Como confirmar um diagnóstico psicopatológico?

Vontade reduzida para sair de casa e de realizar atividades cotidianas, apatia frequente ao lembrar que há trabalhos da faculdade para serem feitos, choro constante ao evocar memórias relacionada à família, desânimo ao perceber que suas notas estão diminuindo no decorrer do semestre, dificuldades acentuadas em fazer novas amizades, sentimento de desesperança e crenças arraigadas de que nunca irá conseguir terminar a faculdade.

 

Imagine que você é o psicólogo que recebe e atende Juliane (nome fictício) em seu consultório, e os sintomas descritos acima são relatados, observados e percebidos por você com claro sofrimento. Qual sua atitude? Adotaria os sintomas e os relacionaria a partir de uma hipótese diagnóstica? Será realmente necessário a elaboração de um diagnóstico psicopatológico? E se surgisse a informação de que a Juliane se mudou para uma cidade distante, e que essa mudança causou o afastamento de sua família, namorado, amigos, e ela se encontra a 3 meses sozinha nessa nova cidade. Essa informação seria relevante quando associada aos sintomas relatados acima?

 

Apesar do conhecimento que detemos acerca das teorias psicopatológicas contemporâneas, ainda assim sentimo-nos tentados a destinar um diagnóstico para a Juliane. E, apesar dos poucos sintomas descritos, nosso conhecimento levam-nos a crer que a hipótese diagnóstica poderia ser um Transtorno Depressivo Maior (TDM). Ao iniciar esse texto, a intenção era que esses sintomas caracterizassem um problema de adaptação, o que talvez não tenha ficado tão claro assim. De modo geral, esse é um dos problemas encontrados ao se embasar somente em aspectos isolados para elaboração de um diagnóstico psicopatológico: a dificuldade de se aperceber da função que esses sintomas possuem no contexto atual em que o sujeito está inserido.

 

Resultado de imagem para transtorno de adaptação

Fonte: http://www.psiesaude.com.br/transtorno-adaptacao.html, 2018.

 

O caso da Juliane retrata o de muitos que recebem diagnóstico e tratamento à base de Sertralina ou Fluxotina. Ambos preferíveis por deterem uma única consequência: serem métodos bioquímicos resolutivos nos níveis fisiológicos e eficazes a curto prazo. Entretanto, se substituído por análises funcionais e cognitivas, o tratamento podia ser embasado em teorias que modificassem às atitudes do paciente frente ao mundo, assim como na modificação do modo geral como ele enfrenta seus problemas, o que, por conseguinte, deteria grandes chances de eficácia a médio/longo prazo. Essa tênue e sutil fronteira é que proporciona as tantas controvérsias quando se aborda o tema “normalidade versus anormalidade” em psicopatologia.

 

Mas afinal, como se define e se estrutura o conhecimento científico psicopatológico? Apostaremos tratar de algumas nuances a seguir.

 

CRITÉRIOS GERAIS PARA UM DIAGNÓSTICO PSICOPATOLÓGICO

 

Dalgalarrondo (2008) define psicopatologia, em sentido mais amplo, como um agrupamento de saberes referentes à saúde mental do ser humano, por si só, esse conhecimento não é permissivo na inferência de dogmas ou verdades, e sim, lida de modo sistemático e elucidativo, estando permanentemente aberto às modificações propiciadas pelos achados científicos. No entanto, há diversos meios que acabam se tornando argumentos causais em meio às profissões na área da saúde, um dos mais recorrentes são as causas socioculturais. O termo em si se refere às diversificadas formas de influências que ocorrem especificamente em determinado local.

Essas influências podem ser tratadas como estigmas sociais, ou seja, um rótulo que segrega pessoas “diferentes” morfologicamente ou àquelas que emitem comportamentos, ou expressam cognições, discrepantes das que vivem no mesmo local. Infelizmente, essas conjunturas socioculturais são comumente utilizadas na atuação prática dos profissionais inseridos nesse local, paradigma que necessita ser completamente quebrado quando se fala em práticas baseadas em evidências científicas. Esse é um cuidado que qualquer profissional da saúde, com poder de decisão para definir um diagnóstico, deve atentar.

 

Imagem relacionada

Fonte: http://www.voixdespatients.fr/schizophrenie-maladie-tres-stigmatisee.html

 

Na prática psicoterápica, sinais e sintomas expressos por um paciente, são categorizados em dois grandes grupos: síndromes e entidades nosológicas. Síndromes se caracterizam, principalmente, por agrupamentos constantes de sinais e sintomas estáveis, porém, estes ainda não podem ser etiologicamente identificados como resultado do processo patológico. São, de modo geral, um agrupamento recorrente e momentâneo de sinais e sintomas, que pode ou não estar associado à uma psicopatologia. Já as entidades nosológicas, a priori, são estados dos quais se pode presumir, a partir da semiologia apresentada, seu percurso de modo geral e os possíveis tratamentos. Essa previsibilidade é possível pois seus mecanismos genéticos, neurológicos, bioquímicos e psicológicos são conhecidos, ou seja, possuem uma etiologia bem definida.

 

Em Psicopatologia há um grande esforço para a identificação concisa dessas entidades nosológicas, visto que, ao conhece-las, torna possível a aplicação de potenciais tratamentos e mensurar sua efetividade de modo preciso, tornando presumível sua generalização para outros casos, e assim, avançar na construção de práticas interventivas baseadas em dados científicos. Porém, essa não é uma tarefa muito fácil. De modo geral, os casos extremos em que as mudanças cognitivo-comportamentais são acentuadas, intensas e mantém um percurso estável, não são difíceis para o desenvolvimento de uma hipótese diagnóstica, entretanto, há casos em que o delineamento dessas fronteiras é complexo, principalmente quando se trata da manifestação de comportamentos expressos pelo sujeito ditos patológicos e as formas de “sentir-se normal” desse sujeito.

 

Imagem relacionada

Fonte: https://www.cbsnews.com/news/second-language-protects-against-alzheimers/

 

Essa discussão nos encaminha para um campo arenoso das áreas de saúde em geral, a dicotomia entre o que é normal e o que é patológico. Essa temática é fomentada por décadas, e propiciou a construção de diversificados critérios relacionados à normalidade/anormalidade, delineadas a partir de posições ideológicas, filosóficas e funcionais. Especificamente, em psicopatologia, nove são os critérios costumeiramente utilizados para caracterizar o conceito de normalidade, são elas: normalidade como ausência de doença, normalidade ideal, normalidade estatística, normalidade como bem-estar, normalidade funcional, normalidade como processo, normalidade subjetiva, normalidade como liberdade e normalidade operacional. Cada um desses critérios será abordado em textos subsequentes.

 

Por conseguinte, é possível observar a complexidade do tema em questão, principalmente no que se refere em sua aplicação prática, afinal, há seres humanos que dependem dos resultados dessa discussão. Assim, processo de diagnóstico é uma relação dialética entre o particular e o universal, de maneira que a concepção conceitual de diagnóstico deve ser compreendida a partir de constructos, basilares para o trabalho científico.

 

 

REFERÊNCIAS

 

ASSUMPÇÃO, F.B. (2008). Psicopatologia Evolutiva. Porto Alegre: Artes Médicas do Sul.

CUNHA, J, A. (2003). Psicodiagnóstico-V. Porto Alegre: Artes Médicas do Sul, 5 ed.

DALGALARRONDO, P. (2008). Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artes Médicas do Sul, 2 ed.

WHITBOURNE, S. K; HALGIN, R. P. (2015). Psicopatologia: perspectivas clínicas dos transtornos psicológicos. Porto Alegre: Artes Médicas do Sul, 7 ed.

 

Graduando de Psicologia e membro técnico administrativo da Comissão de Auto Avaliação do Curso de Design (2016 – atual) do Centro de Ciências Sociais Aplicadas – Comunicação, Turismo e Lazer, da Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI). Atualmente participa do projeto de pesquisa para o desenvolvimento de jogo eletrônico para o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade embasados em áreas da Neuropsicologia e Terapia Cognitivo-Comportamental, projeto financiado pelo Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (FAPESC), e do projeto de pesquisa para a aplicação de um grupo de Promoção da Saúde baseado em Terapia Cognitivo-Comportamental para acadêmicos de Psicologia de uma Universidade do litoral Norte de Santa Catarina. Atua como facilitador de grupos voltados à orientação parental para pais ou cuidadores de crianças entre zero e oito anos, embasados no protocolo da Association American Psychology (APA), ACT – para educar crianças em ambientes seguros. É administrador, e colaborador, do portal Revista Eletrônica de Psicologia Científica SimplesMente (2016 – atual).

Faça um comentário!