A falácia mereológica da neurociência é uma chatice analítica da filosofia?

Há pouco mais de dois anos, ao apresentar um pequeno trabalho intitulado “A falácia mereológica da Neurociência” no XIII Congresso Brasileiro da SBNp, eu fui questionado sobre se os problemas filosóficos, sobretudo os conceituais, são realmente relevantes para a Neurociência. “Afinal”, perguntaram-me, “em que sentido isso é importante para nós?”. Infelizmente, o descaso do avaliador do meu painel não foi desfeito por eu ter mencionado que os conceitos que utilizamos na ciência influenciam não apenas as perguntas que formulamos, mas também como interpretamos nossos dados e como eles são divulgados pela mídia. E, cá para nós, uma afirmação como “uma parte do cérebro fora do seu controle é quem escolhe por você” está longe de ser inofensiva – e não chega perto de fazer qualquer sentido.

 

 

A falácia mereológica da Neurociência é o erro de se atribuir ao cérebro predicados que só fazem sentido quando atribuídos ao indivíduo inteiro[1]. Exemplos desses predicados são “percebe”, “sente” e “toma decisões”. Nós sabemos o que significa dizer que um indivíduo percebe, sente e toma decisões, mas não há qualquer sentido na afirmação de que um cérebro percebe, sente e toma decisões. Para que haja algum sentido em atribuir esses predicados ao cérebro, é necessário estabelecer critérios neurobiológicos que os justifiquem. Por exemplo, enquanto aprendemos (e depois disso), uma série de modificações sinápticas ocorrem no cérebro. Caso convencionemos que essas modificações correspondem a uma “aprendizagem neural”, então teríamos um bom critério – as modificações sinápticas – para dizer inteligivelmente que “o cérebro aprende”. Mas, como Bennett e Hacker demonstraram (2003), os neurocientistas não estabelecem qualquer tipo de critério para atribuírem predicados psicológicos ao cérebro.

 

Mesmo que os neurocientistas estabelecessem esses critérios, haveria um segundo problema a ser encarado, a saber, o de aqueles predicados se tornarem ambíguos. Haveria, por exemplo, o aprender (psicológico) e o “aprender” (neurobiológico), o lembrar (psicológico) e o “lembrar” (neurobiológico) e o planejar (psicológico) e o “planejar” (neurobiológico). Isso geraria muitíssimo mais confusão ao nos comunicarmos do que costuma gerar o uso rotineiro do termo “manga” – que pode ser um fruto, a parte de um vestuário ou um tubo flexível.

 

Vejamos um exemplo de como o uso indiscriminado dos predicados psicológicos pode gerar confusões. Na reportagem de Salvador Nogueira[2] intitulada O livre-arbítrio não existe: Você é escravo do seu cérebro, John Dylan-Haynes comenta que, “nos casos em que as pessoas podem tomar decisões em seu próprio ritmo e tempo, o cérebro parece decidir antes da consciência”. O que pensar de uma afirmação como essa? Quer dizer que existe uma “decisão pessoal”, uma “decisão cerebral” e, de bônus, uma “decisão da consciência”? O que exatamente elas são, qual é a diferença entre elas e como elas se relacionam? E, uma vez que “você é escravo do seu cérebro” (Nogueira, 2008), ou, como a Galileu alardeou no ano passado, uma vez que “VOCÊ NÃO DECIDE”, seria o caso de a decisão pessoal ser uma ilusão?

 

Notem como a confusão conceitual pode suscitar tanto interpretações confusas de experimentos quanto pseudoproblemas (filosóficos e científicos). Ora, os neurocientistas podem até demonstrar que a decisão de uma pessoa numa situação controlada pode ser prevista a partir da atividade de seu cérebro, mas isso não significa que o cérebro é quem decide nem que as pessoas não tomam decisões. Tal como o esclarecimento sobre o que ocorre no cérebro antes de dizermos “Obrigado!” não implicaria em que as pessoas não dizem “Obrigado!”, o esclarecimento sobre os processos neurobiológicos que antecedem uma decisão não implica em que as pessoas não tomam decisões. Naturalmente, o esclarecimento conceitual evitaria esse tipo de confusão.

 

Fonte: https://goo.gl/k42ONj

 

E ENTÃO, O QUE FAZERMOS COM ISSO?

 

Como adiantei, minha tentativa de demonstrar que o rigor conceitual pode beneficiar a Neurociência não foi bem-sucedida. O avaliador do meu trabalho comentou que “aquele livro [o Fundamentos filosóficos da Neurociência, a partir do qual baseei meu trabalho] é muito chato”, e um colega me disse noutra ocasião que os neurocientistas vão indo muito bem sem esse tipo de preocupação. Por isso, por que não podemos simplesmente deixar as coisas como estão?

 

Boa parte dos neurocientistas, sobretudo aqueles que integram a Neurociência Cognitiva, assumiu a árdua tarefa de investigar as bases neurobiológicas do comportamento (e, caso queiram distinguir, da cognição). Sua investigação é empírica, e não conceitual, e isso explica por que eles estão mais interessados em causas do que em definições. Não há nada de lamentável nisso. Mas, se alguns filósofos se dedicam a investigar nossos erros conceituais e a tentar nos ajudar a evitá-los – e a explicar por que pode ser bom evitá-los –, por que não darmos ao menos um pouco de atenção ao assunto? Sempre gostei da característica interdisciplinar da Neurociência, mas eu estou começando a sentir que os neurocientistas não curtem uma “crítica interdisciplinar”.

 

Eu, a partir do meu cérebro e sob a boa influência dos meus colegas da Filosofia, decidi não deixar as coisas como estão.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

[1] Bennett, M. R., & Hacker, P. M. S. (2003). Fundamentos filosóficos da Neurociência. Lisboa: Instituto Piaget.

 

[2] Nogueira, S. (2008). O livre-arbítrio não existe: a ciência comprova: você é escravo do seu cérebro. Disponível em: http://super.abril.com.br/saude/livre-arbitrio-nao-existe-447694.shtml 

Sou psicólogo clínico com mestrado em Neurociências (UFMG) e professor de Psicologia (Faculdade Pitágoras). Pesquiso “ceticismo espiritual” em meu doutorado (UFMG), mas tenho grande interesse pelos assuntos religiosos/espirituais em geral. Nas horas livres, curto a vida com meus companheiros de banda (Quarto Andar), amigos, família e namorada. Se alguém descobrir o sentido da vida, envie a resposta para foc94@hotmail.com.

2 comentários em “A falácia mereológica da neurociência é uma chatice analítica da filosofia?

  1. Oi! Tudo bem, Daniel? Primeiramente, parabéns pela iniciativa em produzir esse conteúdo e ir na contramão da divulgação mainstream da neurociência. Bom, perdi as contas de quantas vezes já ouvi que discussão conceitual é chata e desnecessária. Sou apaixonada por Análise do Comportamento e, como exemplo, eu poderia arriscar que a linguagem e a aplicação dos conceitos (interpretação do fenômeno) são algumas características que, de forma geral, distinguem a Terapia Comportamental da Terapia Cognitivo-comportamental. Não é uma diferença de efeito apenas estético (ou, como alguns dizem, de “acessibilidade” já que nosso senso comum está inundado de termos mentalistas/cognitivos) pois, ao interpretar e validar algum tipo de intervenção, por exemplo, facilmente pode-se afirmar que o sujeito mudou o modo de se comportar PORQUE o pensamento mudou; mas, afinal, “o que mudou o pensamento?” No “frigi dos ovos” (como diz o pessoal por aqui em Alagoas), o que mudou foi o ambiente, o procedimento terapêutico mudou o comportamento do sujeito, tornando-o pró-ativo com mais frequência (realizando mais atividades e pensando em superar novos desafios). Do contrário, posso fazer uma analogia semelhante e afirmar que é como dizer que eu mudei de comportamento PORQUE meu cérebro mudou ou porque LIBEROU dopamina. A liberação de algum neurotransmissor ou a inibição da recaptação deste, ao meu ver, sustentam apenas uma dimensão neurobiológica do comportamento, ou seja, é um ângulo de observação sobre o mesmo fenômeno e não necessariamente sua causa. O mais curioso é que há behavioristas atribuindo um caráter causal e independente à atividade cerebral exatamente como era apresentado ao conceito de mente ou a qualquer outra instância inventada sobre a qual as pessoas chamavam “eu interior” ou “essência”. Curioso porque, como você deve saber, o behaviorismo pressupõe uma rejeição ao mentalismo. Alguns trabalhos têm sido realizados no Brasil em que o foco é uma discussão interdisciplinar entre Análise do Comportamento, Neurociência e Epigenética¹, com o objetivo de apresentar reflexões sobre o que os neurocientistas e B. F. Skinner, por exemplo, concordam e discordam ao analisar alguns fenômenos em comum e suas causas. Não cheguei a ler a obra sobre a qual você citou mas identifiquei uma certa concordância com alguns trechos de um artigo² em que Skinner critica algumas proposições atribuídas ao cérebro quando só fazem sentido quando atribuídas ao sujeito que se comporta, como você mesmo citou. Acredito que temos avançado e espero que novos trabalhos como este possam ser desenvolvidos! É um tema que muito me interessa.

    Ps.: Sobre o trabalho em si e o artigo, achei daora sua iniciativa de ir na contramão e apresentar um trabalho desse nível num congresso, ouvir um avaliador te chamando de chato e fazer cara de paisagem! Hahahaha Penso que é no contraditório que a gente reflete e cresce.

    Abraço!
    Anne.

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