Duas visões opostas nas neurociências

 

Na história das pesquisas em neurociência, destacam-se duas formas opostas de entender a relação entre o cérebro e como as pessoas pensam, sentem e se comportam. A primeira delas é a visão localizacionista, que entende que as funções psicológicas encontram-se em determinadas áreas do cérebro, que existiriam centros para as emoções, para a linguagem e até mesmo para a consciência. O seu oposto é a visão holista, que considera que as funções psicológicas são produtos do encéfalo como um todo e que não há especialização de áreas cerebrais para processarem emoções ou a linguagem, por exemplo.

 

Representação dos locais das funções psicológicas, segundo a frenologia.

Historicamente, a primeira versão do localizacionismo remonta ao início do século XIX e é conhecida como frenologia. A sua tese principal era que todas as funções psicológicas são produzidas pelo encéfalo, o que foi algo inovador pra época. Além disso, a frenologia ainda aceitava a tese de que o cérebro é um conjunto de pequenos órgãos, cada um responsável por uma função psicológica particular. Contudo, o ponto fraco da frenologia era sua falta de comprovação empírica. Franz Gall, seu principal defensor, observava pessoas que eram notáveis por apresentar alguma característica psicológica em particular e fazia medições de seus crânios relacionando as duas coisas. Ele pensava que quanto mais desenvolvida fosse uma característica psicológica, maior seria a área cerebral responsável por tal característica. A hipertrofia da área cerebral seria tão grande a ponto de deformar a parte do crânio sobre essa região, criando um calombo. Porém, seu método tinha falhas graves. Estudos observacionais não permitem inferir relações causais entre dois fenômenos, ou seja, a correlação entre apresentar uma característica psicológica específica e ter um calombo em determinada área do crânio pode ser mero fruto do acaso. Além disso, mesmo em estudos observacionais, a coleta de dados precisa ser feita de uma forma sistemática para garantir algum controle estatístico e contornar nossos vieses cognitivos no tratamento dos dados, coisa que não existia na época de Gall.

 

Duas décadas depois, em 1820, a frenologia começou a ser colocada em xeque por um fisiologista chamado Pierre Flourens. Ele lançou mão de um método experimental que continua sendo usado atualmente para estudar o cérebro. Basicamente, para saber qual a contribuição de alguma estrutura neural, ela é destruída e observa-se quais mudanças ocorrem no comportamento. Aplicando esse método a diversas áreas demarcadas pela frenologia em cérebros de animais, Flourens não conseguiu confirmar nenhuma das correlações encontradas pela frenologia. Seus achados o levaram a concluir que todas as regiões do encéfalo, em vez de apenas algumas, participam de cada função psicológica. Ele se tornou um importante nome dentre os defensores do holismo. No entanto, derrubar a frenologia não é o mesmo que derrubar todos os tipos de localizacionismo. Como vimos, o problema da frenologia estava em seus métodos de pesquisa e foi isso que Flourens brilhantemente demonstrou.

 

A tese holista dominou o cenário por algum tempo, no entanto uma nova mudança de pensamento veio cerca de 40 anos mais tarde, principalmente com trabalhos relacionadas à linguagem em pacientes com lesões cerebrais. Paul Broca, um neurologista influenciado pelas pesquisas de Gall, estudava as afasias, que são distúrbios da linguagem geralmente causados por danos no tecido cerebral. Porém, diferentemente do frenologista, ele relacionava evidências clínicas desses distúrbios com lesões encefálicas descobertas em autópsias. Dessa forma, ele aceitava a tese localizacionista, mas seguia padrões metodológicos mais rigorosos.

 

Cérebro de um dos pacientes estudados por Broca.

 

Um de seus pacientes havia perdido a capacidade de falar em decorrência de um acidente vascular encefálico. Ele não tinha nenhum dano no aparelho fonador, conseguia falar palavras isoladas, cantar uma melodia e até assoviar. Porém, não sabia mais expressar ideias em frases, nem formar sentenças gramaticalmente corretas, tanto falando quanto escrevendo. Após a morte desse paciente, Broca observou que havia uma lesão em uma área na porção anterior do cérebro, área esta que ficou conhecida posteriormente como área de broca. Ao longo de sua carreira como pesquisador, Broca ainda observou a ocorrência de lesão em mais sete pacientes com afasia e, em todos eles, a lesão era na mesma área e no hemisfério esquerdo.

 

Em 1876, quinze anos mais tarde, outro golpe contra o holismo foi desferido pelos achados empíricos de outro cientista que estudava problemas na fala: Karl Wernicke. Ele trabalhava com um novo tipo de afasia, que era relacionado não com a emissão, mas com a compreensão da fala. Os pacientes de Broca não conseguiam se expressar pela fala, mas a compreendiam; já os pacientes de Wernicke emitiam palavras, mas não compreendiam a linguagem. Esse outro tipo de afasia não estava relacionado com lesões na área de broca, mas em uma outra área, localizada na parte posterior do córtex cerebral.

 

Apesar de ter encontrado mais evidências contra o holismo, Wernicke não aderiu à versão do localizacionismo que era defendida na época. Ele propôs algo novo. A partir de seus trabalhos e dos de Broca, teorizou que apenas as funções mais básicas, como as sensações simples e as atividades motoras, são mediadas pela ação de neurônios localizados em pequenas regiões do cérebro. As funções psicológicas mais complexas, como a linguagem, seriam processadas por verdadeiras redes neurais que conectam diferentes regiões do encéfalo. Essa visão unificadora defendida por Wernicke é conhecida como processamento distribuído e é um princípio central nas neurociências atualmente.

 

Já na década de 1950, a neurocirurgia forneceu evidências de que partes específicas do processamento de alguma função psicológica são realizadas por regiões específicas do cérebro. Pacientes com epilepsia eram operados acordados, com anestesia local, e tinham partes do cérebro expostas. Os cientistas Wilder Penfield e Geroge Ojemann, pioneiros nesta técnica, pediam aos pacientes que falassem os nomes de alguns objetos enquanto estimulavam eletricamente algumas áreas corticais. Se a área era essencial para a linguagem, sua estimulação impedia o paciente de realizar a tarefa. Esses dados coletados do encéfalo de pacientes conscientes corroboraram os achados de Broca e Wernicke e produziram enormes avanços nas neurociências.

 

Representação da correspondência entre as partes do corpo e as regiões cerebrais responsáveis pelo processamento da informação.

 

Mais recentemente, alguns estudos foram feitos com pacientes surdos que perderam a capacidade de comunicação pela linguagem de sinais após sofrerem lesões cerebrais. Apesar de a expressão pela linguagem de sinais não envolver o aparelho fonador, mas gestos das mãos, e de ser percebida visualmente em vez de pela audição, as lesões eram localizadas nas mesmas áreas estudadas por Broca e Wernicke. Todas essas evidências em favor do modelo de processamento distribuído o fizeram ser amplamente aceito como o paradigma oficial do funcionamento do cérebro, baseando a grande maioria das pesquisas feitas em neurociências atualmente.

 

Usamos o exemplo da linguagem para ilustrar essa polêmica “localizacionismo versus holismo” e para mostrar como a concepção do funcionamento do encéfalo foi se modificando com o desenvolvimento das neurociências. Omitimos alguns capítulos dessa história para encurtar o texto. Agora vamos nos deter em como está a discussão atualmente. Como dissemos, Wernicke, tomando como base a linguagem, propôs uma teoria unificadora, na qual centros de processamento interconectados de forma serial ou paralela exercem funções mais ou menos independentes – teoria que, com algumas modificações importantes, é aceita ainda hoje. Além disso, é aceito que essa teoria funcione para as demais funções psicológicas superiores.

 

A ideia, em essência, é que regiões específicas, em vez de responsáveis por funções psicológicas específicas, funcionam como unidades básicas de processamento. Pensamento, percepção, movimento e a memória são possíveis graças a integração do processamento de pequenas áreas do cérebro. Uma consequência dessa visão, apoiada em inúmeras evidências, é que a lesão em determinada área pode não causar a perda total da função psicológica subjacente, mas apenas uma perda temporária que pode ser revertida tão cedo quanto as conexões destruídas sejam refeitas.

 

“Assim, não é correto pensar em um processo mental sendo mediado por uma cadeia de células nervosas conectadas em série – uma célula conectada diretamente com a próxima –, pois, em tal arranjo, o processo todo seria rompido quando uma única conexão for rompida. Uma metáfora mais realista é a de um processo consistindo em diversas vias paralelas em uma rede de comunicação que pode interagir e por fim convergir para um conjunto de células-alvo em comum. Um distúrbio no funcionamento de uma única via afeta a informação transmitida por ela, mas não necessariamente rompe todo o sistema. As partes remanescentes do sistema podem modificar seu desempenho para acomodar o rompimento de uma via” (Kandel, 2014).

 

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

 

Kandel, E. R. Schwartz, J. H. Jessel, T. M. Siegelbaum, S. A. Hudspeth, A. J. (2014). Princípios de Neurociências. 5ª Ed. Porto Alegre: Artmed.

 

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