A contingência da Economia de Fichas: Parte II

Aqui apresentamos a continuidade da explicação sobre o método de intervenção contingencial, conhecido como Economia de Fichas, que foi iniciada no texto “A Contingência da Economia de Fichas Parte I”, que você pode acessar aqui.

 

Para fazer as fichas são necessárias cartolinas de três cores diferentes, cortadas em quadrados de 6 x 6 cm, cada um com o valor associado à cor. Sugere-se aqui que as cores sejam amarela, verde e azul, valendo 02, 05 e 10 pontos respectivamente. O poder sobre as fichas estará com o aplicador.

 

Uma caixa deverá ser utilizada como um cofre das fichas, e também deverá ficar sob a tutela do aplicador para evitar que a criança coloque nela fichas falsas. Um formulário impresso servirá como guia/diário para registro dos procedimentos e resultados, que geralmente é elaborado e reelaborado pelo profissional para esteja sempre ajustado às peculiaridades de cada caso. Todos os prazos do acordo devem ser cumpridos disciplinadamente, estando vedada a enumeração de prêmios não combinados de antemão.

 

O ideal é que o procedimento seja programado para ocorrer ao longo de um mês. Os níveis das dificuldades e valor dos reforçadores devem aumentar gradativamente, conforme o procedimento avança ao longo das semanas. Aconselha-se isso devido às observações de que, no início de intervenções do tipo, as crianças se empenham a conseguir apenas as recompensas que exigem menor esforço/dedicação. Para driblar tal contratempo, exigências menores devem ser colocadas nos primeiros dias e substituídas por demandas mais complexas nas semanas seguintes.

 

Crianças fazendo poses alegres. Fonte: ibac.com.br

 

Nas três primeiras semanas serão exigidos desempenhos simples, porém com gradativo aumento de complexidade. Na quarta semana é a vez  dos níveis mais difíceis. Para cada semana, recompensas distintas serão definidas. Somente libera-se os prêmios para os comportamentos definidos a partir da segunda semana se os comportamentos combinados, para a semana anterior, forem executados de “graça” a partir daquele momento.

 

Cada recompensa exigirá uma pontuação estabelecida pela soma dos pontos das fichas. Os espaços em branco nas tabelas a seguir devem ser preenchidos durante a negociação.

 

Nível de empenho Comportamento Nº de fichas
Comportamento nível 1   1 amarela
Comportamento nível 2   2 amarelas
Comportamento nível 3   1 verde
Comportamento nível 4   2 verdes
Comportamento nível 5   1 azul
Comportamento nível 6   5 verdes
Comportamento nível 7   3 azuis

Fonte: o autor.

 

Primeira Semana
Nível da recompensa Recompensa Nº de Pontos
Nível 1   10
Nível 2   20
Nível 3   30
Nível 4   40
Segunda Semana
Nível da recompensa Recompensa Nº de Pontos
Nível 5   50
Nível 6   60
Nível 7   70
Nível 8   80
Terceira Semana
Nível da recompensa Recompensa Nº de Pontos
Nível 9   90
Nível 10   100
Nível 11   110
Nível 12   120
Quarta Semana
Nível da recompensa Recompensa Nº de Pontos
Nível 13   130
Nível 14   140
Nível 15   150
Nível 16   160

Fonte: o autor.

 

Em formulário impresso, o modo de ocorrência e a evolução dos comportamentos da criança poderão ser registrados, o que facilita a averiguação e replicação do método.

 

A aplicação adequada deste procedimento produz resultados efetivos na organização do comportamento e na contenção de “impulsos”, além de outros ganhos relativos à singularidade de cada paciente. Em casos de transtorno do déficit de atenção com hiperatividade, esse método mostrou notória eficiência, inclusive complementando tratamentos medicamentosos (ZAMBOM, 2006). Acrescenta-se aqui que a Economia de Fichas no contexto terapêutico tem seus efeitos potencializados ao ser somada a outros procedimentos, como o treino de assertividade e a resolução de problemas, que podem ser assuntos para outros textos.

 

O leitor deve ter notado a ênfase da Análise do Comportamento nas intervenções contingenciais. Parte-se da noção de que comportamentos mudam conforme mudam as condições nas quais ocorrem. Estar condicionado implica em estar submetido a condições; nesse sentido, não pode haver comportamento aprendido que não seja condicionado, ou seja, tudo o que pensamos, lembramos, falamos e sentimos não é produto da aleatoriamente ou do vácuo, não surgiu do nada para produzir nada; está submetido a condições que podem ser bem complexas. Esta é uma das premissas filosóficas nas quais estratégias analítico-comportamentais se baseiam: o que somos e fazemos surge a partir de condições, que avança para transformar e protagonizar outras condições, em um processo no qual se muda o que somos e fazemos. Uma pessoa seria parte de um sistema biológico que se transforma do útero ao óbito a partir de operações nestes eventos, cuja natureza distintiva reside nas ordens não-lineares ou não-programadas. A terapia é uma tentativa de organizar e direcionar este processo para alcançar um fim específico.

 

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

 

ZAMBOM, Luís Fernando; OLIVEIRA, Margareth da Silva; WAGNER, Márcia Fortes. A técnica da economia de fichas no transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. CEP, v. 90619, p. 900, 2006.

Desde seu nascimento, em 1990, vive no estado de Rondônia, Brasil. Durante seus primeiros 18 anos, período em que residiu em uma chácara, adquiriu o prazer por observar animais. Iniciou a graduação em Psicologia no ano de 2009, e se impressionou muito, a princípio, com a Psicanálise, migrando de modo gradativo para ideias cognitivistas e, por fim, migrou para a Análise do Comportamento, área com a qual se identificou apaixonadamente. Formou-se no final de 2013. Trabalhou de 2014 a 2017 como psicólogo da ação social no município de Santa Luzia d’Oeste/RO, mas exonerou-se do cargo para tomar posse como psicólogo da Educação no município de Alta Floresta d’Oeste, ambos na condição de funcionário público efetivo. Em sua práxis, utiliza-se dos conhecimentos e técnicas derivados da Ciência do Comportamento.
Os autores que mais o impressionaram foram C. Darwin, W. James, L. Wittgenstein e B.F Skinner.

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