A psicologia social de uma nação dividida

A natureza falível da percepção social humana e as eleições de 2016[1]
 

Por décadas os psicólogos sociais têm demonstrado que nossos sistemas de percepção social estão recheados de vieses e erros. Tendemos a superestimar as características particulares dos outros como base para avaliar suas conclusões (Ross, 1977), a tratar membros de grupos artificialmente diferentes do nosso de modo negativo (Billig & Tajfel, 1973), e a ver pessoas de grupos definidos como “diferentes do nosso” como se fossem todas iguais (Haslan et al., 1996). Por que razão há tantos problemas sociais no mundo? Eis uma resposta: nossos sistemas de percepção e cognição social são muito confusos. E isto quando eles estão funcionando normalmente.

 

O efeito de falso consenso (Ross et al., 1977) é um desses vieses social-perceptivos básicos que pode ajudar a fornecer insights sobre o cenário atual. Esse efeito consiste na tendência a superestimar o grau com que os outros compartilham nossos pensamentos, atributos e crenças. Num estudo detalhado sobre esse tema (conduzido por minha esposa e psicóloga social, Kathy – há alguns anos!), os membros de um grande grupo de estudantes universitários foram interrogados se concordavam ou discordaram de uma grande bateria de questões sociais (por exemplo: aborto, legalização de drogas, etc.). Depois de forneceram suas respostas, lhes foi perguntado qual percentual de pessoas provavelmente responderia como eles próprios responderam. Os resultados? Impressionantes. As respostas dadas a praticamente todas as questões do teste mostraram que os testandos acreditavam que a maioria das pessoas concordaria com suas opiniões. Quem era pró-aborto, por exemplo, tendia a pensar que a maioria dos outros também era, enquanto aqueles que eram contra estavam bastante certos de que a maioria ali concordava com sua opinião (Ver Bauman et al., 2003).

 

 

Na pesquisa de Kathy, o efeito de falso consenso foi detectado numa extensa gama de questões sociais, incluindo: aborto, eutanásia, pena de morte, pesquisa médica, pesquisa cosmética, legalização de drogas, pornografia, alegação de insanidade, redução de idade para beber, leis de cintos de segurança, militância feminina, distribuição de preservativos em escolas, ações afirmativas, casamento gay e oração nas escolas. Para cada uma dessas questões, as estimativas dos participantes sobre o que os outros pensavam refletiam fortemente (independente da precisão) o que eles mesmos acreditavam. O efeito de falso consenso mostrou-se, portanto, uma característica onipresente de como pensamos sobre questões sociais.

 

O EFEITO DO FALSO CONSENSO E AS ELEIÇÕES DE 2016

 

Como escrevi numa publicação anterior, as reações aos resultados das eleições de 2016 nos fornecem uma situação psicossociológica impar, com implicações de amplo alcance para nosso futuro.  Uma questão que emergiu pode ser denominada de “a questão de Como diabos essas pessoas votam desse jeito!?” Mais do que em qualquer outra eleição que eu possa imaginar, as pessoas estão se sentindo genuinamente indignadas sobre esta. E enquanto essa indignação em larga escala é multifacetada, uma parte essencial dela pertence ao fato de que as pessoas estão de seu lado, tentando entender como as pessoas “do outro lado” votaram como votaram. Os eleitores de Trump sentem pouca empatia pelos que apoiaram Hillary, enquanto estes sentem-se bastante indignados pelo grande número de pessoas que votou em Trump.  Em muitos sentidos, essa é a questão proeminente para os EUA no momento. É a questão nacional sine qua non.

 

Compreender o efeito de falso consenso nos oferece uma maneira de entender o que está havendo, pelo menos parcialmente. Antes das eleições, os apoiantes de Hillary estavam rodeados por mais apoiantes de Hillary. Eles mantinham valores e crenças que consideravam obviamente verdadeiros, e que precisavam ser compartilhados por todos que haviam pensado sobre questões importantes. Acreditavam que a maioria estava como eles e que, de tal modo, ela venceria as eleições. Eu sei disso, porque cai nessa! Essa tendência para pensar (mesmo que incorretamente) que a maioria das pessoas partilha conosco nossas crenças e valores é quase que exatamente o efeito de falso consenso.

 

 

Por sua vez, os apoiantes de Trump tinham eles mesmos suas crenças e grupos sociais no período pré-eleição. Eles provavelmente se relacionavam com outros que em sua maioria compartilhavam suas ideias e crenças. E provavelmente acreditavam, em parte devido ao que ouviam em seus círculos pessoais, que a maioria concordava com sua própria visão sobre as coisas — pensavam que suas escolhas eram as corretas e que qualquer um que olhasse cuidadosamente para a atual conjuntura acabaria tomando a mesma decisão. De novo, esse é exatamente o modo como o efeito de falso consenso trabalha.

 

Um resultado adverso associado ao raciocínio de falso consenso é este: quando nossas crenças sobre o que os outros pensam se mostram incorretas, podemos nos sentir chocados. Afinal, se estou convicto de que a maioria das pessoas concorda comigo, e descubro que a verdade é que a maioria delas discorda fortemente de mim, isso pode ser um rude despertar. O efeito de falso consenso, portanto, pode conduzir a discordâncias muito fortes e até mesmo polarizadas, gerando interações negativas entre grupos sociais. E, até certo ponto, estamos vendo isso ocorrer atualmente, no que aparentemente temos uma nação dividida.

 

PONTO CRÍTICO

 

O seguimento das eleições de 2016 foi nada menos do que segregativo. Pessoas de todo o espectro político sentiram-se chocadas com “o outro lado”, percebendo-se incapazes de compreender como tantas pessoas possuem valores, etc., tão discrepantes dos seus. Essa larga escala de discórdia deve-se em parte ao efeito de falso consenso: a tendência de superestimar a crença de que os outros acreditam no mesmo que nós.

 

Gostemos ou não, o efeito de falso consenso é um dos mais comuns vieses psicossociológicos que formata o modo como entendemos diariamente nossos mundos sociais. Seria sábio que todos os esforços para avançar como nação, tirassem lições da psicologia social, a qual possui uma história longa em ajudar a iluminar discórdias e desacordos sociais de larga escala.


[1] Um dos motivos que me fizeram traduzir esse artigo é que ele se aplica muito bem à paisagem política brasileira.

 

 

Tradução:  Marcus Vinicius de Matos Escobar

Veja o artigo original aqui.

Sobre o autor: Glenn Geher, Ph.D., é detentor da cadeira de psicologia na Universidade Estadual de Nova York. Ministra cursos de graduação e pós-graduação, além de realizar pesquisas em várias áreas relacionadas à psicologia evolutiva. Clique aqui para ver a biografia completa. 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Bauman, K.P., & Geher, G. (2003). The Role of Perceived Social Norms on Attitudes and Behavior: An Examination of the False Consensus Effect. Current Psychology: Developmental, Learning, Personality, Social, 21, 293-318.

 

Billig, M., & Tajfel, H. (1973). Social categorization and similarity in intergroup behaviour. European Journal of Social Psychology, 3, 27–52.

 

Geher, G., Bauman, K.P., Hubbard, S.E.K., & Legare, J. (2002). Self and other obedience estimates: Biases and moderators. The Journal of Social Psychology, 142, 677-689.

 

Haidt, J. (2007). The new synthesis in moral psychology. Science, 316, 998-1002.

 

Haslam, Alex; Oakes, Penny; Turner, John; McGarty, Craig (1996). “Social identity, self-categorization, and the perceived homogeneity of ingroups and outgroups: The interaction between social motivation and cognition”. In Sorrentino, Richard; Higgins, Edward. Handbook of Motivation and Cognition: Foundations of Social Behavior. 3. New York: Guilford Press. pp. 182–222.

 

Ross, L., & Nisbett, R.E. (1991). The Person and the Situation: Perspectives of Social Psychology. New York: McGraw Hill.

 

Ross, L. (1977). The intuitive psychologist and his shortcomings: Distortions in the attribution process. In L. Berkowitz (Ed.), Advances in experimental social psychology (vol. 10). New York: Academic Press.

 

Ross, L., Greene, D., & House, P. (1977). The false consensus effect: An egocentric bias in social perception and attribution processes. Journal of Experimental Social Psychology, 13(3), 279-301.

Comentários no Facebook