Crença, emoção e identidade: por que reagimos mal a refutações?

 

Uma característica curiosa de nossa mente é sua formidável aptidão para ignorar provas que porventura refutam nossas crenças. Mas a mente humana é gananciosa. Não se contenta em preservar crenças valiosas suprimindo contraprovas. Para garantir a perpetuação de uma crença nossa mente a faz reluzir com ainda mais ímpeto em nossas cabeças, caso alguém tente refutá-la. O caso é que a tendência natural, quando temos uma crença valiosa alvejada por críticas, é ativar precisamente a rede de informações que apoia essa mesma crença, fazendo com que ela pulse ainda mais ferozmente em nossa consciência.

 

Panayiota Kendeou e colaboradores (2013, 2014) argumentam que esse mecanismo de blindagem de crenças, conhecido como efeito backfire (algo como “tiro pela culatra”), consiste numa falha[1] específica no processo de revisão de crenças, cujo sucesso depende de uma coativação, dentro de uma mesma rede cognitiva, das crenças prévias e das novas informações recebidas, gerando uma competição na qual as informações corretas devem “fagocitar” as informações incorretas (as crenças falsas). À medida que informações corretas são adicionadas à rede, as informações prévias incorretas vão se desintegrando. Elos conceituais permitem que as informações corretas assimiladas se interconectem formando aglomerados de conexões que acabam dominando a rede cognitiva e se ativando massivamente em resposta às informações incorretas, eliminando-as do sistema e originando assim uma nova rede de crenças. O efeito backfire acontece quando esse processo não é bem-sucedido, seja porque o indivíduo rechaça estratégica e conscientemente informações “perigosas” de sua rede de crenças prévias, seja porque essa rede de crenças incorretas se encontra fortemente interconectada a ponto de se ativar automaticamente, obstruindo a entrada de novas informações no processo de competição ideal descrito acima, no qual a verdade triunfaria.

 

CRENÇAS E IDENTIDADE

 

Mas por que somos tão condescendentes com nossas próprias crenças, pelo menos as mais enraizadas? A resposta talvez seja que ao tentar proteger nossas crenças estamos tentando proteger algo mais; uma coisa mais básica: nossa identidade. É o que indica uma quantidade superabundante de pesquisas recentes.

 

As pesquisas atuais entendem esse fenômeno como um mecanismo defensivo contra as ameaças à identidade ou autoconceito (Kahan, Peters, Dawson, & Slovic, 2013, Sinatra & Seyranian, 2016). Em todos os estudos nesse campo as observações confirmam a incidência do efeito backfire nos indivíduos com identificação mais forte com alguma cosmovisão, religião, ideologia, valor ou estilo de vida específico (Trevors et al., 2016). 

 

O estudo de Monica Prasad e colaboradores, e.g., mostrou que os participantes que se autoidentificavam fortemente como republicanos eram mais pré-dispostos a acreditar numa ligação entre o Iraque e os episódios de 11/09. Ao serem contrariados por fatos que falsificavam essa narrativa, os republicanos não só se mantiveram firmes em sua opinião original como passaram a crer nela com mais veemência e como consequência direta da tentativa de corrigi-los. É como reagirmos aumentando o volume do som justo quando nos dizem que está alto demais. 

 

Gregory Trevors (et al, 2016) assevera que observações semelhantes para uma diversidade de temas polêmicos foram registradas por muitos outros pesquisadores[2], incluindo temas como mudanças climáticas, alimentos transgênicos, reformas no sistema de saúde, influência violenta dos videogames, conservação de recursos hídricos, vacinação e tantos outros. As conclusões dos pesquisadores desses variados campos são assombrosamente semelhantes: tentativas de refutação de uma crença frequentemente resultam numa aderência mais forte a ela (Trevors, et al., 2016).

 

 

Para citar um exemplo prosaico, indivíduos que se identificam como gamers estão muito mais pré-dispostos a reagir negativamente a informações sobre os efeitos prejudiciais dos jogos, mesmo se essas informações provierem de pesquisas científicas (Nauroth et al., 2014, 2015).

 

Resumidamente, reafirmar uma crença ou ideologia em vista de uma refutação bem-sucedida é uma forma sutil de autoafirmação. Reafirma-se crenças em resposta a refutações, mas o que está em última análise sendo reafirmado é o ego. 

 

A AÇÃO DAS EMOÇÕES NEGATIVAS

 

A blindagem das crenças anexadas à identidade tem provavelmente uma base afetiva, envolvendo aspectos do processamento de emoções negativas (Trevors, et al., 2016). Aceitar uma refutação muitas vezes significa para um indivíduo abrir mão de algum componente valioso de sua identidade, a ponto de refutações serem percebidas como ameaças, desencadeando respostas emocionais ego-protetoras com a função de afastar o perigo, restaurar a autoimagem e manter intactos sentimentos de autoestima (Nyhan & Reifler, 2015b). Numa linguagem menos pretensiosa: criticar aquilo com que um indivíduo se identifica significa torná-lo mais inclinado a reagir com raiva (por si e por seu grupo social), sobretudo e ironicamente, se a crítica for apropriada. 

 

Ao menos no que diz respeito à crítica de crenças mais nucleares ou valiosas a nosso senso de identidade, a resposta emocional é inevitável, e nesse momento é importante que tentemos gerir a situação com mais frieza. O calor das emoções pode nos retirar valiosas oportunidades de revisar nossas crenças e corrigir nossos erros. Como salienta Trevors (et al., 2016), a ativação de emoções negativas quando em resposta a informações refutadoras prejudica o processo de compreensão das mensagens e a capacidade de revisão de crenças, ao passo que indivíduos que revisam mais eficazmente suas crenças experimentam menos emoções negativas durante o processo, facilitando a autocorreção.  

 

COMO REAGIR? 

 

Os trabalhos de Eccles (2009) e Nauroth (et al., 2014, 2015) sugerem que as relações de ensino & aprendizagem precisam motivar e habituar os indivíduos a participarem de atividades inconsistentes com sua autoimagem e identidade pessoal, permitindo que reajam menos emocionalmente face a refutações, e assim contestarem mais facilmente a si mesmos. Sem se acostumar a processos de conflito entre seu autoconceito e novos conceitos, dificilmente o indivíduo estará preparando para se engajar em contextos mais complexos de aprendizagem.  Essa deveria ser uma premissa amplamente incorporada pelos programas educacionais, e  — por que não? — pelas famílias das crianças e adolescentes.

 

Para terminar, tudo isso dá o que pensar sobre que tipo de efeitos à convivência social decorrerão a médio e longo prazo das atuais políticas de identidade, que têm por estratégia reforçar nas pessoas sentimentos identitários e endogrupais como forma de empoderamento e engajamento social. É sem dúvida importante dar visibilidade e reconhecimento a diferentes formas de existir, a diferentes grupos e identidades. Acostumar-se com a diversidade é um importante passo em direção à tolerância e igualdade. Mas será que estamos fazendo isso direito? Afinal, temos muitas provas acumuladas dos efeitos nefastos da incorporação desmesurada de características grupais à identidade individual. Fico pensando se a instrumentalização política de traços identitários com demasiado foco em fortalecimento endogrupal não irá tornar o diálogo entre os diferentes mais corrosivo do que já está, aumentando o fosso entre as pessoas. E já não é isso que vem acontecendo? 


[1] O mecanismo pode ser considerado uma falha do ponto de vista intelectual e individual, mas não necessariamente uma falha do ponto de vista adaptativo e evolucionário.

[2] Hart & Nisbet, 2012; Trevors et al.,2016; Nyhan, Reifler & Ubel, 2013;Nauroth, Gollwitzer, Bender e Rothmund, 2014, 2015; Seyranian, Sinatra, & Polikoff, 2015;Nyhan & Reifler, 2015a, Nyhan, Reifler & Richey, 2015.

 

 

REFERÊNCIAS

 

Eccles, J. (2009). Who am I and what am I going to do with my life? Personal and collective identities as motivators of action. Educational Psychologist, 44, 78–89.

 

Escobar, M.V.M. (2017). Um duelo entre crenças e fatos: o efeito backfire Revista SimplesMente. Disponível em: https://goo.gl/YwA1GF

 

Kahan, D. M., Peters, E., Dawson, E. C., & Slovic, P. (2013). Motivated numeracy and enlightened self-government. Yale Law School, Public Law Working Paper No. 307. Retrieved March 15, 2015. Retrieved from: http://dx.doi.org/10.2139/ssrn.2319992

 

Kendeou, P., Smith, E. R., & O’Brien, E. J. (2013). Updating during reading comprehension: Wh causalitymatters. Journal of Experimental Psychology-LearningMemory andCognition, 39, 854–865.

 

Kendeou, P., Walsh, E. K., Smith, E. R., & O’Brien, E. J. (2014). Knowledge revision processes in refutation texts. Discourse Processes, 51, 374–397.

 

Nauroth, P., Gollwitzer, M., Bender, J., & Rothmund, T. (2014). Gamers against science: The case of the violent video games debate. European Journal of Social Psychology, 44, 104–116.

 

Nauroth, P., Gollwitzer, M., Bender, J., & Rothmund, T. (2015). Social identity threat motivates science-discrediting online comments. Plos One, 10.

 

Nyhan, B., Reifler, J., & Ubel, P. A. (2013). The hazards of correcting myths about health care reform. Medical Care, 51, 127–132.

 

Nyhan, B., & Reifler, J. (2015a). Does correcting myths about the flu vaccine work? An experimental evaluation of the effects of corrective information. Vaccine, 33, 459–464.

 

Nyhan, B., & Reifler, J. (2015b). The roles of information deficits and identity threat in the prevalence of misperceptions. September 17, 2015. Retrieved from:  https://www.dartmouth.edu/~nyhan/opening-political-mind.pdf

 

Nyhan, B., Reifler, J., Richey, S., & Freed, G. L. (2014). Effective messages in vaccine promotion: A randomized trial. Pediatrics, 133, E835–E842.

 

Prasad, M., Perrin, A. J., Bezila, K., Hoffman, S. G., Kindleberger, K., Manturuk, K., & Powers, A. S. (2009). “There must be a reason”: Osama, Saddam, and inferred justification. Sociological Inquiry, 79, 142–162.

 

Sinatra, G. M.,&Seyranian, V. (2016).Warmchange about hot topics: The role of motivation and emotion in attitude and conceptual change about controversial science topics. In L. Corno&E.Anderman (Eds.), APA handbook of educational psychology (3rd ed., pp. 245–246). New York, NY: Routledge.

 

Trevors, G. J, Muis, K. R, Pekrun, R., Sinatra, G. M & Winne, PH. (2016). Identity and epistemic emotions during knowledge revision: A potential account for the backfire effect. Discourse Processes, 53(5-6), D.N. Rapp. 339-370. United States of America: Ablex Pub. Corp. Retrieved from: http://dx.doi.org/10.1080/0163853X.2015.1136507

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