A contingência da Economia de Fichas: Parte I

Existe um número grande de procedimentos fundamentados pela Análise do Comportamento. Em uma sessão de terapia, eles são utilizados de modo coordenado e dinâmico para darem corpo às estratégias analíticas e interventivas do profissional. Mesmo havendo muitos métodos à disposição, a maneira própria pela qual funciona a Análise do Comportamento permite que o terapeuta seja inovador, e crie ou reformule técnicas conforme a especificidade das condições que levaram o cliente ao consultório.   

 

Nesse cenário prático e embasado na noção behaviorista radical de que o comportamento é uma relação complexa de circunstâncias e probabilidades, entende-se a intervenção como um fruto do estudo pormenorizado e funcional das condições relevantes relacionadas à queixa trazida pelo cliente. Desse modo, a solução da problemática na terapia depende da reorganização do modo como a pessoa age, e na programação das principais contingências da vida atual do indivíduo.

 

Contingência, para os que não têm familiaridade com o termo, significa a relação funcional/probabilística entre condições ambientais e comportamentais. Um comportamento-alvo pode ser analisado ao se considerar o contexto que o antecede e as condições que o sucedem, entendidas como as consequências da ação. A consideração dos três termos (antecedente, comportamento e consequência) da contingência possibilita a elaboração de hipóteses e de intervenções. Aqui se vê que contingência seria a unidade de análise que permite que um comportamento faça sentido ao terapeuta. Argumenta-se, nesses termos, que a terapia é uma intervenção contingencial na via verbal.

 

Antes de adentrarmos na explicação sobre Economia de Fichas, o leitor deve estar ciente de que não se faz intervenção terapêutica com técnicas isoladas. A resolutividade, na prática analítico-comportamental, dependerá sempre de arranjos de procedimentos.

 

DO PROCEDIMENTO

 

Dentre estes procedimentos terapêuticos, a Economia de Fichas figura entre os que mais são usados com crianças. Trata-se de um método simples de programação de contingências e, apesar de ser muito usado, pode ser inadequadamente aplicado caso não seja observada cuidadosamente a sua forma de execução.

 

Indo direto ao ponto, a Economia de Fichas organiza condições para que alguns comportamentos sejam “premiados”, tendo a finalidade de mudar aspectos do modo como a pessoa age (ZAMBOM, 2006). É preferencialmente usada em crianças com excessos[1] ou com déficits[2] comportamentais, e seu funcionamento segue sempre a seguinte regra: elabora-se um formulário aparelhado na forma de um acordo feito entre a criança e seus pais, ou professor, com a mediação do psicólogo. No formulário, especifica-se os comportamentos desejados para a criança executar em certas situações, por meio do fornecimento de fichas com valores variados de pontuação, que depois serão trocadas por prêmios em períodos fixados ou após atingida uma quantidade arbitrária de pontos; condutas indesejadas não recebem fichas ou, conforme as condições estabelecidas, podem ser subtraídas aquelas já conseguidas (BORGES, 2004).

 

Ilustração de atendimento psicológico à criança. Fonte: elpsicoasesor.com

 

Antes desta intervenção contingencial, convém descobrir o que é efetivo para fortalecer o comportamento desejado do sujeito por meio de entrevistas com os pais ou com os cuidadores do paciente (além destes, a pessoa entrevistada pode ser uma outra criança ou até mesmo alguma pessoa adulta em condição psiquiátrica grave, se conveniente). Muito importante que o paciente seja entrevistado também. Caso haja necessidade, experimentos devem ser realizados para que os reforçadores [3] adequados sejam descobertos (ZAMBOM, 2006).

 

Depois de concluída uma lista de prêmios, o profissional deverá elencar os que forem satisfatórios, ou seja, aqueles pelos quais a criança se empenharia mais para conseguir. Também deverá organizar um esquema de pontuação com as fichas, e vinculá-lo aos comportamentos desejados, de modo a atribuir níveis de dificuldade para alcançar os valores das mesmas (BORGES, 2004).

 

Em suma, um menu de “recompensas” e um menu de comportamentos desejados devem ser elaborados de modo a especificar reforçadores de pequeno, médio e grande valor, com o valor do reforçador posto como inseparável da dificuldade do empenho para obtê-lo. Obviamente que essa etapa é fruto de negociações entre a criança e os aplicadores. A aplicação revelará a simplicidade por trás da aparente complexidade que sugere a descrição do procedimento.

 

Na Parte II deste texto iremos entender como programar adequadamente os menus e quais resultados esperar do método. Você pode acessá-la aqui: http://revistasimplesmente.com.br/contingencia-da-economia-de-fichas-parte-ii/.


[1] Excesso comportamental é a expressão usada para se referir a um comportamento inadequado que ocorre com frequência alta.

[2] Déficit comportamental é a expressão usada para se referir a um comportamento que ocorre com baixa frequência e com eficácia reduzida.

[3] Reforçador é o modo como se nomeia os eventos que ocorrem depois de, ou que são produzidos por, um comportamento, e que estão relacionados a sua maior probabilidade de ocorrência em condições futuras que sejam similares estrutural ou funcionalmente.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

BORGES, Nicodemos Batista. Análise aplicada do comportamento: utilizando a economia de fichas para melhorar desempenho. Revista brasileira de terapia comportamental e cognitiva, v. 6, n. 1, p. 31-38, 2004.

 

ZAMBOM, Luís Fernando; OLIVEIRA, Margareth da Silva; WAGNER, Márcia Fortes. A técnica da economia de fichas no transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. CEP, v. 90619, p. 900, 2006.

Desde seu nascimento, em 1990, vive no estado de Rondônia, Brasil. Durante seus primeiros 18 anos, período em que residiu em uma chácara, adquiriu o prazer por observar animais. Iniciou a graduação em Psicologia no ano de 2009, e se impressionou muito, a princípio, com a Psicanálise, migrando de modo gradativo para ideias cognitivistas e, por fim, migrou para a Análise do Comportamento, área com a qual se identificou apaixonadamente. Formou-se no final de 2013. Trabalhou de 2014 a 2017 como psicólogo da ação social no município de Santa Luzia d’Oeste/RO, mas exonerou-se do cargo para tomar posse como psicólogo da Educação no município de Alta Floresta d’Oeste, ambos na condição de funcionário público efetivo. Em sua práxis, utiliza-se dos conhecimentos e técnicas derivados da Ciência do Comportamento.
Os autores que mais o impressionaram foram C. Darwin, W. James, L. Wittgenstein e B.F Skinner.

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