Estratégias de enfrentamento na Terapia Cognitivo-Comportamental

 

Estratégia de enfrentamento, ou na língua inglesa, coping, é um conjunto de esforços cognitivos e comportamentais para lidar com demandas externas e/ou internas específicas. Essas demandas são entendidas como situações estressantes, pois acabam excedendo os recursos que a pessoa possui para enfrentá-las. A estratégia de enfrentamento caracteriza-se como um processo, pois muda de acordo com o contexto, ou seja, o sujeito irá apresentar diferentes estratégias de enfrentamento de acordo com a demanda contextual. Além disso, ela é adquirida por meio da aprendizagem, isto é, através das experiências vividas pelo sujeito (LAZARUS, FOLKMAN, 1984; NUNES, 2010).

 

A pessoa ao utilizar uma estratégia de enfrentamento tem como objetivo administrar a situação estressora, diminuindo os danos pessoais, emocionais e sociais que são causados por ela. Desta forma, as estratégias de enfrentamento não podem ser confundidas com seus resultados, isto é, elas são analisadas independentemente de quão bem ou mal funcionam. Por exemplo, a pessoa não consegue ter um sono reparador por dias consecutivos e resolve ingerir medicamentos para conseguir dormir. Esta foi a estratégia de enfrentamento utilizada por ela em uma situação avaliada como estressora, se fosse analisada pelo seu resultado poderia não ser a melhor opção, porém, a estratégia de enfrentamento independe disto. Logo, as estratégias de enfrentamento não podem ser avaliadas como adaptativas ou mal adaptativas (LAZARUS, FOLKMAN, 1984; NUNES, 2010). Então, o que a terapia cognitivo-comportamental pode fazer para que as pessoas consigam diminuir o sofrimento causado por uma situação estressora?

 

Primeiramente, é necessário entender que há duas categorias de estratégias de enfrentamento, uma direcionada à emoção e a outra direcionada ao problema (FOLKMAN, LAZARUS, 1980). O foco na emoção significa a regulação emocional que a pessoa realiza diante de um evento estressor, como por exemplo, a pessoa que geralmente fica muito ansiosa ao apresentar trabalhos escolares em público, mas encontrou uma estratégia para regular tal emoção, realizando um relaxamento com foco na respiração antes de apresentar os trabalhos.

 

 

Já o foco no problema, consiste em controlar ou alterar a relação pessoa-ambiente, que é a própria fonte de estresse (FOLKMAN, LAZARUS, 1980). Dessa forma, a estratégia de enfrentamento pode ser direcionada tanto para uma fonte interna de estresse quanto uma fonte externa. Por exemplo, uma pessoa diagnosticada com dor crônica, poderá focar sua atenção em outras atividades e não pensar apenas na dor (fonte interna) e ao mesmo tempo realizar exercícios físicos (fonte externa), pois as dores a impossibilitam de trabalhar. De acordo com Lazarus e Folkman (1984), as estratégias de enfrentamento focadas na emoção e no problema, são utilizadas em conjunto durante as situações estressoras. Logo, há como utilizá-las de forma que facilitem ou impeçam o processo de enfrentamento.

 

Com um ponto de vista voltado mais para a abordagem comportamental, Torres e Coelho (2004) utilizam o termo habilidades de enfrentamento e revelam a importância de a pessoa desenvolver um repertório de habilidades de enfrentamento. Isso porque, ao utilizar um comportamento considerado adequado para um determinado evento estressor, e consequentemente este comportamento ou resposta trazer menores prejuízos ao sujeito, conclui-se que a implementação de habilidades de enfrentamento pode levar à eliminação de respostas de fuga, além de uma maior percepção de autocontrole e de enfrentamentos eficazes.

 

Donald Meichenbaum (2017), um dos fundadores da terapia cognitivo-comportamental, desenvolveu o treinamento de inoculação de estresse (SIT). Ele consiste em ensinar às pessoas estratégias para lidar com o estresse, ocorrendo de forma preventiva, ou seja, as estratégias são ensinadas para serem aplicadas antes do evento estressante. Na abordagem SIT, o conceito de inoculação assemelha-se à função de uma vacina na medicina, pois a vacina expõe o indivíduo de uma forma mais moderada a uma doença para posteriormente evitar reações mais severas, fortalecendo o corpo deste indivíduo com a produção de anticorpos. Da mesma forma ocorre com o treinamento de inoculação de estresse, inocular seria o mesmo que proteger o indivíduo de futuras situações estressoras, expondo o mesmo a estressores menores, preparando ele psicologicamente.

Donald Meichenbaum

 

Meichenbaum acredita, assim como Lazarus e Folkman, que o estresse faz parte de um processo no qual uma demanda ou situação acaba sendo estressante por exigir recursos além do que o indivíduo pode oferecer. Além disso, o processo do estresse também se caracteriza como uma relação entre a avaliação cognitivo-afetiva e as atividades de enfrentamento utilizadas pelo indivíduo. O estresse não acontece isolado no meio ambiente nem é somente percebido pela pessoa, mas apresenta-se como bidirecional, ou seja, uma relação que parte tanto da pessoa quanto do meio.

 

O treinamento de inoculação de estresse que leva consigo os princípios teóricos da terapia cognitivo-comportamental, foi empregado por Meichenbaum em indivíduos irritados e agressivos, com o objetivo de controlar suas emoções e comportamentos em situações estressantes. Foram aplicados os seguintes procedimentos: educação psicológica (aprender aspectos positivos e negativos da raiva); o impacto da raiva; os fatores de risco que podem aumentar a raiva, como o álcool e o próprio estresse; formas de regular as emoções e quebrar o ciclo desencadeador, formado por pensamentos, sentimentos e comportamentos. Um ideal proposto por Meichenbaum é que os indivíduos irritados avaliam os eventos de forma mais negativa, mas se puderem enxergá-los como problemas a serem resolvidos em vez de ameaças pessoais, logo um repertório mais adaptativo pode ser desenvolvido.

 

Portanto, as estratégias de enfrentamento aplicadas em uma situação estressante pelo indivíduo, podem ser as mais variadas possíveis, pois irão depender do contexto em que a situação ocorre, características do evento estressor, do histórico de aprendizagem do indivíduo e da avaliação da situação realizada pelo mesmo. E se a forma de lidar com estas situações está prejudicando o sujeito em vez de ajudá-lo, a terapia cognitivo-comportamental poderá auxiliá-lo a desenvolver formas mais adaptativas de enfrentá-las, por meio da reestruturação cognitiva e técnicas comportamentais.

 

 

REFERÊNCIAS

 

FOLKMAN, S.; LAZARUS, R. S. An analysis of coping in a middle-aged community sample. Journal of Health and Social Behavior, v. 21,n. 3, p. 219-239, 1980.

LAZARUS, R. S.; FOLKMAN, S. Stress, appraisal, and coping. New York SpringerPublishing Company, 1984.

MEICHENBAUM, D. The Evolution of Cognitive Behavior Therapy: A Personal and Professional Journey with Don Meichenbaum. Routledge, 2017.

NUNES, Carolina de Mello Nascimento Seiffert. O conceito de enfrentamento e a sua relevância na prática da Psiconcologia. Encontro: Revista de Psicologia, v. 13, n. 19, p. 91-102, 2010.

TORRES, N.;COELHO, M. E. C. O stress, o transtorno do pânico e a psicoterapia: a pessoa e sua vida. In:BRANDÃO, M. Z. et al. (Org.). Sobre comportamento e cognição: Contingências e metacontingências: contextos sócios-verbais e o comportamento do terapeuta. Santo André: ESETec, 2004. p. 339-344.

Estudante de psicologia. Aprecia a abordagem terapia cognitivo-comportamental (TCC) e temáticas com foco em Substâncias Psicoativas.

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