alterações que se apresentam na forma de erros demasiadamente grosseiros, sendo tratados de modo inconsistente e reducionista no que diz respeito à evolução (BELLINI, 2006).

 

Ao mesmo tempo em que essa ideia também se propaga nos âmbitos acadêmicos, conforme vejo, por exemplo, na Psicologia, é relativamente fácil levantar argumentos que reforçam essa lógica: somos os únicos a apresentar uma linguagem complexa, desenvolvemos tecnologias incríveis, somos capazes de pensar e resolver problemas complexos. Sim, são fatos pertinentes, e outros alongam essa lista: a flexibilidade comportamental e cognitiva da espécie humana, o tamanho do cérebro em relação ao corpo, o bipedismo, o altruísmo, uma linguagem que se estende a escrita, o desenvolvimento de uma cultura (HATTORI & YAMAMOTO, 2012), entre outras tantas habilidades que tornam tentador concluir que a espécie humana é superior, evoluída e especial.

 

Mas esses fatos passam a adquirir outro sentido na medida em que estendemos os estudos etológicos e morfológicos das outras espécies. Por exemplo, existe nas Ilhas Coulman, Antártica, uma espécie conhecida como pinguim imperador, que se reproduz a uma temperatura de -40ºC. No Himalaia há gansos que sobrevoam altitudes acima de 9.000 metros, respirando tranquilamente em níveis onde o oxigênio é quase nulo. No Saara, a formiga prateada consegue forragear (procurar alimento) em temperaturas acima de 50ºC. O rato-toupeira-pelado vive em escuridão completa em ambientes com pouco gás carbônico e muita amônia e dióxido de carbono, além de ter uma longevidade invejável se comparado a outras espécies de sua família, vivendo 30 anos, e ainda detém adaptações moleculares que o tornam imune ao câncer (JUBILUT, 2015).

 

Ao mesmo tempo em que a espécie humana possui uma vastidão de características funcionais, tornando possível a sobrevivência e outros atributos como a capacidade de refletir sobre tudo que há no universo, adaptar-se eficazmente à grande parte dos ambientes e modificar o próprio comportamento, nem tudo no homem é superior e evoluído. Há uma série de características desadaptativas, e muitas vezes dolorosas infelizmente, quando observadas a partir de seu valor funcional. A aquisição dessas características em um passado remoto permitiu acesso a novas formas que garantiram uma adaptação funcional do homem com o meio. Em contrapartida, hoje convivemos com uma série de consequências negativas dessas adaptações.

 

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Fonte: http://www.mundobiologia.com/2013/09/evolucao-da-especie-humana.html

 

Tomemos como exemplo os dolorosos problemas na coluna cervical advindas do bipedismo. O uso de duas patas para locomoção permite uma liberdade maior para o uso das mãos, alcance visual ampliado, domínio sobre uma série de ferramentas, entre tantas outras de uma vasta lista de funções. Mas a coluna cervical necessitou passar por um arranjo radical. Anteriormente, os ossos cervicais se organizavam na horizontal, mas a partir da prática do bipedismo, foi necessário um empilhamento dos ossos na vertical e o melhor modo para sustentar o peso foi distribui-lo em forma de S, o que permitiu que as áreas se auto sustentassem. No caso do animal humano, problemas como lordose e escoliose aparecem normalmente depois dos 50 anos, e com o aumento da estimativa de vida, este tipo de problema começa a ser tratado com mais frequência e aparece de modo mais visível nas populações (MORRIS, 1996). Eis, dentre muitas, uma das consequências adquiridas no processo evolutivo. Há outros exemplos bem desagradáveis advindos da nossa evolução, relacionados ao tamanho do cérebro, aos ossos maxilares, as funções psicológicas como o medo e ansiedade, que podem resultar em transtornos mentais, e assim por diante. Daremos continuidade a esses assuntos em textos posteriores.

 

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Fonte: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/06/150622_dores_smartphones_rm

 

Efetivamente, a evolução não é sinônimo de superioridade e, de maneira geral, termos como modificação gradual, variação genética e adaptação possuem um sentido mais acurado dentro da biologia evolutiva. Esses conceitos se referem a mecanismos naturais que controlam a evolução de forma universal, e estão ligados à história de toda diversidade de vida no planeta.

 

A seguir, discorreremos sobre o primeiro critério adotado por Foley (1993) para compreender o homem enquanto parte de um processo evolutivo: a similaridade genética.

 

BONOBOS, CHIMPANZÉS E O HOMEM

 

Pensar evolução a partir do prisma da superioridade reflete uma ideia que há muito tempo tem prejudicado os estudos das bases biológicas comportamentais: a ideia de que o ser humano é único (FOLEY, 1993). Entretanto, o desenvolvimento da genética molecular nos proporciona hoje uma compreensão consistente sobre a similaridade genética entre diferentes criaturas. Destaquemos os seguintes conjuntos gênicos: humanos, chimpanzés e bonobos. O sequenciamento de DNA nos grandes símios iniciou-se em 2005, primeiramente com chimpanzés, depois com orangotangos em 2011, e em seguida com gorilas em 2012. No final de 2012, o sequenciamento do último grande símio foi realizado, o do bonobo (PRUFER, et al., 2012).

 

São claras as diferenças morfológicas que observamos nessas espécies, no entanto, a partir das pesquisas realizadas, ficou evidente que a diferença média a nível nucleotídico é de 1,2% entre humanos/bonobos e humanos/chimpanzé, enquanto a relação entre bonobos/chimpanzés se estreitam em 0,4% (PRUFER, et al., 2012). Bonobos e chimpanzés detém repertórios comportamentais distintos, e parte de cada um desses repertórios comportamentais pode ser observada no repertório geral da espécie humana. Por conseguinte, a proximidade genética se dá tanto com bonobos, espécie considerada pacífica e pouco conhecida, quanto com chimpanzés, que são mais violentos e bem estudados atualmente. Daí que os cientistas têm considerado a espécie humana como um mosaico genético entre essas duas espécies (PRUFER, et al., 2012).

 

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Fonte: http://papodeprimata.com.br/comparacao-de-tamanho-entre-bonobos-e-chimpanzes/

 

As diferenças existentes nas espécies em questão, quando comparadas ao homem, se encontram nessas porcentagens de variação genética: linguagem, emissão de respostas comportamentais e cognitivas complexas, aculturamento, e muitas outras diferenças (HATTORI & YAMAMOTO, 2012; FOLEY, 1993).

 

Considerando os rumos desses estudos, o que eles têm elucidado e permitido observar sobre características morfofisiológicas complexas, assim como uma estrutura comportamental complexa,  a atribuição do adjetivo superior à espécie humana torna-se despropositada (GOULD, 1987).

 

CONCLUSÃO

 

Em conclusão, podemos dizer que a espécie humana é única, mas na mesma medida em que todas as outras espécies também são, considerando a árvore filogenética desde animais, passando pelas plantas e chegando às bactérias: estes são e devem ser tratados como únicos e exclusivos na natureza. A evolução adquire sentido inadequado quando tratada como sinônimo de superioridade, passando a ser pensada no formato de uma “escada”, em que no topo estão as espécies superiores. Além do mais, ao mesmo tempo em que detemos uma série de características funcionais que permitiram o aprimoramento das práticas de sobrevivência, muitas consequências negativas adquiridas ao longo desse processo evolutivo não possuem o mesmo valor que outrora detinham, sendo em sua maioria bem desagradáveis. Afinal, o ser humano, ou pelo menos grande parte da humanidade, não quer chegar aos 60 anos com dores e dificuldades motoras.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

BELLINI, L. M. (2006). Avaliação do conceito Evolução em livros didáticos. Estudos em Avaliação Educacional, 7(33), 10-20. Acesso em 20 de dez. de 2016, disponível em <file:///C:/Users/4865049/Downloads/conc%20evo.pdf>.

 

FOLEY, R. (1993). Apenas mais uma espécie única: padrões da Ecologia Evolutiva Humana. São Paulo: EduSP.

 

GOULD, S. J. (1987). Darwin e os enigmas da vida. São Paulo: Martins Fontes.

 

HATTORI, W. T., & YAMAMOTO, M. E. (2012). Evolução do Comportamento Humano: Psicologia Evolucionista. Estudos em Biologia, Ambiente e Diversidade, 101-112. Acesso em 15 de dez. de 2016, disponível em <file:///C:/Users/4865049/Downloads/bs-7323.pdf>.

 

JUBILUT, P. (2015). Vivendo em extremos. Website Biologia Total.

 

MORRIS, D. (1996). O macaco nu: um estudo do animal humano. (13 ed.). Rio de Janeiro: Record.

 

PRUFER, K., MUNCH, K., HELLMANN, I., AKAGI, K., MILLER, J. R., WALENZ, B., . . . WINER, R. (2012). The bonobo genome compared with the chimpanzee and human genomes. Nature, 482, 527-531.

Sou aluno de psicologia no 9º período. Já pensei em cursar biologia e um dia quem sabe faça alguma especialização na área. Dentro da psicologia, tenho interesse pelo modelo explicativo cognitivo-comportamental, neuropsicologia, psicologia evolucionista; e procuro unir isso com minha paixão por design. Tenho me direcionado às áreas de desenvolvimento de jogos para intervenções psicoterápicas, apesar de nunca ter sido um jogador de games na minha adolescência, a não ser pela longas horas com um minigame preto jogando tetris. As inovações tecnológicas tem permitido a alteração de várias práticas sociais e educacionais, e acredito que a psicologia deve ser apropriar desses conhecimentos para progredir no seu objetivo de instituir-se como ciência. Quero visitar a NASA. Vou curtir e olhar Dragon Ball até morrer.

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