Altruísmo recíproco

 

Para as sociedades sobreviverem e prosperarem, uma proporção significativa dos seus membros deve se empenhar no altruísmo recíproco. Todo tipo de animal, incluindo os humanos, pagará altos custos individuais para oferecer benefícios a um outro que não seja íntimo. De fato, este tipo de altruísmo tem um papel crucial na produção de culturas cooperativas que melhoram o bem-estar, sobrevivência e aptidão do grupo.

 

A formulação inicial do altruísmo recíproco focava numa estratégia olho-por-olho em que o altruísta espera uma resposta cooperativa do recipiente. Os teóricos dos jogos postulam um retorno quase que imediato (embora iterado), mas os biólogos evolutivos, economistas, antropólogos e psicólogos tendem a se preocupar mais com retornos ao longo do tempo para o indivíduo ou, mais interessante, para o coletivo.

 

As evidências são fortes que para muitos altruístas recíprocos humanos o ressarcimento antecipado não é necessariamente para a pessoa que faz o sacrifício inicial ou sequer para os membros da família dela. Por criar uma cultura de cooperação, a expectativa é que suficientes outros indivíduos realizarão atos altruístas tantos quanto necessário para assegurar o bem-estar daqueles dentro das fronteiras da dada comunidade. O retorno para altruístas recíprocos de visão tão longa assim é o estabelecimento de normas de cooperação que perduram além da existência de qualquer altruísta em particular. Relacionamentos de troca de presentes documentados por antropólogos são mecanismos de redistribuição para assegurar a estabilidade do grupo; também o são a filantropia institucionalizada e os sistemas de assistência social nas economias modernas.

 

Em questão está a maneira como normas de doação evoluem e ajudam a preservar um grupo. O altruísmo recíproco — seja com expectativa imediata ou de longo prazo — oferece um modelo de comportamento apropriado, mas, igualmente importante, põe em movimento um processo de reciprocidade que define as expectativas daqueles na sociedade. Se as normas se tornam fortes o bastante, aqueles que se desviam serão sujeitos à punição — interna na forma de vergonha e externa na forma de penalidades que variam de repreensões verbais, tortura ou confinamento e banimento do grupo.

 

O altruísmo recíproco nos ajuda a entender a criação da ética e das normas numa sociedade, mas ainda precisamos entender mais claramente o que inicia e sustenta a cooperação altruísta ao longo do tempo. Por que alguém seria altruísta para início de conversa? Sem algumas motivações individuais, muito poucos se empenhariam na ação altruísta. Pode ser que uns poucos indivíduos altamente moralistas sejam chave; uma vez que haja um motor primário disposto a pagar o preço, outros seguirão conforme as vantagens se tornam mais claras ou os custos que devem aguentar são diminuídos.

 

Outras explicações sugerem que o doar pode ser motivado por uma expectativa razoável de reciprocidade ou recompensas ao longo do tempo. Outros fatores também apoiam o altruísmo recíproco, tais como as emoções positivas que podem envolver o ato de doar, a lição que Scrooge aprendeu. O mais provável é que haja uma combinação de motivações complementares: Tanto Gandhi quanto Martin Luther King foram sem dúvida movidos por princípios morais e indignação diante das injustiças que perceberam, mas também ganharam fama e adulação. Exemplos menos famosos de sacrifício, caridade e cooperação custosa são abundantes — alguns exigindo reconhecimento, alguns não.

 

Para o altruísmo recíproco de visão longa se sustentar numa sociedade, em última instância requer-se uma moldura duradoura para o estabelecimento de princípios e ética. O altruísmo recíproco é reforçado por uma cultura que tenha normas e regras de comportamento, torne a punição legítima para os desvios e ensine a seus membros a sua ética particular de responsabilidade e justiça. Se a moldura organizacional da cultura projetar incentivos apropriados e evocar motivações relevantes, ela assegurará um número suficiente de altruístas recíprocos para a sobrevivência da cultura e sua ética.

 

O altruísmo recíproco de visão longa é chave para a cooperação humana e para o desenvolvimento de sociedades em que as pessoas tomam conta umas das outras. No entanto, há imensa variação em quem conta na população relevante e o que eles devem receber como presentes e quando. A existência do altruísmo recíproco não decide estas questões. De fato, a expectativa de reciprocidade pode tanto reduzir como até minar o altruísmo. Pode limitar a doação de presentes apenas ao endogrupo onde tais obrigações existem. Talvez se ficarmos apenas no domínio da aptidão do grupo (ou, para ser franca, no tribalismo), tal comportamento possa ainda ser considerado ético. Mas se estamos tentando construir uma sociedade duradoura e abrangente, fronteiras restritivas em torno dos beneficiários merecedores de atos altruístas se tornam problemáticas. Se aceitamos tais fronteiras, entramos rapidamente no domínio das guerras e do terrorismo em que algumas populações são consideradas não-humanas ou, ao menos, não-merecedores de beneficência.

 

O conceito de altruísmo recíproco nos permite explorar o que significa ser humano e viver numa sociedade humana. O reconhecimento da significância do altruísmo recíproco para a sobrevivência de uma cultura nos conscientiza de quão dependentes somos uns dos outros. Sacrifício e doação, a matéria prima do altruísmo, são ingredientes necessários para a cooperação humana, que é ela própria a base de sociedades eficazes e prósperas.

 

 

Margaret Levi é professora de ciência política na Stanford University.

Tradução: Luan Rafael Marques

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Este estudante de filosofia está extremamente interessado e esperançoso pelas crescentes ciências da mente. Ele acredita que podemos chegar ao consenso pelo diálogo racional e superar nossos vários tribalismos. Ele também acredita que um grande passo nessa direção é esclarecer sobre os fatos da nossa natureza e vieses, seguir o oráculo e conhecermo-nos a nós mesmos. A Rainha de Copas disse a Alice que conseguia acreditar em seis coisas impossíveis antes do café-da-manhã. Ele está quase lá.

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