As guerras do acasalamento

 

Enganação sexual, as dificuldades de atrair parceiros matrimoniais viáveis, violência praticada por parceiros íntimos, infidelidade, roubo do parceiro alheio, divórcio e perseguição pós-término de relacionamento — estes fenômenos diversos são todos ligados por um elemento causal comum: uma escassez implacável de parceiros valiosos. A carência de parceiros desejáveis é algo com que devemos nos preocupar, pois se encontra por trás de muita deslealdade e brutalidade humana.

 

Apesar do fato de que muitos equacionam evolução com seleção de sobrevivência, a sobrevivência só é importante na medida em que contribui para o acasalamento bem-sucedido. Sucesso reprodutivo diferencial, não sucesso de sobrevivência diferencial, que é o motor da evolução por seleção. Você pode sobreviver até a velhice. Mas se não copular, você não se reproduz e os seus genes batem as botas evolutivas. Somos todos descendentes de um processo seletivo impiedoso de competição pelos parceiros mais valiosos — aqueles que podem dar aos nossos filhos bons genes e uma gama de recursos variando de comida e abrigo às perícias sociais necessárias para escalar a hierarquia de status.

 

As pessoas se sentem desconfortáveis em colocar um valor em outros seres humanos. Isto ofende as nossas sensibilidades. Mas o fato infeliz é que valor de parceiro se distribui de modo desigual. Contrariamente a anseios por igualdade, nem todas as pessoas são equivalentes na moeda da qualidade de parceiros. Alguns são extremamente valiosos — férteis, saudáveis, atraentes sexualmente, ricos em recursos, com boas ligações sociais, bem-apessoados e dispostos e capazes de outorgar suas benesses. Na outra ponta da distribuição estão aqueles menos afortunados, talvez menos saudáveis, com menos recursos materiais ou imbuídos de disposições como agressividade ou instabilidade emocional que infligem custos pesados no relacionamento.

 

A competição para atrair os parceiros mais desejáveis é feroz. Por consequência, os mais valiosos estão perpetuamente em baixa oferta em comparação com os muitos que os desejam. Pessoas que estão elas próprias lá no alto em matéria de valor de parceiro têm sucesso em atrair os parceiros mais desejáveis. Na crua métrica americana informal, os 9s e 10s se arranjam com outros 9s e 10s. E com valor decrescente dos 8s aos 1s, as pessoas devem baixar a sua bola em termos de parceiros comensuradamente. Não fazê-lo produz uma probabilidade maior de rejeição e angústia psicológica. Como uma mulher aconselhou o seu amigo que lamentou a sua frustração com a sua falta de interesse nas mulheres atraídas por ele e o interesse não recíproco de mulheres que o atraíam, “você é um 8 procurando 9s e com 7s atrás de você”.

 

Outra fonte de problemas no mercado do acasalamento vem da enganação. Estudos científicos de perfis de namoro on-line revelam que tanto homens como mulheres tentam parecer superiores em valor de parceiro ao que realmente são precisamente nas dimensões valorizadas pelo sexo oposto. Os homens exageram a sua renda e status, e jogam mais uns centímetros na sua verdadeira altura. As mulheres se apresentam como de 5 a 7 quilos mais magras do que o seu peso real e algumas tiram uns anos da sua idade verdadeira. Ambos mostram fotos não representativas, algumas tiradas muitos anos antes. Homens e mulheres enganam a fim de atrair parceiros no limite mais externo da sua gama de valor. Às vezes enganam a si mesmos. Assim como 94% dos professores acreditam que estão ‘acima da média’ para o seu departamento, no mercado do acasalamento muitos acham que são gatos quando não são.

 

Apesar de esforços valorosos, as tentativas masculinas de aumentar o seu valor de mercado aos olhos das mulheres nem sempre funcionam. Muitos fracassam. Ansiedade de encontro pode paralisar homens valentes em outros contextos. Alguns homens rejeitados ficam amargurados e hostis com as mulheres após repetidas rejeições. Como Jim Morrison do The Doors notou uma vez, “as mulheres parecem malvadas quando ninguém te quer”.

 

As dificuldades de acasalamento não acabam entre os bem-sucedidos o bastante para atrair um parceiro. Discrepâncias de valor de parceiro abrem uma caixa de Pandora de problemas. Um desafio onipresente dentro dos relacionamentos românticos deriva de discrepâncias em valor de parceiro — quando um 8 se arranja equivocadamente com um 6, quando um membro de um casal inicialmente equivalente cai em valor de parceiro, ou até quando um ascende mais rápido profissionalmente do que o outro. O controle de Jennifer Aniston sobre Brad Pitt provou-se tênue. Ladrões de parceiros aliciam o parceiro de maior valor, alargando brechas inicialmente pequenas: “Ele não é bom o bastante para você”; “Ele não te trata bem”; “Você merece alguém melhor… como eu”. Empiricamente, o parceiro de valor de parceiro mais alto é mais suscetível à infidelidade sexual, infidelidade emocional e abandono flagrante.

 

Os parceiros de valor de parceiro mais baixo tipicamente lutam fortemente para impedir infidelidade e rompimento. Eles usam táticas desde vigilância a violência. Espancamento praticado pelo parceiro íntimo, por mais abominável que seja, tem uma lógica funcional perturbadora. Como a autoestima é, em parte, uma adaptação psicológica projetada para rastrear o nosso próprio valor de parceiro, golpes à autoestima causam reduções em valor de parceiro autopercebido. Abuso físico e psicológico previsivelmente danificam a autoestima da vítima, reduzindo a discrepância entre o valor de parceiro de uma mulher e do parceiro, e às vezes fazendo com que ela fique com o seu agressor.

 

Os que têm sucesso em romper e partir são por vezes perseguidos por ex-parceiros — tipicamente homens que sabem ou sentem que nunca mais vão conseguir atrair uma mulher tão valiosa como a que perderam. Estudos que conduzi em colaboração com o Dr. Joshua Duntley revelam que chega a 60% de mulheres e 40% de homens o número de vítimas de perseguição. Muitos perseguidores se sustentam pela falsa crença de que as suas vítimas na verdade os amam, mas simplesmente não percebem ainda. Perseguição, como violência praticada pelo parceiro íntimo, também tem uma lógica funcional desconcertante. Às vezes funciona em induzir a mulher a voltar.

 

Não há remédio fácil para a grande escassez de parceiros desejáveis. No mundo não-democrático do acasalamento, todo sucesso vem inevitavelmente como uma perda para rivais em competição. Todo humano capaz de concepção é passível de enganação. Ladrões de parceiros sempre estarão prontos para atacar. Os prazeres da tentação sexual vêm no aqui e agora. Os custos da infidelidade se encontram no futuro distante e incerto. Mas talvez uma consciência mais aguda da lógica do valor de parceiro nos dê as ferramentas para restringir os produtos mais sinistros das guerras do acasalamento.

 

 

Autor: David Buss.

Tradução: Luan Rafael Marques.

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Este estudante de filosofia está extremamente interessado e esperançoso pelas crescentes ciências da mente. Ele acredita que podemos chegar ao consenso pelo diálogo racional e superar nossos vários tribalismos. Ele também acredita que um grande passo nessa direção é esclarecer sobre os fatos da nossa natureza e vieses, seguir o oráculo e conhecermo-nos a nós mesmos. A Rainha de Copas disse a Alice que conseguia acreditar em seis coisas impossíveis antes do café-da-manhã. Ele está quase lá.

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