Cooperação e cognição distribuída

 

Não é novidade para quem tem alguma familiaridade com psicologia cognitiva o fato de as pessoas não serem lá tão racionais. É verdade que a humanidade produziu verdadeiras forças da natureza, como Newton e Bach. Mas de uma perspectiva mais geral, e menos apaixonada, a verdade sobre nós é um tanto quanto decepcionante. Somos criaturas formidavelmente enviesadas, cognitivamente provincianas por natureza. Cada um de nós está equipado com os mais sagazes dispositivos de automanutenção do erro e da crendice. É o que se poderia esperar de uma espécie marcada por um passado miserável, quando as preocupações fundamentais se dividiam entre não morrer de fome e não servir de almoço para predadores. 

 

Para quem está habituado ao tradicional pensamento antropocêntrico pode soar decepcionante reconhecer que a linhagem do “glorioso” gênero humano está ligada a seres simiescos que viviam dependurados em galhos, e cujo divertimento consistia em arremessar excremento uns nos outros. No entanto aqui estamos, ainda. Bem adaptados e agindo feito donos do mundo. E de certa maneira as coisas não mudaram tanto. Um pulo pelas redes sociais nos põe no centro de um ambiente abarrotado de pessoas se atacando pelos motivos mais mesquinhos. A diferença é que em vez de fezes agora usamos insultos.

 

Insultos, crendices, dogmas, mentiras, fofocas, boatos, trapaças, preconceitos, superstição… São esses os produtos mais diretos da mente humana. São as tendências localizadas mais perto do núcleo de nossa natureza símia. Os que gastam tempo com matemática, poesia ou artes não passam de anomalias sistêmicas, que por alguma razão decidiram lutar contra a natureza. E a natureza sempre prioriza o prático e o fácil.

 

RACIONALIDADE DISTRIBUÍDA

 

Em vista dessas considerações um tanto pessimistas (talvez eu tenha exagerado um pouco…), uma questão que se impõe é a seguinte: como chegamos tão longe em nossa civilização sendo, perdoem-me, tão obtusos? A resposta está na cooperação, na divisão do trabalho intelectual. Como explicam os especialistas em psicologia e ciências cognitivas Steven Sloman e Philip Fernbach, o segredo do nosso sucesso como espécie não está em nossa capacidade mental individual, mas na aptidão para perseguirmos objetivos complexos em conjunto.

 

 

Se por um lado a inteligência individual pode ser decepcionante, a inteligência gerada pela colaboração de muitos não conhece limites. É a soma de medíocres mentes individuais que forma a imensa superestrutura cognitiva — uma espécie de inteligência coletiva — fazendo a civilização progredir e funcionar a todo vapor.

 

Para manobrar um veículo motorizado não é necessário que o motorista tenha sequer ouvido falar em pistões e cilindros, quanto mais conhecer as leis que regem a mecânica física do funcionamento dessas peças. Tirar uma habilitação de motorista é uma tarefa que pode ser feita sem que se saiba como trocar um pneu (meu caso). E o que seria dos dentistas sem os técnicos para fabricar os sofisticados instrumentos odontológicos, como aquele simpático motorzinho que nos faz pensar seriamente em conviver em paz com nossas cáries?

 

É o trabalho comunitário de muitas pessoas que não sabem pilotar que coloca um avião nos ares. Para fazer um avião decolar o piloto só precisa conhecer uma porção de todo o conhecimento de física e engenharia aeronáutica que torna possível um trambolho daqueles levantar voo. Piloto, tripulação e passageiros podem cortar as nuvens serenamente enquanto estão confinados numa geringonça que pesa toneladas, pois outras pessoas pensaram por eles, garantindo que cheguem em segurança ao seu destino.

 

E não pense o leitor que somente tarefas admiráveis, como pôr aviões nos céus, exemplificam a natureza colaborativa do conhecimento. Ninguém necessita entender a mecânica de um vaso sanitário antes de usufruí-lo. Fosse assim ainda defecaríamos em moitas. É graças ao conhecimento especializado de outras pessoas sobre aparelhos sanitários, tubulações de esgoto, física de fluidos, etc., que podemos nos sentar na porcelana e fazer nossas necessidades com dignidade enquanto trocamos mensagens pelo smartphone ou pensamos sobre o cosmos, sem nos preocuparmos com o destino do que depositamos ali após apertar o botão de descarga.

 

É basicamente essa a dinâmica em todos os outros campos e atividades da vida humana, desde as mais audaciosas, como voar, às mais prosaicas, como usar uma simples privada. Dependemos cognitivamente uns dos outros, nos apoiamos mutuamente em nossas inumeráveis e insignificantes especialidades, formando uma imensa teia cooperativa de interações, trocas e favores. A divisão do trabalho racional criou a caça, a agricultura, o comercio, a fabricação, os meios de comunicação, a ciência e todas as inovações que geraram a civilização e modificaram o mudo. Sem ela não haveria sequer lápis de grafite. Um mísero lápis é o produto final de uma rede de cooperação sem a qual nenhuma pessoa no mundo seria capaz de produzi-lo sozinha.

 

A SENSAÇÃO DE COMPREENSÃO É CONTAGIOSA

 

Sloman e Fernbach salientam que o conhecimento não está (pelo menos não inteiramente) em nossas cabeças, mas numa rede cognitiva compartilhada. O leitor (se não for terraplanista) sabe que a terra é aproximadamente esférica, e que mantém sua órbita ao redor do sol. Mas saberá reproduzir os cálculos e observações que provam essas conclusões? A verdade é que o conhecimento que você guarda em sua mente representa a diminuta ponta de um iceberg que se distribui em outras mentes e demais dispositivos de armazenagem de informação como livros e discos rígidos.

 

 

Um coisa curiosa nisso tudo é que fazer parte dessa imensa comunidade cognitiva cria em nós a ilusão de que sabemos muito mais do que sabemos, como se fontes externas de conhecimento fossem apêndices da nossa mente. Muitas vezes é impossível traçar fronteiras entre o conhecimento que existe em nossas cabeças e o que reside fora delas, o que nos impede de distinguir nitidamente o que sabemos do que os outros sabem.

 

A compreensão que os outros têm sobre um assunto faz com que nos sintamos mais espertos, desde que acreditemos ter fácil acesso às fontes desse conhecimento. Isso foi mostrado num experimento recente que reuniu dois grupos de pessoas. Ambos foram informados sobre como a ciência foi capaz de produzir pedras luminescentes. Ao primeiro grupo foi dito que os cientistas ainda não sabiam como explicar esse feito, e quando perguntados se eram capazes de compreender porque as pedras brilhavam os participantes relataram não fazer a mínima ideia. Ao segundo grupo, entretanto, foi dito que os cientistas sabiam como explicar as pedras luminosas, e ao serem perguntados os participantes disseram compreender um pouco o que era esse fenômeno. É como se a sensação de compreensão fosse contagiosa, e o conhecimento dos cientistas tivesse sido transmitido mentalmente aos participantes, disseram Sloman e Fernbach.

 

Todavia — e isso é intrigante — quando foi dito aos participantes que tinham a sensação de compreensão, que os cientistas na verdade trabalhavam para o exercito e que mantinham a explicação das pedras luminosas em segredo, eles já não sentiam mais possuir qualquer compreensão sobre o fenômeno.

 

O LADO NEGATIVO DA NOSSA ECONOMIA COGNITIVA

 

A sensação de sabermos o que os outros sabem tem o lado positivo de apoiarmos informações e descobertas importantes, como a força gravitacional, a existência de bactérias, a correlação entre má alimentação e vários tipos de doença, o surgimento dos dinossauros há 230 milhões de anos e sua eventual extinção no fim do período Cretáceo, o risco diminuto de acidentes aéreos, etc., etc., etc. Mas e quando as pessoas ao nosso redor, ao invés de saberem, estão iludidas? O que temos nesse caso são pessoas contaminadas pela ignorância das outras.

 

As coisas se agravam quando adicionamos o fato de que a frivolidade e o embuste circulam pelo mundo com muito mais rapidez e eficiência do que a informação de qualidade, pois claro, essas coisas não requerem esforço mental. O que resulta disso é um mundaréu de gente desatando a dizer que sabe que vacinas causam autismo, que a evolução é uma farsa, que o governo norte-americano forjou o ataque às torres gêmeas, que a intervenção militar irá salvar o Brasil ou que Vin Diesel é um bom ator.  Mesmo não tendo acesso a provas e argumentos que apontem para essas conclusões, as pessoas se contagiam com a ilusão de conhecimento de seus lideres religiosos, políticos de estimação, celebridades e tantos outros “especialistas” vociferantes com os quais se identificam.

 

O efeito dessa ilusão de conhecimento é maior nas pessoas quando inseridas em endogrupos com os quais mantêm forte identificação, de modo que fazê-las mudar de ideia é praticamente impossível nesses casos. E como era de se esperar, no que diz respeito a esferas de elevado impacto social, como política e economia, as consequências do erro compartilhado podem ser desastrosas. Nesse exato momento temos hordas de políticos decidindo por nós, aprovando asneiras e nulidades por meio de leis, emendas e outras medidas elaboradas sem o menor respaldo empírico, e com o aval de milhares de eleitores que não possuem conhecimento detalhado o suficiente para fundamentar as políticas a que dão aval.

 

 

Intervenção bélica, energia nuclear, vacinação, políticas econômicas, saúde pública, meio ambiente, violência urbana, liberação de armas de fogo, imigração são alguns dos tantos temas sobre os quais as pessoas opinam e os políticos decidem sem o mais remoto conhecimento de causa, baseando-se principalmente em preconceitos, compromissos ideológicos e, por que não, interesses particulares. É preocupante imaginar as diversas implicações negativas que o manejo irracional e irresponsável dessas questões complexas pode gerar.

 

Com efeito, nossa habilidade de cooperar cognitivamente tem grandes vantagens. Mas igualmente grandes desvantagens. Evitar o excesso de confiança nas comunidades com as quais nos identificamos pode reduzir as desvantagens, além de ser um passo importante em direção à autonomia intelectual. A propósito, diria que o ideal seria que as pessoas aprendessem a moderar seu impulso gregário para se identificar com grupos, instituições, ideias e seja mais o que for. 

 

Além disso, Sloman e Fernbach admoestam que o conhecimento de como somos cognitivamente limitados e do quão pouco realmente sabemos é um remédio amargo que todos deveríamos tomar (e sem fazer careta). Tomar consciência de nossa incapacidade é o que melhor nos capacita a progredir como agentes cognitivos cooperativos. É o antídoto contra a apatia e a crendice, e nos faz ver a importância de exigir que nossos lideres baseiem seus programas de gestão em evidências sólidas e análises especializadas, sendo esta a única forma comprovadamente verdadeira de fazer política eficaz.

 

O caso é que produzimos e distribuímos o conhecimento com a mesma facilidade e entusiasmo com que produzimos e distribuímos o preconceito. Nossa capacidade cognitiva para perseguir objetivos cooperativamente é sem dúvida uma força da natureza, um instrumento poderoso de transformação do mundo — para melhor ou pior. Como diria tio Ben, grandes poderes trazem grandes responsabilidades.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Escobar, M.V.M. (2017). A psicologia social de uma nação dividida. Revista SimplesMente. Disponível em: https://goo.gl/QCIs3Y

 

Escobar, M.V.M. (2017). Crença, emoção e identidade: por que reagimos mal a refutações? Revista SimplesMente. Disponível em: http://revistasimplesmente.com.br/crenca-emocao-e-identidade-por-que-reagimos-mal-a-refutacoes/

 

Escobar, M.V.M. (2017). Evitando Informações perigosas. Revista SimplesMente. Disponível em: goo.gl/dizIrC 

 

Elizabeth, K. (2017). Why Facts Don’t Change Our Minds – The New Yorker. Disponível em: goo.gl/s0cjDG

 

I, Pencil. Competitive Enterprise Institute. Disponível em: https://cei.org/i-pencil

 

Pizarro, D. (2017). Raciocínio Motivado. Tradução: Luan Marques Oliveira. Revista SimplesMente. Disponível em: http://revistasimplesmente.com.br/raciocinio-motivado/

 

Fernbach, P & Sloman, S. (2017). Why We Believe Obvious Untruths. The New York Times. Disponível em: https://goo.gl/EOi3kb

Faça um comentário!