Como se distinguir entre fervor religioso e doença mental?

[A intenção não é insultar os crentes; os dois estados mentais podem partilhar de muitas características semelhantes.]

 

Ano passado[1], uma coluna de notícias circulou na web, anunciando que a American Psychological Association havia decidido classificar ferrenhas crenças religiosas como doença mental. Segundo o artigo, um estudo de cinco anos feito pela APA concluiu que a crença devota numa deidade podia prejudicar “a habilidade de tomar decisões conscienciosas sobre questões de bom senso”. Recusas de Testemunhas de Jeová a aceitar tratamentos salva-vidas, tais como transfusões de sangue, foram dadas como exemplo.

 

É claro que isto acabou sendo notícia falsa. Mas ainda assim atraiu a legítima cobertura da mídia e a indignação dos leitores. Sites de verificação de fatos como o Snopes tiveram que observar que a coluna era satírica.

 

Para muitos, isso foi um ridículo truque publicitário. Mas para mim, um médico que se especializa em saúde mental, a sátira falou comigo de muitas maneiras. Meus colegas e eu frequentemente cuidamos de pacientes que sofrem de alucinações, profetização e afirmam falar com Deus, entre outros sintomas — em saúde mental, é as vezes muito difícil distinguir crença religiosa de doença mental.

 

Parte disso é porque a classificação de doenças mentais se apoia com frequência em critérios subjetivos. Não podemos diagnosticar muitos problemas de saúde mental com varredura cerebral e exame de sangue. Nossas conclusões frequentemente partem do comportamento que vemos na nossa frente.

 

Considere o exemplo de um homem que entra no departamento de emergência, murmurando de um jeito incoerente. Ele diz que está ouvindo vozes na sua cabeça, mas insiste que não há nada de errado consigo. Ele não usou drogas nem álcool. Caso fosse avaliado por profissionais da saúde mental, há uma boa chance que ele fosse diagnosticado com um transtorno psicótico como esquizofrenia.

 

Mas e se o mesmo homem fosse profundamente religioso? E se a sua língua incompreensível fosse o falar em línguas? Se ele pudesse ouvir Jesus falando ele? Ele poderia também insistir que nada havia de errado consigo. Afinal, ele está praticando a sua fé.

 

Não são só as ambiguidades do diagnóstico de saúde mental que criam este problema — a natureza vaga de como definimos religião complica mais ainda a situação. Por exemplo, a Igreja da Cientologia argumentou com o Internal Revenue Service por anos para ser classificada como uma organização de caridade religiosa e para se qualificar para o status de isenção de impostos. A Igreja finalmente venceu esta batalha em 1993, um grande passo em direção a tornar-se uma religião americana convencional.

 

De acordo com Going Clear: Scientology, Hollywood, and the Prison of Belief[2], um livro da autoria do ganhador do Prêmio Pulitzer, Lawrence Wright, os cientologistas creem em espíritos alienígenas que habitam os corpos humanos. Muitos creem ter poderes especiais, como telecinese e telepatia.

 

Isto põe os profissionais da saúde mental numa saia justa cultural capciosa. Antes de 1993, os profissionais da saúde mental deveriam ter tratado pacientes expressando estas crenças como psicóticos? Após 1993, como aderentes fiéis?

 

Estas distinções levam profundas implicações médicas e legais. Em seu livro Under the Banner of Heaven: A Story of Violent Faith, o jornalista Jon Krakauer narrou o caso de Utah v. Lafferty, que tratava dos assassinatos de 1984 de uma mulher e uma criança por dois fundamentalistas mórmons, Ron e Dan Lafferty. Pelas últimas várias décadas, a questão da saúde mental de Ron Lafferty teve um papel chave no caso, como ambos os lados se combateram sobre a sua competência para ir a julgamento.

 

A defesa argumentou que Ron é doente mental e portanto não deveria ser executado. Em entrevistas, Ron afirmou ser um profeta, confirmou ouvir a voz de Cristo e expressou medos acerca de “um espírito homossexual malévolo tentando invadir o seu corpo através do ânus”. Especialistas psiquiátricos testemunharam que Ron parecia sofrer de uma doença psicótica, tal como transtorno esquizoafetivo.

 

A acusação buscou sustentar a sua competência para ir a julgamento, relacionando as suas ideias bizarras a práticas religiosas pelo mundo. Nas palavras do Dr. Noel Gardner, um psiquiatra que testemunhou pela acusação, “a maioria das pessoas em nosso país crê em Deus. A maioria das pessoas em nosso país diz que reza para Deus. É uma experiência comum. E embora os rótulos que Lafferty usa certamente sejam incomuns, as formas de pensamento em si são na realidade muito comuns… a todos nós”.

 

Uma coluna de notícias local de 2013 resumiu as complexidades deste caso em andamento — “Onde está a linha entre fé e delírio? Entre malícia e doença mental?”

 

Estas são questões difíceis. As práticas da cientologia e do fundamentalismo mórmon estão longe de ser os únicos exemplos desta linha frequentemente turva entre religião e assistência em saúde mental. Virtualmente toda religião tem as suas crenças e rituais incomuns, desde consumir a carne e sangue de Cristo no Catolicismo a jejuar como um modo de redimir-se pelos pecados no Judaísmo.

 

Alguns foram longe a ponto de argumentar que a religião pode na realidade ser uma forma de doença mental. Em 2006, o biólogo Richard Dawkins publicou seu livro The God Delusion [NT: Deus, um Delírio, na tradução em português], em que caracteriza a crença em Deus como delirante. Dawkins cita a definição de delírio como “uma crença falsa persistente mantida em face de fortes evidências contraditórias, especialmente como um sintoma de um transtorno psiquiátrico”.

 

O livro de Dawkins mostrou-se amplamente controverso, provocando réplicas acadêmicas, email de ódio e até ameaças de pôr seus publicadores da cadeia. Ainda assim, à altura de 2014, The God Delusion vendeu mais de 3 milhões de cópias pelo mundo todo.

 

Como um prestador de serviço de saúde mental, não creio que seja meu trabalho fazer julgamento das crenças religiosas dos meus pacientes. É meu trabalho usar evidências médicas para avaliar e tratar doenças mentais de modo a aliviar o sofrimento entre os meus pacientes. Hoje, temos alguns testes médicos objetivos para diagnosticar doenças mentais, como em neurossífilis ou deficiência em B12. Mas precisamos de mais para ajudar a nos guiar pelas circunstâncias difíceis em que a assistência em saúde mental e a religião colidem.

 

Com o tempo, no entanto, talvez tenhamos. Tenho fé.

 

1. Artigo escrito em dezembro de 2016.

2. A versão em documentário do livro está disponível no Netflix.

 

 

Nathaniel P. Morris é médico residente em psiquiatria na Stanford University School of Medicine.

Tradução: Luan Rafael Marques.

Link para o original.

Este estudante de filosofia está extremamente interessado e esperançoso pelas crescentes ciências da mente. Ele acredita que podemos chegar ao consenso pelo diálogo racional e superar nossos vários tribalismos. Ele também acredita que um grande passo nessa direção é esclarecer sobre os fatos da nossa natureza e vieses, seguir o oráculo e conhecermo-nos a nós mesmos. A Rainha de Copas disse a Alice que conseguia acreditar em seis coisas impossíveis antes do café-da-manhã. Ele está quase lá.

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